Marcas de Moda de Luxo com Milhares de Peles Exóticas Apreendidas nos EUA

Um relatório revela que empresas como Chanel, Gucci e Coach tiveram milhares de artigos importados de peles exóticas apreendidos pelas autoridades dos EUA entre 2003 e 2013.

Wednesday, June 3, 2020,
Por Rachel Nuwer
As autoridades do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA confiscaram estas botas de pele ...

As autoridades do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA confiscaram estas botas de pele de répteis que foram importadas ilegalmente. Entre 2003 e 2013, as autoridades apreenderam 5.607 itens de moda de luxo considerados ilegais. Quase 70% destes produtos eram de cabedal, incluindo pele de répteis.

Fotografia de Kate Brooks, Redux


Algumas das famosas marcas de luxo – Ralph Lauren, Gucci, Michael Kors e dezenas de outras – tiveram entre 2003 e 2013 mais de 5.600 itens feitos com produtos ilegais de vida selvagem confiscados nos portos de entrada dos EUA pelo Serviço de Pesca e Vida Selvagem. A National Geographic foi informada pelos investigadores que publicaram recentemente o seu trabalho na revista EcoHealth.

O estudo não refere que estas empresas de moda de luxo estão envolvidas de forma intencional no contrabando de bens ilegais, nem refere diretamente quais são as empresas potencialmente ligadas às importações ilegais mais recentes; desde 2013 que o governo dos EUA não divulga ao público os nomes das empresas que importam produtos de vida selvagem, uma medida que foi contestada judicialmente.

Mas Monique Sosnowski, investigadora principal do caso e doutoranda em justiça criminal na Universidade da Cidade de Nova Iorque (CUNY), diz que as apreensões destacam a falta de controlos adequados ao longo de toda a cadeia de abastecimento. “Não estamos a tentar destacar a Gucci e a dizer que são péssimos porque usam estes materiais, mas sim a apontar esta enorme falha no sistema”, diz Sosnowski. “Existem várias proteções em vigor, mas estas empresas [continuam] de alguma forma a importar mercadorias ilegais.”

Para a sua análise, Monique Sosnowski e Gohar Petrossian, criminologista da CUNY, usaram a Lei da Liberdade de Informação (FOIA) para obter os registos de apreensões do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA entre 2003 e 2013. E identificaram 474 apreensões relacionadas com produtos de moda de luxo, incluindo 5.607 itens individuais, quase 70% dos quais eram produtos exóticos de cabedal. As peles de répteis representavam 84% de todos os itens, muitos dos quais eram cintos, pulseiras, carteiras, sapatos e malas.

Estes números provavelmente estão longe de revelar a gravidade do problema. Os estudos feitos sobre a aplicação da lei descobrem rotineiramente que as autoridades dos EUA conseguem intercetar menos de uma em cada dez remessas ilegais de vida selvagem, diz Bruce Weissgold, antigo analista dos serviços de inteligência do comércio de répteis e especialista em comércio internacional do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA.

O estudo da CUNY, publicado em janeiro, revela que, apesar de existirem várias camadas de controlo nos países e nas empresas, os produtos ilegais de vida selvagem contaminaram as cadeias de abastecimento de algumas das marcas de moda mais conhecidas do mundo, independentemente de essas empresas terem conhecimento ou não. Apesar de o estudo se concentrar nos registos das autoridades de 2003 a 2013, os números agregados de 2008 a 2019, analisados por Sosnowski, indicam que o tráfico de animais selvagens continua a ser um problema sério nos EUA. Em 2019, foram apreendidas mais de 4 mil remessas de produtos ilegais.

Molly Morse, porta-voz da LVMH, proprietária de várias empresas presentes no relatório – incluindo a Louis Vuitton, Loro Piana, Marc Jacobs, Christian Dior, Givenchy e Fendi – disse por email que as apreensões com ligações à LVMH “aconteceram há muitos anos e que estavam geralmente relacionadas com problemas de documentação e com processos de etiquetagem”.

“Temos formações internas rigorosas e processos para cumprir todos os regulamentos... e estamos em contacto permanente com as entidades reguladores do mundo inteiro para estarmos a par das leis emergentes”, afirmou Morse.

Neha Wadhwa, porta-voz da Ralph Lauren, disse que a inclusão da empresa na lista de apreensões era “enganosa e incorreta”, acrescentando por email: “Temos uma longa história de compromisso para com o bem-estar animal. Fomos uma das primeiras marcas de luxo a proibir peles há quase 15 anos e continuamos comprometidos em garantir que todas as espécies são usadas de forma sustentável.”

Os representantes da Michael Kors, Jil Sander e Coach não responderam aos pedidos para comentar as apreensões. O Grupo Kering, detentor da Gucci e de outras empresas citadas, incluindo a Alexander McQueen, Bottega Veneta e Yves Saint Laurent, reconheceu os contactos feitos pela National Geographic, mas acabou por não fazer comentários.

Embora grande parte das empresas não tenha feito comentários sobre os produtos apreendidos, muitas possuem políticas de responsabilidade social corporativa que promovem a rastreabilidade, o bem-estar animal, a utilização sustentável de vida selvagem e algumas proibiram o uso de determinados produtos de vida selvagem.

Marcas de renome
A equipa da CUNY omitiu os nomes das empresas vinculadas às apreensões no seu trabalho publicado na EcoHealth porque, segundo Sosnowski, o objetivo de partilhar investigações em revistas científicas não é o de nomear ou envergonhar as partes que podem estar associadas a atividades ilegais – sejam países, empresas ou indivíduos – mas sim identificar tendências maiores. Sosnowski diz que partilhou a lista exclusivamente com a National Geographic para “aproximar a questão” dos consumidores.

De acordo com os registos oficiais das apreensões, a Ralph Lauren representou 29% dos itens apreendidos, seguida pela Gucci (16%), Michael Kors (10%), Jil Sander (6%) e Coach (5%). A Gucci teve o maior número de incidentes de apreensões individuais – 50 – seguida pela Yves Saint Laurent – 41.

Os dados do comércio internacional mostram que, de 2003 a 2013, foram importados para os EUA 11.7 milhões de produtos feitos com peles de répteis, o que significa que as 5.607 apreensões de moda de luxo apresentadas no estudo representam apenas 48 em cada 100 mil itens importados de répteis, diz Daniel Natusch, biólogo de conservação na Universidade Macquarie, na Austrália, e membro de vários grupos de especialistas em répteis e do Grupo de Especialistas em Uso Sustentável e Meios de Subsistência da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), o corpo que define o estatuto de conservação de animais selvagens.

Um casaco de pele de leopardo apreendido pelas autoridades está pendurado em prateleiras que estão repletas de outros produtos de vida selvagem no Repositório Nacional de Propriedade de Vida Selvagem do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, no Colorado.

Fotografia de Brennan Linsley, AP

Os produtos de vida selvagem, incluindo peles e cabedais exóticos, são frequentemente utilizados na moda de luxo, embora um número crescente de empresas tenha afirmado que já não os iria utilizar em resposta à pressão dos consumidores preocupados com o bem-estar e conservação animal. A Diane von Furstenberg, Chanel e Jil Sander, entre outras, já não usam cabedal exótico. A Stella McCartney, Versace, Michael Kors e Gucci estão entre as marcas que já não usam peles. A indústria de moda defende muitas vezes a utilização de produtos legais de vida selvagem, alegando que estes produtos suportam meios de subsistência localmente. E também afirmam que os seus esforços são cruciais na conservação, porque oferecem um incentivo económico na gestão e proteção de espécies e respetivos habitats para uma utilização sustentável.

Como acontece com muitas das indústrias envolvidas no comércio de animais e produtos de vida selvagem – que variam entre animais de estimação e animais exóticos, madeira e suplementos medicinais ou para a medicina tradicional – a linha que divide o legal e o ilegal costuma ser muito ténue e ambos os comércios existem paralelamente. E há muitas formas pelas quais os produtos, ou práticas, ilegais podem entrar na cadeia de abastecimento da indústria de moda.

Em alguns países exportadores, de onde vêm os animais usados na indústria de moda, incluindo a Indonésia e a Malásia, existem muitas evidências de corrupção entre as autoridades – que escondem a aquisição ilegal de animais selvagens emitindo autorizações legais para os exportadores. “Isto faz com que seja praticamente impossível saber se os sapatos que estão numa caixa de remessa têm uma origem legal”, diz Weissgold, antigo analista do comércio de répteis do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA.

Outra violação comum acontece quando os animais capturados ilegalmente na natureza são mal rotulados com a designação “criado em cativeiro”.

Embora algumas empresas tenham enveredado esforços para melhorar as suas práticas relacionadas com a vida selvagem, Weissgold diz que é preciso fazer mais. “Tendo em conta os recursos, o alcance e a experiência que têm, acredito que as empresas de moda deviam ser boas cidadãs corporativas”, diz Weissgold. “Estas marcas têm uma posição única para influenciar os seus fornecedores.”

Algumas das apreensões estão relacionadas com animais em perigo de extinção
Quase 58% das apreensões documentadas no relatório da EcoHealth são referentes a animais capturados na natureza, em vez de criados em cativeiro.

A Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES), que regula o comércio transfronteiriço de vida selvagem, proíbe estritamente o comércio de 13 das cerca de 60 espécies identificadas nas apreensões. Entre elas estão crocodilos-do-nilo e jacarés Caiman latirostris – a não ser que sejam criadas em cativeiro com as devidas permissões. E duas das espécies – o antílope saiga e o crocodilo-siamês – estão em perigo crítico de extinção. Os investigadores estimam que existam apenas entre 500 e 1000 crocodilos-siameses nas zonas húmidas do Sudeste Asiático.

A CITES tem níveis diferentes de proteção para as espécies, dependendo da forma como estão ameaçadas. Nos casos em que o comércio é permitido, cada país deve conceder permissões de exportação, mas só o podem fazer se as evidências científicas mostrarem que o comércio não irá prejudicar a sobrevivência dos animais na natureza.

Trinta e seis das espécies, incluindo a pitão reticulada, estão catalogadas como espécies “pouco preocupantes” – por outras palavras, não correm perigo de extinção – mas muitas outras, incluindo a pitão-africana, a cobra Xenopeltis e várias espécies de serpentes, não foram avaliadas pela UICN, nem receberam proteções concedidas pela CITES. Não se sabe quantos animais destes existem na natureza, nem se as suas populações estão a aumentar, a diminuir, ou se o seu comércio é sustentável.

“O facto de mais de 50% das apreensões serem de animais capturados na natureza deve ser o suficiente para fazer soar alguns alarmes”, diz Chris Shepherd, diretor executivo da Monitor, uma organização sem fins lucrativos que trabalha na redução do comércio ilegal e insustentável de animais selvagens. “Sabe-se pouco sobre o estatuto de muitas destas espécies na natureza e, portanto, o impacto do comércio ilegal – e do comércio legal também – é amplamente desconhecido.”

Os dados também revelam que o comércio de animais selvagens é feito a nível internacional, diz Sosnowski, e que os produtos ilegais atravessam frequentemente várias fronteiras antes de serem detetados. Mais de metade das apreensões feitas nos EUA foram importadas de Itália, França e Suíça, embora a maioria dos produtos de origem animal venha do Sudeste Asiático.

Apenas uma fração dos produtos ilegais é descoberta
As autoridades dos EUA estimam que são confiscados apenas 10% dos produtos de vida selvagem importados ilegalmente, de acordo com Weissgold, agente aposentado do Serviço de Pesca e Vida Selvagem. “Portanto, é um mundo onde temos de ter cuidado com o que compramos. Nunca temos 100% de certeza que o produto que estamos a comprar foi adquirido de forma legal.”

Mas Natusch discorda. “Estas são algumas das maiores empresas do mundo e também são das mais responsáveis, e têm uma imagem de marca importante para proteger.”

Natusch acredita que muitas das 5.607 apreensões citadas no estudo foram provavelmente erros cometidos pelas empresas exportadoras ou importadoras – “violações de documentação, erros no escritório ou mal-entendidos simples e perfeitamente razoáveis”, como acontece quando uma empresa se esquece de declarar botões de concha numa blusa.

Uma bolsa de pele de cobra apreendida pelas autoridades está agora armazenada no Repositório Nacional de Propriedade de Vida Selvagem. Os produtos derivados de répteis representam 84% das 5.607 apreensões, feitas entre 2003 e 2013, relacionadas com a moda de luxo nos EUA.

Fotografia de David Zalubowski, AP

Por outro lado, Weissgold diz que, com base nos seus quase 25 anos de experiência enquanto analista numa agência de fiscalização federal, as violações presentes na documentação são “bastante simbólicas da fraude existente em grande escala no setor”.

Quando associamos isto a um sistema judicial dos EUA que tem padrões elevados de provas, “os inspetores de vida selvagem ficam apenas a olhar para um contentor sem saberem o que podem fazer em relação a isso”, diz Weissgold.

Preocupações com o bem-estar animal
Mesmo em situações em que o comércio de produtos de origem animal destinados à indústria da moda é legal, continuam a existir preocupações relacionadas com o bem-estar animal, diz Weissgold. Uma investigação de 2016 feita pela People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), uma organização de defesa conhecida por táticas que por vezes são controversas, concluiu que as quintas vietnamitas, que supostamente forneciam peles de crocodilo a um curtume pertencente à LVMH, confinavam crocodilos durante 15 meses em pequenas jaulas de betão, antes de os abaterem para retirarem as peles. Os investigadores da PETA filmaram trabalhadores nas instalações de curtume a cortarem as espinhas dos crocodilos – paralisando-os, sem os matarem – antes de os esfolarem vivos.

Quando questionada sobre a investigação da PETA para este artigo, a LVMH não refutou as descobertas, mas disse que, em 2016, Heng Long, o curtume de Singapura em questão, já não adquiria crocodilos nas quintas vietnamitas que aparecem no vídeo da PETA.

Shepherd, da organização Monitor, diz que o tratamento desumano e o sofrimento são a norma para a vida selvagem capturada nos países do Sudeste Asiático. E outra investigação, também realizada pela PETA, descobriu que as cobras geralmente são esfoladas vivas. Karl Ammann, cineasta de investigação, documentou a “lavagem” em grande escala de répteis capturados na natureza, um processo onde os fornecedores fazem com que os animais selvagens passem falsamente por animais criados em cativeiro – no Laos, na Malásia e no Vietname. Ammann também registou cobras pitão e varanos-malaios a serem atingidos na cabeça por martelos e esfolados vivos na Indonésia. Um relatório de 2013 do Serviço Federal Veterinário Suíço – sobre o comércio de pele de répteis – concluiu que muitos dos métodos utilizados para matar os animais, incluindo decapitação, congelamento, aquecimento, asfixia, afogamento e corte de veias jugulares, eram desumanos.

Em 2019, a LVMH lançou um sistema de certificação para as quintas de crocodilos, na tentativa de fortalecer a sua capacidade de rastreio das peles e para acompanhar o bem-estar animal. Mas outras empresas foram ainda mais longe.

Em 2018, a Diane von Furstenberg proibiu a utilização de peles exóticas nos seus produtos, e a Chanel seguiu o exemplo dois meses mais tarde, citando a dificuldade em obter produtos de origem ética. A marca Jil Sander também fez o mesmo.

Porém, em vários artigos de opinião, Natusch e outros condenaram as interdições de peles exóticas por serem bem-intencionadas, mas “demasiado simplistas” e “por não serem suportadas por evidências”. Natusch e outros investigadores estão a trabalhar com empresas como o Grupo Kering, dono da Gucci e de outras casas de moda de luxo, num esforço para controlar melhor a cadeia de abastecimento.

Em 2017, o Grupo Kering abriu uma quinta de cobras pitão na Tailândia, para fornecer peles de forma sustentável e mais humana, disse um representante da empresa ao The Guardian. Mas o grupo continua a procurar animais da natureza.

Quatro anos antes, o Grupo Kering fez uma parceria com o Grupo Especialista Boa e Pitão da UICN e com o Centro Internacional de Comércio, uma agência multilateral com mandatos conjuntos da Organização Mundial de Comércio e das Nações Unidas, para lançar um grupo chamado Python Conservation Partnership. A missão desta parceria passa pelo melhoramento da sustentabilidade do comércio de cobras pitão e pela promoção da transparência, do bem-estar animal e dos meios de subsistência locais.

Entre 2014 e 2016, o primeiro de vários relatórios solicitados pela Python Conservation Partnership recomendou a substituição de todos os métodos utilizados para matar cobras pitão na China, na Tailândia e no Vietname – incluindo a decapitação, o afogamento e o isolamento da boca e do ânus das cobras para se usar ar comprimido bombeado para dentro dos seus corpos – por práticas menos cruéis. Outro relatório sobre a Indonésia e a Malásia, feito pelo mesmo grupo em 2016, concluiu que as afirmações sobre práticas desumanas de abate de cobras pitão nesses países “não podiam ser substanciadas” porque os comerciantes destruíam o cérebro das cobras antes de as esfolarem.

Todos os relatórios concluíram que a recolha de vida selvagem e a criação em cativeiro de cobras pitão podiam ser sustentáveis e suportar meios de subsistência locais, ajudando na conservação, e dando às pessoas que capturam cobras pitão na natureza um incentivo para proteger os répteis e os seus habitats.

“Sem a indústria de luxo, muitas das espécies utilizadas estariam numa posição muito pior”, diz Natusch, coautor dos relatórios da Python Conservation Partnership. “Os benefícios deste comércio superam os seus efeitos negativos.”

No entanto, o relatório da Indonésia e da Malásia confirma que as peles de cobras pitão são comercializadas ilegalmente entre países do Sudeste Asiático, com níveis significativos, e que o uso indevido de licenças internacionais permite a lavagem de animais capturados na natureza, que são rotulados como “criados em cativeiro”. O estudo constatou que os níveis elevados de comércio ilegal são alimentados pela pobreza e pelas oportunidades apresentadas pelas populações abundantes de cobras pitão. Os autores também disseram que as quotas comerciais são excessivamente limitadas e sugerem o seu aumento ou eliminação.

Jon Paul Rodriguez, presidente da Comissão de Sobrevivência de Espécies da UICN, defende o financiamento do grupo por organizações do setor porque, segundo ele, é uma prática comum na ciência. A utilização sustentável de vida selvagem é um dos pilares da nossa organização, diz Rodriguez, e os investigadores da UICN precisam de aderir a uma abordagem baseada nas evidências, independentemente de quem financia o estudo. “Não se pode comprar a ciência. O meu mantra enquanto presidente é colocar sempre as evidências em primeiro lugar.”

Todas as publicações da UICN, incluindo as financiadas pelo Grupo Kering, também passam por uma revisão interna por pares. “Como acontece com qualquer artigo científico, [as publicações] estão disponíveis para que outros investigadores as possam contradizer.”

Os críticos afirmam que o foco da UICN na “utilização sustentável” foi demasiado longe, chegando a um ponto em que “até o uso de espécies em perigo de extinção foi defendido pela UICN”, diz Mark Auliya, herpetologista do Museu de Pesquisa Zoológica Alexander Koenig, em Bonn, na Alemanha. Auliya é um destes críticos e também é membro do Grupo de Especialistas Boa e Pitão da UICN. Ele diz que os estudos, incluindo os da UICN, subestimam geralmente a complexidade do comércio de vida selvagem e as suas ligações frequentes com o crime organizado; as descobertas sobre o comércio sustentável não refletem geralmente a realidade das espécies no terreno.

Os relatórios do Grupo de Especialistas Boa e Pitão foram financiados pela indústria, continua Auliya, e foram publicados sem a consulta de todo o grupo – algo que Auliya diz criticar nas reuniões internas. “Nem todos os cientistas com experiência no terreno apoiariam as descobertas destes estudos.”

Nomes das empresas omitidos
O estudo da CUNY não esclarece se as medidas tomadas pela Diane von Furstenberg, Chanel, Jil Sander, o Grupo Kering e outros reduziram as apreensões relacionadas com a moda de luxo nas fronteiras dos EUA. Isto acontece porque, depois de 2013, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem começou a ocultar os nomes dos importadores vinculados a apreensões nas solicitações de registos públicos.

Weissgold, que trabalhava no serviço quando estas diretrizes entraram em vigor, diz que pediu muitas vezes uma explicação, mas que nunca obteve uma resposta convincente. Ele suspeita que a decisão tenha sido, pelo menos em parte, estimulada pelas empresas que se queixam de que os seus concorrentes poderiam recolher segredos comerciais nos registos de apreensões.

Seja qual for o motivo, a falta de transparência em todos os registos governamentais de importação e exportação de animais selvagens “está a algemar por completo [as] comunidades de conservação, impedindo-as de avaliar os dados comerciais”, diz Weissgold.

O Serviço de Pesca e Vida Selvagem e o Departamento do Interior, que supervisiona este serviço, não teceram comentários sobre as razões pelas quais o serviço começou a ocultar os nomes das empresas nos registos de apreensões.

Weissgold acrescenta que não tem motivos para acreditar que as importações ilegais relacionadas com a moda de luxo tenham diminuído desde 2013. Chris Shepherd, da organização Monitor, também acredita que o problema se mantém. Para ele, a mensagem dada aos consumidores é clara: “A compra de produtos de vida selvagem pode estar a contribuir para o declínio de espécies na natureza e pode estar a contribuir para o comércio ilegal. Em caso de dúvida, não se deve comprar.”

Sosnowski espera que o estudo fomente a transparência e melhorias na cadeia de abastecimento e na aplicação da lei, desde a origem até ao produto final. “Queremos que as pessoas saibam que estas são as marcas que todos nós conhecemos e gostamos, para que percebam que, enquanto consumidores, podem ajudar a levar o setor a práticas mais sustentáveis.”

Em última análise, a procura do consumidor é o que faz com que as empresas levem em consideração o bem-estar e a conservação animal, diz Weissgold.

“Penso que se os consumidores soubessem que a pele de pitão usada na sua bolsa pode ter sido retirada de um animal vivo, alguns iriam contorcer-se ou até abandonar a loja”, diz Weissgold. “Mas sejamos honestos, muitas pessoas olham para o objeto como sendo apenas uma bolsa.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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