Várias Espécies de Peixes de Água Doce Tiveram um Declínio de 76% em Menos de 50 Anos

De acordo com um novo estudo, por todo o mundo, as populações de peixes migratórios de água doce estão cair mais depressa do que as espécies migratórias terrestres e oceânicas.

Friday, July 31, 2020,
Por Stefan Lovgren
Como acontece com muitos dos peixes migratórios, o salmão-rei está ameaçado pela pesca em excesso, degradação ...

Como acontece com muitos dos peixes migratórios, o salmão-rei está ameaçado pela pesca em excesso, degradação de habitat e pelas barragens que impedem a sua migração do mar para as áreas de desova a montante.

Fotografia de Cristina Mittermeier, Nat Geo Image Collection

Os peixes migratórios de água doce estão entre os animais mais ameaçados do planeta – segundo um novo relatório de uma coligação de organizações ambientais.

Esta avaliação global, descrita como a primeira do seu género, descobriu que as populações de peixes migratórios de água doce caíram 76% entre 1970 e 2016 – uma taxa de declínio mais elevada do que a de espécies migratórias marinhas e terrestres.


“Acreditamos que os peixes migratórios de água doce podem correr um risco ainda maior do que a queda dramática indicada pelo relatório”, diz a autora principal do estudo, Stefanie Deinet, da Sociedade Zoológica de Londres (ZSL). “A adição de informações atualmente ausentes de regiões tropicais, onde as ameaças de perda e degradação de habitat, exploração em excesso e alterações climáticas estão a aumentar, irão certamente acentuar este declínio.”

A enguia europeia – em perigo crítico de extinção – aqui fotografada no fundo de um rio em França, faz aquela que pode ser a migração mais longa de qualquer peixe, desde o Mar dos Sargaços até aos rios europeus e vice-versa, uma jornada de até 16 mil quilómetros. Esta enguia enfrenta ameaças das estações de bombeamento hidroelétricas, poluição e pesca.

Fotografia de Bruno Guenard, Minden Pictures

Publicado no dia 21 de julho no site da World Fish Migration Foundation, uma organização de conservação sem fins lucrativos, o estudo baseia-se no The Living Planet Index, um banco de dados de biodiversidade global gerido pela ZSL e pelo World Wildlife Fund for Nature. O estudo revela que a Europa registou o maior declínio nos peixes migratórios de água doce – com populações a caírem uns impressionantes 93% nas últimas cinco décadas – seguida pela América Latina e Caraíbas, com um declínio de 84%.

Jornadas épicas
Quase metade das mais de 30 mil espécies de peixes do planeta vive em água doce, e muitas delas – talvez a maioria – migram entre habitats para reproduzir e comer. Algumas, como o salmão, movem-se dos mares para os rios para desovar; outras, como a enguia europeia, desenvolvem-se em água doce, mas desovam no oceano. Existem também muitas espécies dos chamados peixes potamófilos que migram estritamente dentro de habitats de água doce. Estas espécies incluem o bagre Brachyplatystoma rousseauxii, que faz uma jornada épica desde os Andes até à foz do Amazonas e regressa, uma distância de 11.600 quilómetros.

As migrações dos peixes servem uma vasta gama de funções dentro dos ecossistemas, incluindo o transporte de nutrientes e larvas essenciais de um lugar para outro. Muitas populações humanas dependem das migrações previsíveis de peixes como um meio de subsistência.

“Os peixes migratórios são extremamente importantes para as economias e ecossistemas, mas geralmente são ignorados”, diz Herman Wanningen, ecologista marinho e diretor criativo da Fundação World Fish Migration em Groningen, nos Países Baixos.

O relatório aponta para a degradação, alteração e perda de habitat como a maior ameaça enfrentada por todos os peixes migratórios. Cada vez mais, as barragens e outras barreiras fluviais impedem que os peixes alcancem os seus locais de acasalamento ou de alimentação, interrompendo assim os seus ciclos de vida. Um estudo feito no ano passado mostrou que apenas um terço dos grandes rios mundiais continua a ter um fluxo de água livre.

Isto pode explicar por que razão a Europa, que tem poucos rios importantes sem barragens, sofreu um declínio tão acentuado. Um dos grupos de peixes migratórios que se encontra na Europa, o esturjão, caiu mais de 90% desde 1970 – o maior declínio entre as quase 250 espécies monitorizadas para o relatório. Das seis espécies de esturjão que nadam historicamente no rio Danúbio, acredita-se que pelo menos uma tenha sido extinta e a grande maioria está classificada em perigo crítico de extinção.

As espécies invasoras, doenças, poluição e pesca em excesso também são grandes ameaças para os peixes migratórios.

O esturjão-estrelado, que está em perigo crítico de extinção, desapareceu de grande parte da sua área nativa na região do Cáucaso. O esturjão, que foi pescado em excesso pelas suas ovas e que foi gravemente afetado pelas barragens que bloqueiam as suas rotas de migração, pertence ao grupo de peixes mais ameaçados do mundo.

Fotografia de Joel Sartore, National Geographic Photo Ark

Os investigadores também alertam que as alterações climáticas vão infligir danos severos. Na Austrália, os incêndios florestais de 2019-2020 levaram ao escoamento de cinza para os rios, matando um grande número de peixes. E no ano passado, também na Austrália, cerca de três milhões de peixes podem ter morrido quando uma seca severa fez o rio Darling secar.

“Nós olhamos para os sistemas fluviais que já estão demasiado desenvolvidos, depois adicionamos as alterações climáticas e ficamos com um enorme problema”, diz Lee Baumgartner, ecologista de peixes de água doce da Universidade Charles Sturt, em Albury, na Austrália, que contribuiu para o relatório.

Peixe gigante
Ao contrário do que acontece na Europa, o estudo mostra um declínio menos acentuado nas populações de peixes migratórios da América do Norte. O declínio desde 1970 foi de 26% – mas os investigadores dizem que isto se pode dever ao facto de muitas reservas de peixes norte-americanos já terem caído antes desse período.

Em muitas regiões do resto do mundo – incluindo África, América do Sul e Ásia – a falta de informações dificulta a avaliação precisa do estatuto dos peixes migratórios. “Comparando com a migração de aves, por exemplo, sabemos muito pouco sobre a migração de peixes”, diz Wanningen. “É difícil saber o que está a acontecer debaixo da superfície da água.”

Zeb Hogan, biólogo de peixes da Universidade do Nevada, em Reno, e coautor do estudo, suspeita que o declínio de peixes migratórios na Ásia, em particular, seja muito pior do que o descrito no relatório. Zeb Hogan refere o rio Mekong, que atravessa seis países do sudeste asiático e é o lar de algumas das maiores espécies de peixes de água doce do mundo. A maioria destes peixes é altamente migratória e extremamente vulnerável a barragens e pesca em excesso.

“Devido à falta de dados, estes peixes não foram incluídos no relatório, mas os seus declínios foram catastróficos”, diz Zeb Hogan, que também é um Explorador National Geographic e lidera um projeto de pesquisa chamado Wonders of the Mekong, projeto que é financiado pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional.

Um estudo feito por este projeto, publicado em junho na revista Water, mostrava que várias das espécies gigantes de peixes migratórios do Mekong quase desapareceram. O peixe-gato-gigante do Mekong, que pode chegar aos 300 quilos, está à beira da extinção na natureza.

Por outro lado, o relatório mostra que, quando os peixes migratórios não enfrentam ameaças, as suas populações geralmente aumentam. Para além disso, as espécies que receberam alguma forma de intervenção humana de conservação – incluindo restrições na pesca, remoção de barragens ou a criação de proteções legais – tiveram um declínio muito menor do que as espécies que não receberam estas intervenções.

O relatório defende um plano de recuperação de emergência que inclui um fluxo dos rios mais livre e natural, o melhoramento da ligação entre os rios e cursos de água, a redução de poluição, redução da pesca em excesso e a proteção de pantanais. E também exige uma monitorização científica das espécies, campanhas para inspirar a vontade política e pública na proteção dos animais de água doce e o investimento em alternativas sustentáveis às barragens hidroelétricas.

“Salvar os peixes migratórios não requer necessariamente grandes investimentos financeiros, mas sim uma mudança nas práticas atuais”, diz Baumgartner. “O que esperamos é que este relatório sirva de alerta para os governos e legisladores, para que tomem medidas antes que seja tarde demais.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

 

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