Zoo de ‘Tiger King’ Reabre com Grandes Multidões, Expondo Felinos a Coronavírus

É sabido que os tigres podem ficar infetados com COVID-19 através dos humanos. Agora, centenas de pessoas estão a interagir com os animais diariamente.

Wednesday, May 20, 2020,
Por Natasha Daly
O Parque de Animais Exóticos Greater Wynnewood de Oklahoma, que antigamente pertencia a Joe Exotic, reabriu ...

O Parque de Animais Exóticos Greater Wynnewood de Oklahoma, que antigamente pertencia a Joe Exotic, reabriu e retomou as suas atividades de “interação com crias de tigre”. Esta reabertura acontece depois de cinco tigres terem acusado positivo para a COVID-19 em Nova Iorque, levantando preocupações entre os especialistas de que as interações continuadas com os visitantes podem colocar as crias em risco aumentado de contrair o vírus.

Fotografia de Steve Winter, National Geographic

Após um hiato de um mês, as interações com as crias de tigre no antigo zoo de Joe Exotic estão de regresso – expondo as crias não só ao stress das horas de interação com humanos, mas também ao risco de contrair o coronavírus.

O Parque de Animais Exóticos Greater Wynnewood de Oklahoma, que encerrou durante cerca de um mês devido às restrições estaduais de pandemia, apareceu na série de sucesso Tiger King da Netflix. As instalações foram alvo de críticas de defensores dos animais e de profissionais de jardins zoológicos, que afirmam que o zoo explora tigres desde o nascimento até à morte e que não alimenta os animais, e que estes não têm recintos nem cuidados veterinários adequados. No entanto, no primeiro fim de semana de maio, as multidões regressaram para brincar com as crias de tigre e para visitar a coleção de outros animais selvagens do parque.

“Estava apinhado de gente. Muito movimentado”, diz Daniela Toledo Vargas, que visitou o zoo com o seu marido na tarde de sábado – o dia em que o parque retomou as interações com crias. Daniela viu a série Tiger King e decidiu fazer uma reserva para uma das experiências com os tigres, que tinham uma enorme procura. Por 60 dólares por pessoa, os visitantes podem comprar 6 minutos de interação privada com duas crias de tigre. “Cheguei lá às duas da tarde e tivemos de esperar até as seis e vinte. Havia duas crias de tigre numa sala”, diz Daniela. Uma das crias não quis interagir e a outra começou a ficar muito agitada. “[A tratadora] disse que os animais estavam a fazer aquilo desde as nove da manhã. E disse que eram os mesmos tigres... desde o início do dia.”

Com ou sem pandemia, a interação com crias acarreta diversos problemas para o bem-estar dos animais. A National Geographic revelou em dezembro que muitas destas instalações privadas criam os tigres de forma acelerada, para que haja um fornecimento constante de crias. Assim que uma ninhada nasce, as crias são afastadas da mãe, fazendo-a ficar com o cio mais cedo, para poder reproduzir novamente. As crias têm uma utilidade económica que abrange um curto período de tempo – entre 8 a 12 semanas – porque rapidamente se tornam demasiado perigosas para interagir com os visitantes. As crias podem tornar-se reprodutores ou ficar em exibição – e há evidências de que algumas são mortas.

(O antigo proprietário do zoo, Joe Maldonado-Passage, conhecido por Joe Exotic, está a cumprir uma sentença de 22 anos de prisão por conspirar para assassinar uma das suas “rivais”, por matar cinco tigres e por vender ilegalmente tigres nas fronteiras estaduais. O zoo pertence agora a Jeff Lowe, antigo sócio de Maldonado-Passage.)

Agora, com a reabertura do zoo de Oklahoma em tempos de pandemia, os alarmes soaram para os grandes felinos – os tigres são suscetíveis à COVID-19. Em abril, cinco tigres e quatro leões no Zoo de Bronx, em Nova Iorque, testaram positivo para o coronavírus. Acredita-se que contraíram o vírus de um funcionário assintomático. No Parque Greater Wynnewood, centenas de pessoas interagem agora com as crias de tigre e alimentam-nas todos os dias, colocando os animais em risco de exposição ao vírus.

Crias de tigre e de “ligre” sentadas no relvado do Myrtle Beach Safari em abril de 2019. Estas instalações, que também aparecem na série Tiger King, reabriram recentemente ao público. Os visitantes desconhecem geralmente as práticas de criação necessárias para manter um abastecimento constante de crias – ou o que acontece a muitos dos tigres em cativeiro quando ficam demasiado grandes para interagir com o público e que não podem ser utilizados para reproduzir ou para serem exibidos em adultos.

Fotografia de Steve Winter, National Geographic

“Na melhor das circunstâncias, [a interação com crias] é uma prática questionável e insuportável”, diz Dan Ashe, presidente da Associação de Zoos e Aquários (AZA), um organismo de certificação que não tem o Parque Greater Wynnewood na sua lista de membros. “Levando em consideração o que sabemos sobre o risco de transmissão de COVID-19 de humanos para felinos, creio que é uma atitude imprudente.”

Não se sabe quantas pessoas entraram em contacto com as crias de tigre no dia de reabertura do zoo. Os representantes do parque não responderam aos emails e aos pedidos para comentar; no entanto, Lowe, o proprietário do zoo, respondeu à National Geographic por email depois de este artigo ter sido publicado: “Não estamos a fazer interações com crias de momento.” Mas Lowe recusou-se a oferecer mais detalhes.

Daniela Toledo Vargas diz que viu vários grupos a entrar no recinto durante a sua visita, incluindo uma família com seis crianças que entrou depois dela. E diz que também assistiu a uma experiência onde um tratador trouxe uma cria para interagir individualmente com um grupo de 25 pessoas. Os riscos não se cingem apenas aos tigres – os especialistas em saúde pública alertam que várias pessoas próximas umas das outras representam um risco de transmissão viral de humano para humano, e as taxas de infeção continuam a aumentar nos EUA.

Daniela Toledo Vargas e muitos outros visitantes que interagiram com as crias no sábado, no domingo e na segunda-feira, disseram à National Geographic que, antes de entrarem no recinto das crias, não foram tomadas medidas adicionais relacionadas com o coronavírus. Os funcionários não usavam máscaras, nem pediram aos visitantes para usar luvas ou máscaras.

“Eles não tomaram quaisquer precauções”, diz Daniela. “Eles não nos disseram nada sobre o coronavírus.”

As instalações não credenciadas à beira da estrada, onde se fazem interações com animais, raramente têm veterinários, diz Ashe. Ao contrário do que aconteceu no Zoo de Bronx, que é certificado pela AZA e onde os veterinários agiram rapidamente para testar os grandes felinos e colocaram-nos sob observação rigorosa, Ashe diz que, se um felino contrair o vírus numa instalação destas, “é pouco provável que o consigam diagnosticar, e eu questionaria até... mesmo que reparassem nisso, o que será que fariam?”

Um despertar para ações de emergência
No dia 29 de abril, para responder à reabertura do Myrtle Beach Safari na Carolina do Sul, parque onde também se fazem interações com crias e que também aparece na série Tiger King, a Fundação PETA apresentou uma petição de emergência ao Departamento de Agricultura dos EUA – a agência encarregada do cumprimento da Lei do Bem-Estar Animal – a pedir uma interdição temporária nas interações com crias e os contactos de proximidade com grandes felinos durante a pandemia.

Ashe diz que a AZA apoia esta petição. “Normalmente, não costumamos estar alinhados com a PETA mas, em tempos extremos, criam-se estranhas alianças.”

O Departamento de Agricultura dos EUA ainda não respondeu à petição, diz o porta-voz da PETA David Perle.

As multidões presentes no Parque Greater Wynnewood no fim de semana de reabertura sugerem que a popularidade viral de Tiger King se traduziu em visitas reais, confirmando as preocupações dos especialistas de que a série aumentaria a procura por experiências de interação com crias. Os críticos dizem que a série encobriu as questões mais significativas do bem-estar animal da indústria de interações com animais. “A obscenidade da série e a ausência de um foco real nos cuidados abismais dos animais... foi realmente um péssimo serviço”, diz Ashe.

“Eu vi a série Tiger King e foi por isso que visitei o parque”, diz Daniela Toledo Vargas. “Mas eu senti-me mesmo muito, muito mal pelos tigres.” Para além de as crias terem de lidar com visitas constantes, Daniela diz que os recintos eram muito mais pequenos do que ela imaginava depois de ter visto a série. Os visitantes também podiam pagar 5 dólares para alimentar tigres maiores, “e a comida que eles davam eram biscoitos para animais. E tudo que se via nas jaulas eram biscoitos para animais por todo o lado. Como se os animais já não os quisessem. E isso também me fez sentir mal”, diz Daniela.

Daniela diz que ficou surpreendida com a quantidade de animais presentes no parque, e que muitas das jaulas tinham quatro ou cinco animais. “Eu fiquei a pensar, por que será que precisam de tantos animais?”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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