O que Está a Matar os Elefantes no Botsuana?

Morreram mais de 280 elefantes e as autoridades ainda estão a tentar desvendar as causas.

Friday, July 17, 2020,
Por Dina Fine Maron
Nos últimos meses morreram centenas de elefantes no Botsuana devido a causas desconhecidas.

Nos últimos meses morreram centenas de elefantes no Botsuana devido a causas desconhecidas.

Fotografia de Sergio Pitamitz, Nat Geo Image Collection

Os elefantes andam em círculos e parecem atordoados antes de caírem mortos de repente. Ninguém sabe porquê. Nos últimos meses, centenas de elefantes morreram no Botsuana, alguns com estes sintomas.

Este comportamento bizarro e o elevado número de mortes sugerem aos especialistas que é improvável que os elefantes estejam a ser afetados pelas doenças mais comuns, como é o caso da tuberculose. As presas dos elefantes não desapareceram, excluindo assim a caça furtiva de marfim. No entanto, o número de mortes continua a aumentar. As autoridades governamentais dizem que registaram 281 mortes de elefantes desde março de 2020; mas as ONG de conservação dizem que o número de mortes é ainda mais elevado.


“Do ponto de vista populacional isto ainda não é grave, apesar de muitos elefantes terem morrido”, diz Markus Hofmeyr, veterinário de vida selvagem e antigo chefe do departamento de veterinária do Parque Nacional Kruger. “Mas é importante que se faça um diagnóstico para nos certificarmos de que não existe um motivo obscuro –seria um problema para a população de elefantes se não lidássemos com a situação.”

O Botsuana, que tem uma população com cerca de 130 mil elefantes, é um dos últimos redutos para a espécie em África, um continente onde a caça furtiva de marfim já reduziu o número de elefantes para cerca de 350 mil. Os animais que morreram no Botsuana viviam numa área de cerca de 2 mil quilómetros quadrados, numa região remota a nordeste do Delta do Okavango, onde vivem cerca de 18 mil elefantes, 16 mil pessoas e 18 mil cabeças de gado.

De acordo com os veterinários e especialistas em vida selvagem entrevistados pela National Geographic, incluindo os exames feitos a outras mortes de elefantes, as possíveis causas incluem: ingestão de bactérias tóxicas presentes na água, envenenamento por antraz, envenenamento por mão humana, infeções virais de roedores ou um micróbio patogénico. Mas também pode ser uma combinação de vários fatores – sobretudo se os fatores ambientais também tiverem contribuído, como aconteceu com as chuvadas fortes tardias deste ano após anos de seca.

O governo do Botsuana, que está a investigar as causas destas mortes misteriosas, informou no dia 10 de julho em conferência de imprensa que já tinha os resultados preliminares dos testes laboratoriais feitos no Zimbabué, mas está a aguardar para partilhar as informações com o público enquanto não recebe respostas mais conclusivas.

“Aguardamos receber no final desta semana os resultados adicionais de outro laboratório na África do Sul”, disse à National Geographic Cyril Taolo, diretor interino do Departamento de Vida Selvagem e Parques Nacionais do Botsuana. “Seguir-se-ão resultados vindos do Canadá e dos EUA.”

Os peritos dizem que, para apurar resultados com precisão, é necessário recolher amostras das carcaças, do solo e da água imediatamente a seguir à morte dos elefantes. É um trabalho complicado numa região remota, onde o corpo de um elefante pode demorar vários dias até ser encontrado e analisado. Durante este período, o sol escaldante ajuda a degradar o corpo, podendo eliminar provas essenciais, e os animais necrófagos podem comer os órgãos antes de estes serem recuperados para análise.

Eis um olhar mais aprofundado sobre as possíveis causas e o que representam...

Uma das possíveis explicações para a morte dos elefantes é o envenenamento por antraz. Esta doença infecciosa, provocada por uma bactéria que se encontra no solo, já matou anteriormente elefantes no Botsuana.

Fotografia de Sylvain Cordier, Nature Picture Library

Fome ou desidratação
É pouco provável que os animais tenham sucumbido de fome ou desidratação porque as mortes começaram quando a região ainda estava cheia de água das chuvas, e esta área tem várias zonas de floresta que providenciam alimento, diz Erik Verreynne, veterinário de vida selvagem e consultor no Botsuana que dirige um programa de pastoreio de gado na região onde os elefantes morreram. “A vegetação está verde e exuberante depois de um ano abundante de chuvas que contrastou com os anos anteriores de seca”, diz Erik.

Toxinas na água
As cianobactérias – algas azuis-esverdeadas – podem ser mortíferas, e muitos dos elefantes foram encontrados perto de lagos e poças de água. Mas os elefantes bebem geralmente no meio dos corpos de água – em vez de nas extremidades, onde as cianobactérias habitualmente se acumulam. Para além disso, com o passar do tempo, a água das chuvas acaba por eliminar as bactérias, e os elefantes estão a morrer na região há vários meses. (As cianobactérias podem ter sido responsáveis por mortes de elefantes em massa na pré-história.) É possível que os elefantes no Botsuana estivessem doentes por outros motivos – talvez precisassem de água devido a uma febre e morressem pouco depois de beberem, ou quando tentavam beber. A única forma de o confirmar, ou excluir a hipótese das cianobactérias, é fazer testes às águas, algo que, segundo Taolo, já está a ser feito.

Antraz
As mortes súbitas de elefantes, depois de exibirem sintomas neurológicos – como por exemplo andar em círculos – sugere que o envenenamento por antraz pode ser uma das possibilidades. A bactéria que provoca esta doença infecciosa desenvolve-se naturalmente no solo e é conhecida por afetar animais selvagens e domésticos pelo mundo inteiro. Os elefantes podem ficar infetados quando inspiram ou ingerem solo contaminado, plantas, ou até água.

Mas o Departamento de Vida Selvagem e Parques Nacionais do Botsuana diz que eliminou o antraz como uma possibilidade, embora os detalhes sobre esta exclusão permaneçam escassos. O veterinário sul-africano Michael Kock, que trabalhou com casos de antraz em elefantes nesta região para o governo do Botsuana na década de 1990, diz que, idealmente, os cientistas precisariam de recolher amostras de sangue poucas horas depois de os animais morrerem. Ao microscópio, os micróbios de antraz têm uma forma distinta, diz Kock, mas quando um corpo se começa a decompor, há outras bactérias que o invadem, tornando a análise bastante difícil.

Se a causa de morte for antraz, será um problema muito complicado para resolver, acrescenta Kock. Para prevenir a propagação de esporos, é necessário queimar as carcaças o mais depressa possível – exigindo toneladas de madeira. E como as mortes têm ocorrido numa região bastante remota, com poucas estradas de acesso, conseguir chegar a todas as carcaças é um desafio adicional. (O Departamento de Vida Selvagem e Parques Nacionais já queimou algumas das carcaças perto das zonas com comunidades, diz Taolo.) Apesar de o gado ser administrado regularmente com uma vacina contra o antraz, administrar a vacina a 18 mil elefantes não seria viável, diz Kock.

Envenenamento
Os habitantes locais que vivem perto dos elefantes podem ter envenenado os animais como uma forma de retaliação por comerem as suas plantações, talvez envenenando poças de água ou vegetais como couves. Em caso de envenenamento – geralmente com cianeto – as mortes estariam agrupadas numa zona em específico, como acontece neste caso. Mas o cianeto permanece nas carcaças durante muito tempo depois da hora da morte, e não existem evidências de que os animais que estão a comer os corpos dos elefantes – hienas, chacais e abutres – também estejam a morrer.

Outros venenos, como o fluoroacetato de sódio, que às vezes é usado como pesticida e que se decompõe mais rapidamente, pode ser outro dos suspeitos. Para verificar a sua presença, Kock diz que os cientistas precisariam de examinar o fígado das vítimas, que atua como um filtro natural para as toxinas no corpo, e o estômago, onde os alimentos potencialmente contaminados podem ser passíveis de teste.

Se o envenenamento for a causa, as autoridades provavelmente terão de trabalhar com as comunidades afetadas porque os elefantes danificaram as suas terras e plantações. A melhor forma de gerir estes encontros entre humanos e elefantes é politicamente controversa. No ano passado, o presidente Mokgweetsi Masisi suspendeu uma interdição que proibia a caça de elefantes durante cinco anos, citando a necessidade de reduzir os encontros perigosos.

Vírus da encefalomiocardite
A morte súbita precedida por sintomas neurológicos seria consistente com o vírus da encefalomiocardite, que é transmitido por roedores e provoca insuficiência cardíaca. Este vírus é excretado nas fezes dos roedores; e os elefantes correm o risco de comer relva contaminada. “A maioria dos herbívoros come a parte de cima das folhas de relva, mas os elefantes consomem o tufo inteiro – raízes, fezes de roedores e tudo o resto”, diz o veterinário sul-africano Roy Bengis. Foi esta a causa de morte de mais de 60 elefantes no Parque Nacional Kruger no início dos anos 1990. E isto aconteceu após o primeiro ano de chuvas após uma seca severa – condições semelhantes às encontradas recentemente no Botsuana – quando a população de roedores em torno do famoso parque da África do Sul aumentou exponencialmente, diz Bengis, que na altura era o chefe dos serviços veterinários estatais de Kruger.

No entanto, não há relatos de um número extraordinariamente elevado de roedores nas áreas onde os elefantes do Botsuana morreram. Segundo Kock, espuma nas vias respiratórias dos elefantes e sinais específicos de danos no coração apontariam para essa causa. Também é possível detetar este vírus durante uma necropsia. A encefalomiocardite não tem sido uma prioridade nos tratamentos ou desenvolvimento de vacinas; portanto, se for a responsável, existem poucos recursos para a combater

Micróbios assassinos
As bactérias e vírus, que anteriormente não eram letais para determinadas espécies, podem evoluir para se tornarem mortíferas – como aconteceu com o coronavírus SARS-CoV-2, que provavelmente teve origem nos morcegos e que, até agora, já matou mais de 560 mil pessoas pelo mundo inteiro. Muitos dos coronavírus surgem em animais, mas não existem evidências de que a COVID-19 esteja relacionada com estas mortes de elefantes, ou que ocorra sequer nos elefantes, diz Kock.

As alterações súbitas ou extremas no clima, na paisagem ou nos hospedeiros de micróbios podem desencadear mudanças nas bactérias ou nos vírus, tornando-os mortíferos. Em 2015, no Cazaquistão, cerca de 200 mil antílopes saiga morreram devido a envenenamento sanguíneo, depois de uma vaga de calor e humidade extremos terem feito com que a bactéria comum Pasteurella bacterium – que em condições normais é inofensiva para os animais – se multiplicasse e tivesse efeitos letais. Pode estar a acontecer algo semelhante com os elefantes, dizem os veterinários. Mas as temperaturas na região não têm sido particularmente altas, e as mortes ainda estão relativamente confinadas, tornando esta teoria pouco provável.

“Temos de manter uma mente aberta”, diz o veterinário Erik Verreynne. “Outra das possibilidades pode ser um vírus transmitido por artrópodes, como carraças ou mosquitos, que nunca foi diagnosticado em elefantes selvagens. As recentes chuvadas na região, depois de anos de seca, podem ter preparado o terreno para um surto, diz Erik.

Há vários fatores, incluindo as alterações climáticas, que podem estar a contribuir para estas mortes. “As doenças são frequentemente um indicador de um problema subjacente”, diz Erik, acrescentando que desvendar o que está a matar os elefantes no Botsuana “pode ajudar a avaliar a saúde do ecossistema”.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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