Os Raros ‘Ursos dos Glaciares’ com Pelo Azulado Podem Ter o Futuro Ameaçado

O gelo pode ajudar na sobrevivência deste tipo raro de urso-negro, cujo habitat está a aquecer rapidamente.

Thursday, July 30, 2020,
Por Grant Currin
Um “urso dos glaciares” descansava na base de uma árvore, na Floresta Nacional de Tongass, no ...

Um “urso dos glaciares” descansava na base de uma árvore, na Floresta Nacional de Tongass, no Alasca, em 2018.

Fotografia de Lance Nesbitt

Tania Lewis é uma das especialistas mundiais em “ursos dos glaciares”, mas ela própria só viu estes animais misteriosos algumas vezes. Enquanto bióloga de vida selvagem no Parque e Reserva Nacional de Glacier Bay, no Alasca, Tania Lewis estuda a pequena e raramente avistada população de ursos do parque que geneticamente são ursos-negros, mas cujos pelos variam entre o negro com manchas prateadas e o cinzento azulado.

“Para terem uma cor rara... que não se encontra em mais nenhum lugar na Terra – há aqui história”, diz Lewis.


Na sua investigação mais recente, Tania Lewis e os seus colegas descobriram novas pistas sobre as razões pelas quais os ursos dos glaciares são tão invulgares. A investigação também revelou potenciais desafios para o futuro dos ursos, à medida que as temperaturas aumentam devido às alterações climáticas globais.

A equipa identificou 10 populações de ursos-negros, dentro e em torno do parque, e quatro delas tinham ursos dos glaciares. Estes ursos foram separados uns dos outros pelos vastos fiordes, montanhas cobertas de glaciares e campos áridos de gelo. Os ursos dos glaciares Yakutak, por exemplo, vivem a mais de 100 quilómetros dos seus vizinhos mais próximos, os ursos de Glacier Bay West.

“Alguns ursos atravessam o campo de gelo, outros atravessam o fiorde a nadar”, diz Lewis. Mas geralmente estas características no terreno criam “ilhas funcionais nas quais as populações se desenvolvem e se tornam geneticamente distintas umas das outras”. Os ursos de cores estranhas vivem apenas no sudeste do Alasca e num canto da vizinha Colúmbia Britânica.

Contudo, o que mais surpreendeu Tania Lewis foi a ausência de ursos dos glaciares a viver ou a migrar pelas zonas menos acidentadas da região, como na Península de Chilkat.

“A área onde não existem ursos dos glaciares é a que tem menos quantidade de obstáculos. As montanhas não são muito elevadas, os glaciares não são muito extensos”, diz Tania Lewis, cujo estudo foi publicado recentemente na revista Ecology and Evolution. “É realmente interessante que não existam ali ursos dos glaciares.”

Uma das razões, sugere Tania Lewis, é a de que o gelo pode ajudar os ursos dos glaciares a sobreviver – o que não é um bom presságio, já que os glaciares do Alasca estão em degelo no local de aquecimento mais rápido da Terra.

Ursos de cor diferente
Os cientistas ocidentais descreveram pela primeira vez os ursos dos glaciares em 1895; um dos antecessores de Tania Lewis foi um dos primeiros a manter registos de onde os ursos pareciam viver dentro do parque nacional. Depois de Lewis se juntar à equipa de Glacier Bay em 1998, a investigadora herdou o mapa com as notas que marcavam os avistamentos de ursos dos glaciares, dentro e em torno no parque – que foram poucos e distanciados entre si.

De acordo com o estudo, apesar de serem alvo dos caçadores devido ao seu pelo distinto, os ursos dos glaciares representavam 0,4% dos ursos-negros mortos legalmente no sudeste do Alasca entre 1990 e 2018. Não existem outras estimativas populacionais.

No início dos anos 2000, quando alguns ursos dos glaciares começaram a vasculhar caixotes do lixo em Juneau, no extremo sul da sua faixa de alcance, Lewis e outros investigadores decidiram iniciar um estudo sobre estes animais pouco compreendidos. (Leia sobre o encontro de um fotógrafo com um urso-negro em hibernação.)

Ao longo de 12 anos, os investigadores recolheram centenas de amostras de pelos e de tecido de ursos-negros – algumas amostras eram de ursos caçados – numa área de 108 mil quilómetros quadrados que englobava o parque nacional e arredores. E anotaram as cores dos ursos e onde tinham sido encontrados. Depois, analisaram o ADN e usaram métodos estatísticos para descobrir a relação dos ursos uns com os outros, identificando assim as 10 populações isoladas.

Esta ausência de cruzamento entre as populações pode ser uma das razões pelas quais os ursos têm números tão baixos, diz Dave Garshelis, cientista de investigação de vida selvagem do Departamento de Recursos Naturais do Minnesota e copresidente do Grupo Especializado em Ursos da Comissão de Sobrevivência de Espécies da União Internacional para a Conservação da Natureza.

Ao mesmo tempo, este isolamento de outras populações de ursos-negros de coloração normal também protegeu os ursos dos glaciares, diz Garshelis.

Isto acontece porque um gene (ou genes) recessivo provavelmente provoca esta alteração de cor, e o cruzamento com outros ursos-negros iria fazer com que a cor se dissipasse.

Há mutações genéticas semelhantes que são responsáveis por outras cores, como acontece com os ursos de canela no oeste da América do Norte e os “ursos espírito” brancos no litoral da Colúmbia Britânica. Todas estas alterações acontecem na mesma espécie, o urso-negro americano (Ursus americanus).

Azulado porquê?
Ninguém sabe ao certo por que razão os ursos dos glaciares são geograficamente tão limitados, ou porque é que o gene desta cor azul prateada persistiu nessas populações.

A descoberta de que os ursos dos glaciares tendem a viver em áreas glaciares sugere que os animais conseguem sobreviver melhor em áreas cobertas de gelo, diz Lewis. Os seus pelos azuis prateados podem atuar como uma camuflagem que os protege de predadores, sejam ursos-pardos, lobos ou pessoas. O pelo branco do urso espírito, por exemplo, pode ajudá-lo a capturar salmão com mais facilidade, porque os peixes não conseguem ver os predadores tão facilmente durante o dia.

Mas a persistência desta característica não significa necessariamente que a mesma confere uma vantagem, diz Garshelis, que não participou no estudo. “Não estou a descartar essa ideia porque não tenho uma alternativa melhor, mas camuflagem é frequentemente a primeira ideia que as pessoas têm.”

“É possível que os ursos dos glaciares sejam o resultado de um desvio genético, um processo onde uma característica aparece numa população e se dissemina sem oferecer quaisquer vantagens.”

Futuro incerto
Garshelis diz que não há dúvidas de que os glaciares influenciaram a evolução do urso-negro.

“A formação de uma camada de gelo em meados do Pleistoceno, que durou desde há 2.580 milhões de anos até há 11.700 anos, separou os ursos no oeste da América do Norte dos que ficaram no resto do continente.” Isto colocou as duas populações em trajetórias evolutivas ligeiramente diferentes. E os ursos dos glaciares evoluíram numa paisagem moldada pelo gelo – os glaciares cobriam quase todo o sudeste do Alasca há 18 mil anos, no final da última Idade do Gelo.

“No entanto, à medida que as alterações climáticas derretem os glaciares que mantiveram os animais separados uns dos outros, é provável que os ursos comecem a misturar-se mais uma vez, diluindo os genes dos ursos dos glaciares”, diz Garshelis. Portanto, é possível que o urso dos glaciares, tal como os glaciares do Alasca, possam desaparecer.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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