Tubarões dos Recifes em Declínio Acentuado Pelo Mundo Inteiro

No maior estudo do seu género, os cientistas descobriram a ausência de tubarões que vivem perto dos recifes de coral em 58 países. Mas há esperança.

Publicado 27/07/2020, 13:56 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
O tubarão-cinzento-do-recife, visto aqui em Kimbe Bay, em Papua Nova Guiné, é uma das espécies que ...

O tubarão-cinzento-do-recife, visto aqui em Kimbe Bay, em Papua Nova Guiné, é uma das espécies que desapareceu da sua zona de habitat nativo.

Fotografia de David Doubilet, Nat Geo Image Collection

Os tubarões já estão com sérios problemas em todo o mundo, sobretudo devido à pesca em excesso, mas um novo estudo mostra que o seu estado é ainda pior do que se pensava.

Numa pesquisa abrangente feita em 371 recifes de 58 países, desde o Pacífico Central até às Bahamas, os cientistas descobriram que cerca de 20% não tinham tubarões. Enquanto predadores essenciais, os tubarões ajudam a manter as populações de peixes saudáveis ao comerem indivíduos doentes e impedindo que o número de presas aumente exponencialmente.

Alguns dos recifes com o menor número de tubarões ficam perto de populações humanas, como no Qatar, República Dominicana, Colômbia, Sri Lanka e Guam.

Tubarões-de-pontas-negras-do-recife perto de Quiribati, no Oceano Pacífico.

Fotografia de Enric Sala

A investigação – integrada no Global FinPrint Project – publicada no dia 22 de julho na Nature, “é o maior estudo de sempre sobre tubarões dos recifes”, diz Enric Sala, coautor do estudo e Explorador da National Geographic Society.

Aaron MacNeil, biólogo da Universidade Dalhousie, e os seus colegas colocaram mais de 15 mil armadilhas fotográficas com isco no mar, e as imagens fornecidas por cada uma das armadilhas revelam que espécies como os tubarões-cinzentos-do-recife, tubarões-de-pontas-negras-do-recife e tubarões-do-recife das Caraíbas não estavam nos recifes onde sempre viveram.


“Tendo mergulhado em centenas de lugares pelo mundo inteiro, desde zonas com corais imaculados a zonas com corais degradados, não foi uma surpresa ver que um quinto dos recifes não tinha tubarões”, diz Enric Sala, que fundou a iniciativa Pristine Seas em 2008 para conservar os oceanos mundiais.

E mesmo em lugares onde ainda encontramos tubarões dos recifes, acrescenta Enric Sala, os seus números foram tão reduzidos que já não desempenham os mesmos papéis ecológicos enquanto predadores.

Os tubarões-dos-recifes das Caraíbas, outrora os tubarões mais abundantes na região, diminuíram durante as últimas décadas.

Fotografia de Andy Mann, Global FinPrint

Nick Graham, biólogo marinho da Universidade Lancaster, no Reino Unido, que não participou nesta investigação, salienta que, embora a abordagem de captação de imagens com câmaras fotográficas “tenha sido testada e comprovada a uma escala local, este estudo coordenou efetivamente uma avaliação a nível global”.

“Os tubarões são facilmente pescados em excesso”, diz Nick Graham, acrescentando que “são um avistamento raro quando faz mergulho nas águas de muitas nações”.

‘Só se pode vender um tubarão morto uma vez’
Dois terços das 500 espécies de tubarões do planeta estão ameaçadas pela pesca em excesso, geralmente para responder à demanda por carne e barbatanas de tubarão, e as redes e os equipamentos de pesca que capturam acidentalmente os tubarões também reduziram bastante o seu número.

Mas ainda há alguma esperança para os tubarões. “A boa notícia é a de que, se protegermos completamente as áreas da pesca, a vida marinha e os tubarões podem recuperar”, diz Enric Sala. Por exemplo, a proteção das águas em torno de Cabo Pulmo, no México, restaurou comunidades subaquáticas, incluindo as populações de tubarões.

Factos sobre Tubarões
Os tubarões podem despertar medo e respeito como nenhuma outra criatura no mar. Descubra os maiores e mais rápidos tubarões do mundo, como se reproduzem e como algumas espécies estão em risco de extinção.

Os tubarões conseguem despertar fascínio e medo como nenhuma outra criatura no mar. Descubra os maiores e mais rápidos tubarões do mundo, como se reproduzem e como algumas espécies estão em perigo de extinção.

Recuperar populações saudáveis de tubarões não se trata apenas da criação de espaços para os animais – a gestão da pesca também é fundamental, como por exemplo a imposição de limites na captura e restrições nos tipos de materiais de pesca que afetam os tubarões. O novo estudo, diz Nick Graham, “destaca a importância” destas abordagens.

Com uma regulação mais cuidadosa sobre a forma como os tubarões são pescados, e reduzindo o número de tubarões que são acidentalmente pescados como captura acessória, as populações terão mais probabilidades de recuperar, acrescenta Nick Graham.

A comunicação e a assistência também desempenham um papel fundamental, diz Carlee Jackson, investigadora de tubarões da Universidade Nova Southeastern. “Muitos países participam no comércio de carne de tubarão com demasiada regularidade, mas nunca é bom dizer a esses países que estão a fazer algo de errado”, diz Carlee Jackson.

Portanto, ajudar as pessoas pelo mundo inteiro a compreenderem a importância que os tubarões representam para a saúde dos oceanos é um passo crítico. E parte deste processo pode envolver uma mudança da pesca para o ecoturismo, centrado nos tubarões e nos recifes que habitam.

“Isto também é bom para as pessoas locais, porque podem ‘vender’ os tubarões aos turistas de mergulho várias vezes”, diz Enric Sala, “ao passo que só se pode vender um tubarão morto uma vez”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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