Águia-imperial-ibérica Avistada em Território Transmontano

Após uma ausência de cerca de 20 anos enquanto reprodutora, a águia-imperial-ibérica voltou a nidificar em Portugal em 2003. Foi novamente avistada em Trás-os-Montes, em 2018 e em abril deste ano.

Publicado 9/06/2020, 13:11 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
Uma águia-imperial-ibérica vulnerável, Aquila adalberti, no Jardim Zoológico de Madrid.

Uma águia-imperial-ibérica vulnerável, Aquila adalberti, no Jardim Zoológico de Madrid.

Fotografia de Joel Sartore, National Geographic Photo Ark


A águia-imperial-ibérica pode estar de regresso a Trás-os-Montes. Após um período de extinção do território português, que data aos finais da década de 70 e inícios dos anos 80, a nidificação voltou a ser confirmada em 2003, na região do Tejo Internacional.

Ainda no início do século XX havia um registo abundante da espécie águia-imperial-ibérica, em grande parte da sua zona de distribuição. Em meados do século as águias eram mortas pelos criadores de gado, tal como muitas outras, apesar de nunca se ter observado ataques desta espécie contra rebanhos.

Nos últimos 20 anos, houve um esforço por parte de organizações de conservação da natureza no território nacional, para o aumento efetivo da águia-imperial-ibérica. As primeiras medidas de proteção implementadas, surgiram em meados dos anos 60.

O desenvolvimento das redes elétricas foi um dos elementos causadores do aumento das mortes de águias jovens, que chocavam com os cabos de alta tensão. O uso de pesticidas e a propagação da mixomatose, entre outras epidemias que afetam os coelhos - a sua principal fonte de alimento - foram também outras das causas que levaram à gradual extinção desta espécie.

O abate a tiro, a perda e degradação de habitat, a escassez de recursos tróficos, como o declínio das populações de coelho-bravo e a perturbação das áreas de nidificação são, em suma, os fatores de maior impacto na extinção da águia-imperial-ibérica.

Características únicas de uma espécie quase extinta
Esta espécie, que é uma das mais sensíveis às perturbações provocadas pelo homem, é de plumagem parda e, na parte superior das asas, de cor branca. A nuca é ligeiramente mais pálida que o restante corpo, sendo a cauda mais escura.

Os indivíduos subadultos são pardos avermelhados, sem diferenças de coloração e não desenvolvem a plumagem até aos 5 anos de idade, quando atingem a maturidade sexual. A espécie habita em áreas de sobreiros e azinheiras, com pradarias próximas.

A sua alimentação é composta por coelhos, lebres, pombos, corvos e outras aves. Em menor escala, alimentam-se de raposas e pequenos roedores ou, ainda, de carne de cadáveres.

Em 2013 existiam 407 casais reprodutores em toda a Península Ibérica, contabilizando um aumento de 275 casais desde 1999. Em Portugal existiam 11 casais e, os restantes, encontravam-se distribuídos pelas regiões autónomas espanholas, contando 150 em Castela-Mancha, 91 na Andaluzia, 56 em Castela e Leão, 50 na Estremadura e 49 na Comunidade de Madrid.

A águia-imperial-ibérica é monogâmica e a época de acasalamento ocorre de março a julho. Nessa altura, as águias restauram um dos ninhos que têm usado durante anos, rodando de um para outro, situados na copa de árvores como sobreiros e pinheiros. Nas zonas de reflorestação passaram a nidificar sobre eucaliptos.

O avistamento de uma das águias mais raras do mundo
O sistema de foto-armadilhagem, instalado no Parque Natural do Douro Internacional, registou a espécie pela segunda vez, num período de dois anos. O facto foi revelado pela Associação Palombar, uma Organização Não Governamental que se dedica ao estudo de aves rupícolas, entre outras.

As imagens foram captadas no Parque Natural de Douro Internacional, em setembro de 2018, no concelho de Miranda do Douro e, no final de abril de 2020, no concelho de Mogadouro, no Campo de Alimentação de Aves Necrófagas, próximo da aldeia de Bruçó.

A espécie é uma das aves de rapina mais ameaçadas da Europa, estando entre as mais raras a nível mundial. Em Portugal, a águia-imperial-ibérica tem o estatuto e conservação “Criticamente em Perigo” pelo Livro Vermelho dos Vertebrados e encontra-se classificada como “Vulnerável” pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais.

Este foi o segundo registo da Palombar. Trata-se de um indivíduo imaturo e tudo indica que a águia-imperial-ibérica esteja em dispersão e a estabelecer o seu território, o que poderá significar um possível retorno ao país.

Projetos de conservação da águia imperial
O papel dos Campos de Alimentação de Aves Necrófagas é notável no que respeita à conservação das espécies estritamente ou parcialmente necrófagas, com estatuto de conservação muito desfavorável, como é o caso em questão.

O projeto de conservação transfronteiriço Life Rupis tem também um papel importante nos avistamentos. Desde o ano de 2015, o Life Rupis, lançado por nove entidades ibéricas ligadas à conservação da natureza no Douro Internacional, desenvolve estratégias de preservação de várias aves de rapina e necrófagas ameaçadas.

O projeto conta com um financiamento de 3.5 milhões de euros e é cofinanciado através do programa LIFE da União Europeia e pelos parceiros envolvidos. Entre eles estão a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, a Associação Transumância e Natureza, a Palombar, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, a Junta de Castilla y León, a Fundación Patrimonio Natural de Castilla y León, a Vulture Conservation Foundation, a EDP Distribuição e a GNR.

O projeto LIFE Imperial “Conservação da Águia-imperial-ibérica em Portugal” visa a criação de condições para a manutenção e aumento da população da espécie. Tal ocorre através de várias ações de conservação, que visam reduzir o impacto das ameaças sobre a mesma e melhorar as condições de sustentabilidade dos territórios.

O projeto incide na política e ordenamento do território, na gestão direta da espécie, do seu habitat de nidificação e alimentação, na gestão e recuperação das principais espécies-presa, sensibilização da população em geral e dos setores de atividade potencialmente envolvidos na conservação da espécie.

O LIFE Imperial trata-se de uma oportunidade de restabelecer a população nacional de águia-imperial-ibérica, aplicando algumas das recomendações do Plano de Ação Europeu sobre a espécie.

Os países da União Europeia estão a trabalhar em conjunto no âmbito da Rede Natura 2000, na qual foi implementado o Projeto LIFE, sendo selecionado por incluir uma das espécies e habitats mais ameaçados da Europa.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) constituiu um grupo de trabalho da águia-imperial-ibérica, coordenado por Manuela Nunes, responsável por definir e propor as linhas prioritárias de atuação e conservação da espécie.

Algumas ações de conservação atuais:
- Redução dos fatores de perturbação ou da ameaça do sucesso reprodutor;
- Gestão do habitat;
- Recuperação de ninhos e estabelecimento de ninhos artificiais;
- Redução das mortes acidentais em linhas elétricas;
- Manutenção dos contactos com os proprietários e gestores de caça;
- Ações relacionadas com a colocação ilegal de venenos;
- Seguimento de aves com transmissores de rádio e satélite;
- Estudo sobre a dieta da espécie.

A águia-imperial-ibérica é uma das mais emblemáticas da Península Ibérica e impressiona pela sua imponência. Se avistar alguma águia poderá colaborar, informando o Projeto LIFE Imperial.

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