Hamster Selvagem Mais Raro do Mundo em Perigo Crítico de Extinção

Enquanto os cientistas alertam que o pequeno roedor pode desaparecer dentro de 30 anos, os esforços para a sua reintrodução em partes da Europa estão a aumentar.

Monday, July 20, 2020,
Por Christine Dell'Amore
O hamster europeu, também conhecido por hamster-comum, já foi muito abundante na Europa e no Sudoeste ...

O hamster europeu, também conhecido por hamster-comum, já foi muito abundante na Europa e no Sudoeste Asiático.

Fotografia de JOEL SARTORE, NATIONAL GEOGRAPHIC PHOTO ARK

Com as suas bochechas arredondadas, patinhas pequenas e corpos peludos que se encaixam de forma perfeita na palma da mão, os hamsters domesticados são animais de estimação muito populares. Mas menos conhecidas são as 26 espécies de hamsters selvagens que vagueiam por algumas regiões da Europa, Ásia e Médio Oriente – todas elas fofas, mas não necessariamente amigáveis.

O agressivo hamster europeu, por exemplo, salta e morde qualquer pessoa que lhe tente tocar, diz Mikhail Rusin, investigador do Zoo de Kiev, na Ucrânia. “Mesmo os que nascem em cativeiro, quando crescem, não são meigos”, diz Rusin.

Por mais ferozes que sejam, estes roedores de meio quilo não se conseguem defender de ameaças como as alterações climáticas, a agricultura e a poluição luminosa. Estes fatores provavelmente contribuíram para o declínio da população de hamsters selvagens, levando recentemente a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) a designar a espécie como estando em perigo crítico de extinção.


Outrora encontrados nas pradarias da Europa e do Sudoeste Asiático, a faixa de alcance dos hamsters encolheu drasticamente. O seu índice caiu 94% em França – onde a sua faixa de alcance está agora limitada à região da Alsácia – e mais de 75% na Europa de Leste, sobretudo na Ucrânia e na Rússia. De acordo com a UICN, se não forem tomadas medidas, este hamster estará extinto dentro de três décadas.

O estado infeliz em que a espécie se encontra pode estimular novos esforços de conservação, diz Rusin, autor da nova classificação da UICN. Rusin e os seus colegas já estão a fazer a sua parte: em meados de julho, reintroduziram 11 hamsters criados em cativeiro na natureza, no Parque Nacional Khotyn, na Ucrânia – a primeira vez em que estes animais foram reintroduzidos no país.

A conservação dos hamsters europeus é importante porque são uma espécie basilar, servindo como presa fundamental para uma série de predadores, desde a raposa-vermelha europeia às grandes aves como o bufo-real.

“Se perdermos esta espécie, o ecossistema pode entrar em colapso”, diz Rusin – e isso, por sua vez, pode afetar as comunidades humanas que dependem do ambiente para obter comida, água e outros recursos. “Algumas pessoas pensam que estes animais estão desligados da natureza, mas não estão.”

A extinção da espécie também tornaria o mundo menos colorido, acrescenta Rusin. As suas barrigas negras, manchas brancas e as costas castanhas tornam provavelmente o hamster “num dos roedores mais bonitos da Europa”.

Teia complexa de ameaças
Os hamsters europeus evoluíram para viver pouco tempo: nascem depois de 18 dias de gravidez e a sua vida útil é curta, cerca de dois anos. Porém, ao longo do século passado, as taxas de reprodução e vida útil do hamster caíram de forma significativa. As fêmeas, que tinham em média 20 crias por ano durante a maior parte do século XX, têm agora apenas cinco ou seis, e a esperança média de vida, que agora ronda os dois anos, era cerca de três vezes superior.

Não se sabe realmente qual é a razão para este declínio. Provavelmente, é uma combinação de fatores, incluindo a expansão da monocultura – a prática de plantar exclusivamente uma cultura, geralmente trigo ou milho – por toda a Europa.

Enquanto habitantes das pradarias, os hamsters vivem principalmente em terras agrícolas e alimentam-se das colheitas. Mas uma dieta composta só por milho ou trigo é nutricionalmente pobre e pode provocar problemas de saúde, como deficiências de proteína e vitamina B3. A falta de B3, por exemplo, pode dar origem a comportamentos anormais nas mães, como o infanticídio, diz Caroline Habold, ecofisiologista da CNRS-Universidade de Estrasburgo. E a falta de proteína no leite das mães, que só comem trigo, pode afetar o desenvolvimento das crias. Para além disso, quando os agricultores fazem as colheitas, os hamsters ficam subitamente privados de comida e mais vulneráveis a predadores.

Um hamster europeu que foi criado em cativeiro está num recinto protegido, antes de ser reintroduzido na natureza, em França.

Fotografia de Mathilde Tissier (IPHC – LIFE Alister)

Os invernos mais quentes e húmidos, devido às alterações climáticas globais, também são prejudiciais para a espécie. No inverno, estes animais hibernam e abrem buracos com quase dois metros de profundidade, onde se aconchegam quentes e isolados pela cobertura de neve. Sem este manto de neve, ficam mais expostos aos elementos, como as temperaturas baixas e chuva – fatores que podem matar os animais.

Um estudo feito na Alsácia com a coautoria de Caroline Habold sugere que, desde 1937, a combinação entre a agricultura de milho e o aumento nas chuvas de inverno pode ter provocado um declínio de até 21% no peso corporal dos hamsters. O baixo peso corporal também está relacionado com a queda na fertilidade.

Outro dos possíveis fatores para o declínio da espécie é a poluição luminosa, que pode estar a afetar os ritmos circadianos dos animais. Por exemplo, enquanto hibernam, os hamsters dependem da duração do dia para saber quando devem emergir das suas tocas. Mas as fontes de luz artificiais podem estar a ofuscar cada vez mais estes sinais, diz Stefanie Monecke, psicóloga clínica da Universidade Ludwig Maximilians, em Munique.

Stefanie sublinha que os impactos da poluição luminosa e das alterações climáticas nos hamsters europeus “são apenas hipóteses, mas tudo aponta nessa direção”.

Conservação dos hamsters
Felizmente, os hamsters europeus reproduzem-se bem em cativeiro, diz Rusin – existem programas na Bélgica, França, Polónia, Alemanha, Ucrânia e noutros países.

A parte mais difícil, diz Rusin, é reintroduzir os hamsters na natureza, porque não estão adaptados e são facilmente capturados por predadores. “A instalação de cercas ou redes em torno do seu novo habitat durante alguns meses pode protegê-los enquanto se adaptam.”

Alguns cientistas, como Caroline Habold na Alsácia, estão a trabalhar com os agricultores para criarem áreas de cultivo mais favoráveis aos hamsters. Por exemplo, em parcelas menores, a colheita principal pode ser misturada com outra, como culturas de soja ricas em proteínas, que são mais saudáveis para os hamsters. E os agricultores podem cultivar as margens destas parcelas com uma variedade de plantas, como girassóis, alfafa e colza. Habold também incentiva os agricultores a reduzirem a frequência de aragem e o uso de pesticidas.

Caroline diz que a diversidade de culturas é benéfica para a saúde das quintas e do ecossistema circundante, dado que diversos tipos de plantas conseguem suportar mais tipos de comunidades de vida selvagem, como os polinizadores.

“O mundo inteiro devia pensar em melhorar as suas práticas de cultivo para restaurar a biodiversidade”, diz Caroline. “Os hamsters são apenas um dos exemplos.”

Paralelos com espécies extintas
“Em França, as iniciativas de conservação só conseguiram estabilizar o número de espécies, não as aumentaram. É por isso que a decisão da UICN é tão vital”, diz Caroline.

A classificação deste hamster também pode aumentar os financiamentos para investigações sobre os problemas de reprodução da espécie, algo que é particularmente preocupante, diz Stefanie Monecke.

“Basta pensar no pombo-passageiro – que era o pássaro mais abundante de todos os tempos e foi extinto em cem anos”, diz Stefanie. “O problema residia no facto de já não se conseguirem reproduzir, que é bastante semelhante ao que está a acontecer com os hamsters. Existem muitos paralelos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler