Milhares de Aves e Mamíferos Ameaçados nas Estradas da Europa

Cerca de 194 milhões de aves e 29 milhões de mamíferos estão em perigo nas estradas da Europa. Em Portugal morrem anualmente 4 milhões de aves e 450 mil mamíferos nas estradas e algumas dessas espécies encontram-se vulneráveis à extinção.

Publicado 14/07/2020, 18:17 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
A investigadora Clara Grilo, em trabalho de campo, analisa um texugo (Meles meles) morto.

A investigadora Clara Grilo, em trabalho de campo, analisa um texugo (Meles meles) morto. 

Fotografia de Joaquim Pedro Ferreira

Investigadores do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), do polo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa com sede na Universidade de Aveiro, estimam que morram anualmente cerca de 194 milhões de aves e 29 milhões de mamíferos atropelados nas estradas da Europa. Em Portugal a preocupação é semelhante, uma vez que os estudos apontam para que 4 milhões de aves e 450 mil mamíferos morram anualmente por atropelamento nas estradas.

Os trabalhos unem uma equipa de investigadores europeus liderada pela bióloga portuguesa Clara Grilo, do CESAM. O projeto teve como ponto de partida a compilação dos dados de 90 estudos europeus, com registos de atropelamentos de espécies em 24 países. A partir desta informação primária, foram calculadas taxas de atropelamento de 140 espécies de aves e de 75 espécies de mamíferos. Posteriormente, foram desenvolvidos modelos para estimar o número de atropelamentos das espécies não estudadas, identificando as mais vulneráveis aos efeitos do tráfego nas estradas.


Metodologia de estudo
A equipa de cientistas fez a projeção da mortalidade de 423 espécies de aves e 212 espécies de mamíferos, tendo em conta características como a massa corporal, a densidade populacional, a longevidade, a dieta alimentar, o número de ninhadas e o tipo de habitat.

Das 126 espécies de aves e mamíferos identificadas como vulneráveis, apenas 20 estão classificadas como “ameaçadas” ou “quase ameaçadas”, na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza.

Foi possível constatar que é nas penínsulas Ibérica e Balcânica e na Europa Central que se concentram as espécies de aves mais vulneráveis. No norte de Espanha, Itália, Áustria e Península Balcânica encontram-se as espécies de mamíferos mais vulneráveis.

O objetivo da equipa de investigadores passa por replicar à escala mundial o modelo de projeções da mortalidade de aves e mamíferos realizado para as estradas europeias.

Morcego, águia, perdiz e esquilo entre as espécies mais vulneráveis à extinção
O melro e o ouriço-cacheiro morrem mais por atropelamento do que os morcegos ou as águias, uma vez que são mais comuns, abundantes e que se aproximam mais das estradas.

Os morcegos e as águias, apesar de terem uma taxa de atropelamento mais reduzida, são espécies potencialmente mais vulneráveis, uma vez que a taxa de reprodução é baixa e possuem menos capacidade para compensar a mortalidade adicional, causada nas estradas da Europa.

Apesar de ainda serem classificadas como espécies “pouco preocupantes”, a perdiz e o esquilo revelaram-se como as espécies de ave e mamífero potencialmente mais vulneráveis ao impacto do tráfego automóvel.

Do conhecimento dos resultados ao desenvolvimento de estratégias
O estudo surge com o intuito de conhecer as espécies mais afetadas pelas estradas na Europa e mapear as áreas onde estas podem ser uma ameaça para as aves e mamíferos, analisando as taxas de atropelamento das espécies.

Para além da quantificação do número de atropelamentos, ocorre a necessidade de desenvolver medidas de mitigação, com vista à conservação das espécies. O resultado revela-se importante para o planeamento da construção de novas estradas e redução dos impactos ambientais nocivos, ligados à atividade humana, sobre a biodiversidade.

As estradas e o tráfego revelam-se como um possível empurrão final para a extinção de determinadas espécies que já se encontram ameaçadas por outros fatores adjacentes. Tal, pode também representar um fator determinante para o início da trajetória rumo à extinção de espécies relativamente comuns.

Segundo a investigadora Clara Grilo, foram feitas duas análises sobre as espécies que se encontram mais vulneráveis aos atropelamentos nas estradas portuguesas. A primeira foi uma estimativa das taxas de atropelamento onde concluíram que de "uma maneira geral as espécies mais abundantes são as mais atropeladas". Como exemplos de taxas de atropelamento observadas em Portugal, a investigadora refere o Cartaxo-comum (0.88 indivíduos/km/ano), a Toutinegra-de-cabeça-preta (0.88 indivíduos/km/ano), a Coruja-das-torres (0.35 indivíduos/km/ano); o Morcego-de-kuhl (2.13 indivíduos/km/ano); o Morcego-pigmeu (1.43 indivíduos/km/ano) e o ouriço-cacheiro (1.03 indivíduos/km/ano).

A outra análise foi “identificar quais as espécies particularmente vulneráveis à mortalidade adicional, com base em parâmetros demográficos das espécies (por exemplo maturidade sexual, número de crias por ninhada, número de ninhadas por ano, e mortalidade natural anual)”. Ou seja, “aquelas que têm uma taxa de reprodução baixa e não conseguem compensar a perda de indivíduos devido aos atropelamentos", como é o caso das aves de rapina diurnas e dos morcegos. Nestes dois exemplos, existem observações de atropelamentos e o próximo objetivo é perceber qual a proporção da população que é atropelada para se verificar se tem impacto ou não nas populações. "Neste momento, não sabemos quais as espécies que podem estar em perigo devido aos atropelamentos”, explica.

Em relação aos tipos de medidas de mitigação que podem ser implementadas, sabe-se que “existem inúmeras soluções para reduzir o número de atropelamentos. Por exemplo, as espécies voadoras como as aves e morcegos deve-se promover o voo numa altitude acima da altura dos veículos em circulação, com a sobrelevação das bermas (uma medida já implementadas para reduzir o ruído) ou plantar árvores e arbustos nas imediações (numa distância de segurança da estrada) para que os indivíduos voem acima das árvores e ao cruzar a estrada não colidam com os veículos".

Já no caso dos mamíferos, a investigadora explica que se "deve optar por uma solução que promova o uso de passagens hidráulicas (manilhas), ou passagens inferiores ou superiores, através de uma vedação que os conduza para essas estruturas.”

No caso de áreas protegidas, a investigadora afirma que podemos sensibilizar a população para uma condução sensível à presença das espécies em risco de atropelamento, através da redução da velocidade, para evitar atropelamentos. Contudo, alerta que a "sensibilização deve ser sobretudo para as concessionárias das estradas, que devem promover estudos para identificar os segmentos de estrada mais críticos à conservação das estradas e implementar medidas de minimização do número de atropelamentos da nossa fauna selvagem.”

Os investigadores estimam que até ao ano de 2050, mais 25 milhões de quilómetros de estradas serão construídos por todo o mundo, pelo que a implementação de medidas de conservação apresenta-se como uma necessidade de caráter urgente.

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