Nos Bastidores dos Ranchos de Animais Exóticos do Texas

Há mais de um milhão de animais não nativos, pertencentes a 125 espécies diferentes, em ranchos de todo o estado do Texas. Apesar da controvérsia, este setor continua a crescer.

Friday, July 10, 2020,
Por Douglas Main
Fotografias Por Mélanie Wenger
Brian Gilroy, proprietário da empresa de animais exóticos Wildlife Partners, alimentava girafas em Mountain Home, no ...

Brian Gilroy, proprietário da empresa de animais exóticos Wildlife Partners, alimentava girafas em Mountain Home, no Texas, no outono de 2018, quando a fotógrafa Mélanie Wenger visitou propriedades de caça na região. Duas girafas adultas podem ser vendidas por 250 mil dólares ou mais, diz Gilroy. Ao contrário de muitas outras espécies comercializadas neste setor, as girafas não são caçadas – são compradas e vendidas como curiosidades aos proprietários de terrenos. Como acontece com a maioria dos ranchos que possuem ruminantes exóticos, a Wildlife Partners não organiza caçadas comerciais. Em vez disso, a empresa cria, compra, vende e transporta animais entre ranchos.

Fotografia de MÉLANIE WENGER, NATIONAL GEOGRAPHIC

MOUNTAIN HOME, TEXAS – De um determinado ângulo, os chifres ligeiramente curvos de um órix-de-cimitarra podem parecer um só chifre. Os estudiosos acreditam que este antílope, ou o seu parente intimamente relacionado, o órix-da-arábia, pode ter sido a origem para o mito do unicórnio. Mas, tal como acontece com as criaturas lendárias, estes animais são muito difíceis de encontrar – estão classificados como extintos na natureza.

No entanto, aqui estou eu, a andar de moto-quatro em Texas Hill Country, observando um rebanho com cerca de 30 órixes a galopar por terreno acidentado.


O condutor da moto-quatro, Brian Gilroy, fica maravilhado com os animais. “Existem mais aqui do que na natureza,” diz Gilroy, que gere uma empresa chamada Wildlife Partners – empresa proprietária destes animais que tem mais de 700 hectares de terreno.

Uma zebra sedada é transportada de helicóptero no rancho Sexy Whitetails, perto de San Angelo. A natureza selvagem e o peso da fauna exótica faz com que a sua captura e transporte sejam difíceis, dando origem a um setor lucrativo – transporte de animais. Quando um rancho quer vender animais a outro, muitas vezes contrata especialistas externos, como a Wildlife Partners, para ajudar. Mas mesmo com a ajuda de especialistas, uma pequena percentagem dos animais morre durante a captura. “Eu diria que isso acontece a cerca de 3% dos animais, ou talvez menos”, diz Gilroy. As causas de morte incluem stress, reações imprevistas aos sedativos e acidentes.

Fotografia de MÉLANIE WENGER, NATIONAL GEOGRAPHIC

Michael Rann, gestor de criação do 777 Ranch, um enorme estabelecimento de caça perto de Hondo, tenta sedar um órix-da-arábia para transporte. Michael, sobrinho de Jeff Rann, o dono do rancho, cuida dos 6 mil animais da propriedade e conhece muitos deles desde que nasceram, reconhecendo-os individualmente. Apesar de Michael reconhecer que os honorários da caça são a principal fonte de receita do rancho, perder os animais para os caçadores pode ser doloroso. “Gostava que os animais que eu criei não fossem abatidos”, diz Michael. “Mas é o que é. Eu sei ao que vim.”

Fotografia de MÉLANIE WENGER, NATIONAL GEOGRAPHIC

A Wildlife Partners é uma das maiores e mais recentes empresas de criação de animais selvagens exóticos do Texas. Esta empresa especializa-se na criação, compra, venda e transporte de animais, sejam órixes, zebras ou búfalos-do-cabo. “Estes animais são o equivalente a notas de 100 dólares”, diz Gilroy.

Mas Gilroy está a subestimar os valores. Uma fêmea adulta de búfalo-do cabo ou uma girafa podem ser vendidas por 200 mil dólares, e se forem vendidas aos pares chegam aos 250 mil dólares.

Este rancho é apenas um entre os milhares que existem por todo o Texas e que criam animais exóticos com cascos, também conhecidos por animais ungulados. Há mais de um milhão de animais destes não nativos por todo o estado, pertencentes a 125 espécies diferentes, diz Charly Seale, diretor da Exotic Wildlife Association do Texas, um grupo desta indústria que tem cerca de 5 mil rancheiros associados. O setor gera 2 mil milhões de dólares em receitas anualmente, diz Seale.

Tal como acontece com as operações de criação de gado, os proprietários ganham dinheiro com a criação e venda de animais – vendem os animais uns aos outros, vendem aos proprietários ricos que gostam de exibir as criaturas e às operações comerciais de caça, onde os clientes podem pagar quantidades avultadas de dinheiro para abaterem animais raros e exóticos sem ter de viajar para o estrangeiro.

A Wildlife Partners, como muitos ranchos de animais exóticos, não é um rancho de caça comercial. As suas receitas vêm da criação, compra e venda de animais. Contudo, alguns destes animais acabam por ir parar às propriedades de caça.

Mas Gilroy diz que a maior parte da indústria é composta por cidadãos particulares que não organizam caçadas comerciais. “Possuir animais selvagens exóticos dá aos proprietários de terrenos uma sensação de orgulho”, diz Gilroy, “para além de estatuto”.

Os rancheiros que possuem animais exóticos tendem a manter a sua privacidade e são cautelosos com a imprensa, que muitos consideram ser tendenciosa e com pontos de vista urbanos anti-caça. Os proprietários não querem ser retratados de forma errada.

Wes Livingston e BJ Dugger seguram nos chifres de uma palanca-negra que foi transportada por via aérea desde o Tequila Trophy Ranch, em Utopia, no Texas, a cerca de 100 quilómetros a oeste de San Antonio.

Na Nitro Whitetails and Exotics, a cerca de 130 quilómetros a oeste, observei de perto como funcionam as operações de transporte aéreo. Em maio de 2019, voei com Darren “Chavi” Flores, piloto de helicóptero, e com Tad Honeycutt, o chefe da equipa de captura da Wildlife Partners, sobre um rebanho de órix-do-cabo – um antílope de grande porte que tem chifres longos e retos – para uma operação de captura e venda. Honeycutt carregou uma arma de dardos com um agente que bloqueia os impulsos nervosos, para imobilizar temporariamente o animal, e disparou.

O helicóptero aterrou assim que o antílope caiu. Honeycutt saiu a correr e agarrou nos chifres do animal, e outro funcionário que voou connosco amarrou-lhe as pernas. Enquanto a saliva se acumulava no queixo do órix, os homens colocaram-no num suporte ligado ao helicóptero. Depois, foi levado para um curral de retenção temporária, enquanto outros animais eram apanhados. Nas quatro horas que se seguiram, a equipa capturou sete ádax, quatro órix-do-cabo, dois blesbok e uma palanca – os animais foram todos comprados pela Wildlife Partners, por 37 mil dólares, com um cheque passado ao proprietário no local.

Fotografia de MÉLANIE WENGER, NATIONAL GEOGRAPHIC

No 777 Ranch, um órix-da-arábia aguarda dentro de um atrelado para ser transportado para uma instalação da Wildlife Partners. O rancho pertence a Jeff Rann, que nasceu no Botsuana. Os braços de Jeff têm várias cicatrizes – incluindo as marcas de uma dentada de um leopardo que ficou ferido durante uma caçada e uma cicatriz de uma marrada de uma palanca-negra. Jeff Rann, caçador profissional – alguém que orienta os caçadores desportivos enquanto perseguem as presas –  é especialista em caça perigosa. No 777 Ranch não existem leopardos ou outros predadores, mas existem 40 espécies de animais ungulados, alguns dos quais podem ser perigosos.

Fotografia de MÉLANIE WENGER, NATIONAL GEOGRAPHIC

Por exemplo, em 2019, os proprietários do Y.O. Ranch, em Mountain Home, concordaram em receber-me, ignorando os conselhos dos amigos. “Nós adoramos a América, adoramos os militares e adoramos os nossos animais”, diz Byron Sadler, resumindo o seu afeto e sentimento de dever para com os três. Questionar um deles é o mesmo que questionar todos – por outras palavras, a questão de posse de animais exóticos não está aberta a interpretações.

Mas Gilroy tem mais abertura aos jornalistas. “Se nós não contarmos a nossa história, serão outros a fazê-lo.”

O que faz com que um animal seja selvagem?
Os animais de caça exóticos do Texas não são domesticados e geralmente não exigem muitos cuidados, mas também não são realmente selvagens. Ao contrário dos veados-de-cauda-branca, alces ou carneiros-selvagens, os animais exóticos não são legalmente classificados como caça, mesmo que sejam frequentemente caçados. Em vez disso, são considerados propriedade privada, como acontece com o gado e os animais de estimação.

Algumas das espécies nestes ranchos estão ameaçadas, em perigo de extinção ou até extintas na natureza, como o órix-de-cimitarra. Mas quase todas as espécies exóticas nos ranchos do Texas podem ser legalmente caçadas porque a maioria não faz parte da lista de Espécies Ameaçadas dos EUA, que se concentra maioritariamente na proteção de espécies nativas. De acordo com a lei do Texas, as espécies exóticas são classificadas como “gado”, portanto, apesar de os proprietários serem obrigados a respeitar determinados requisitos de saúde animal, existe pouca regulamentação para além disso.

Os veados chital, nativos da Ásia, percorrem as enormes pastagens do 777 Ranch. Ao longo dos anos, os chital escaparam de outros ranchos de animais exóticos e estabeleceram populações selvagens no Texas, como aconteceu com outras espécies não nativas – como os carneiros-da-barbária e os antílopes nilgó. Os animais exóticos de grande porte requerem muita vegetação e podem limitar a alimentação de outros herbívoros nativos. Esta é uma das razões pelas quais o Departamento de Parques e Vida Selvagem do Texas geralmente “incentiva a remoção de ungulados exóticos”, diz Mark Mitchell, que gere a Mason Mountain Wildlife Management Area, um antigo rancho de caça onde os investigadores estudam os impactos ecológicos de seis espécies exóticas que ficaram no local.

Fotografia de MÉLANIE WENGER, NATIONAL GEOGRAPHIC

Os animais podem ser caçados “noite e dia”, diz John Silovsky, vice-diretor do Departamento de Parques e Vida Selvagem do Texas. “Não existem limites, nem imposições sazonais.”

Estas leis, em conjunto com o famoso caráter de independência do Texas, a ênfase nos direitos de propriedade privada, os vastos espaços abertos e o clima quente, criaram a receita perfeita para a criação de animais exóticos.

Desde a década de 1950, quando o Y.O. Ranch demonstrou que a criação e caça de animais exóticos no Texas podia ser lucrativa, a indústria expandiu rapidamente. As sondagens estaduais mostram que, em 1963, havia cerca de 13 mil animais exóticos ungulados; em 1979, havia 72 mil; e em 1988, 164 mil. Atualmente, existe mais de um milhão.

Aaron Bulkley, proprietário da Texas Hunt Lodge, que fica a cerca de 100 quilómetros a noroeste de San Antonio, diz que o negócio de criação de animais exóticos cresceu nos últimos anos por uma simples razão – a economia em geral também cresceu.

Esquerda: Kade McGuffin, guia do 777 Ranch, espalha milho para atrair veados chital para os caçadores.
Direita: Grace Ingrande, de 17 anos, aguarda para dar um tiro certeiro num veado chital, numa tenda de caça no 777 Ranch. Grace diz que adora caçar com o pai, que é comandante de um rebocador. “Parece que o mundo abranda, e só existo eu, a arma e o veado”, diz Grace sobre a sensação que sente quando está prestes a disparar.

Fotografia de MÉLANIE WENGER, NATIONAL GEOGRAPHIC

Em finais de 2018, Chris Miller, biólogo de vida selvagem, matou este órix-da-arábia no 777 Ranch. Miller passou um dia e meio a perseguir o órix, dormindo numa cabana no rancho. Caça a maior parte da carne que consome, incluindo carne de órix e de veado. “Acho que parte da natureza selvagem permanece com eles”, diz Miller sobre os animais criados em cativeiro no rancho. Os machos são tipicamente caçados pelos seus enormes chifres, mas também para reduzir os conflitos e a competição por fêmeas, diz Jeff Rann.

Fotografia de MÉLANIE WENGER, NATIONAL GEOGRAPHIC

Cada vez há mais pessoas a perceber que a criação e venda de animais exóticos é mais rentável do que a criação e venda de gado. Enquanto que uma vaca pode ser geralmente vendida por pouco mais de mil dólares, um animal exótico comum, como um órix-de-cimitarra, consegue atingir até quatro vezes esse valor.

A procura por caça que dura o ano inteiro, e o apelo de se poder vender animais de caça sem as restrições que acompanham, por exemplo, a criação e caça de veados-de-cauda-branca, também são forças motrizes que impulsionam este crescimento.

Durante esta pandemia de coronavírus, o governador do Texas, Greg Abbott, considerou a caça e a agricultura – que incluem operações de criação de animais exóticos – atividades “essenciais” para que este setor não fosse fortemente impactado pela crise económica, diz Seale. “A venda de animais de criação não sofreu quebras.”

Comércio e conservação
Mas esta indústria tem os seus críticos. Alguns ativistas dos direitos dos animais, que se opõem à noção de que os animais selvagens são recursos lucrativos para os humanos, tentaram restringir a indústria de animais exóticos. Os ativistas opõem-se à comercialização de vida selvagem e à caça de animais raros para fins recreativos – um argumento difícil de vingar num lugar como Texas Hill Country, onde a época de caça ao veado é uma tradição de outono.

A cabeça esfolada do órix-da-arábia caçado por Miller, no congelador do 777 Ranch, aguarda processamento – os chifres vão ser branqueados para serem exibidos como troféu decorativo.

Fotografia de MÉLANIE WENGER, NATIONAL GEOGRAPHIC

“Não é correto matar um animal num rancho de caça para fazer um ornamento – isso não é conservação”, diz Priscilla Feral, presidente do grupo Friends of Animals, grupo sediado no Connecticut que processou várias vezes o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA para tentar limitar a posse de animais em perigo de extinção. Em 2009, o grupo conseguiu fazer com que os rancheiros doassem as taxas de caça de três das espécies para causas de conservação, embora este requisito tenha sido revertido pelo Congresso em 2014.

Ainda assim, uma parte das taxas de caça de outras quatro espécies exóticas – veado barazinga, órix-da-arábia, cervo-de-eld e songue – deve ser usada para “melhorar” as faixas de alcance nativas das espécies, podendo incluir programas de reintrodução aprovadas pelos respetivos governos nos países de origem e melhorias de habitat. Porém, como estes programas são geralmente aplicados fora dos EUA, é difícil manter uma supervisão sobre a sua eficácia. Para além disso, como se tratam de empresas privadas, os ranchos de animais exóticos não são obrigados a fazer contribuições para os esforços de conservação.

No entanto, muitos rancheiros e caçadores argumentam que existe valor de conservação nestes animais exóticos porque, alegadamente, são “populações de segurança” – se uma espécie desaparecer na natureza, pelo menos ainda existe nos ranchos do Texas. Os zoológicos usam o mesmo argumento, mas os que são credenciados participam nos programas Species Survival Plans que são geridos de forma intensiva e que visam manter as populações geneticamente diversas e sustentáveis. Alguns ranchos no Texas participam nestes programas; mas a maioria não o faz.

Um gnu (frente), dois carneiros Ovis orientalis arkal (na parede) e um troféu de alce aguardam reparações na antiga loja de taxidermia do 777 Ranch. Os animais embalsamados são uma visão comum em todas as áreas de hóspedes do rancho. Jeff Rann também tem fotografias dele com os seus clientes a posar com animais de grande porte que mataram, incluindo uma fotografia tirada no Botsuana com o antigo rei de Espanha, Juan Carlos, a posar com um elefante morto. Na sala de jantar do rancho, duas televisões exibem vídeos de algumas das melhores caçadas de Rann. A cena mais marcante mostra um cliente no Botsuana a falhar um tiro que fere um leão. O animal ferido tenta atacar, mas é atingido por uma bala no meio dos olhos. “Este foi o melhor tiro da minha carreira”, diz Rann.

Fotografia de MÉLANIE WENGER, NATIONAL GEOGRAPHIC

Alguns ranchos já participaram em programas de criação de órix-da-arábia e órix-de-cimitarra, para serem reintroduzidos na natureza, mas Priscilla Feral e outros conservacionistas dizem que estes programas são raros. E também dizem que os animais exóticos que escaparam de ranchos no Texas provocaram danos ecológicos, e que os proprietários de ranchos de animais exóticos – e proprietários de gado – matam os predadores nativos, incluindo linces, coiotes e onças, para protegerem os seus animais.

Gilroy reconhece que, acima de tudo, é proprietário de uma empresa e que está focado na expansão da mesma, não na conservação. Mas, no futuro, Gilroy diz que gostava de ajudar algumas destas espécies de animais de alguma forma, para além de fazer apenas criação – embora não faça ideia de como o poderia fazer. “É difícil fazer trabalho de beneficência sem retorno”, diz Gilroy.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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