Cuidar de Crias Órfãs de Vombate Durante o Confinamento

Quando a pandemia tornou difícil viajar, uma reabilitadora de animais selvagens transformou o seu apartamento num lar para três vombates resgatados.

Thursday, August 27, 2020,
Por Misha Jones
Fotografias Por Doug Gimesy
Emily Small, fundadora do Orfanato de Vombates de Goongerah, segura Landon, um vombate órfão de seis ...

Emily Small, fundadora do Orfanato de Vombates de Goongerah, segura Landon, um vombate órfão de seis meses, na sua sala de estar. Durante o confinamento devido à pandemia de COVID-19 na Austrália, Emily não conseguiu fazer a viagem de 450 quilómetros desde o seu apartamento em Melbourne até ao orfanato em Goongerah, pelo que está a cuidar de Landon e de duas outras crias de vombate em casa.

Fotografia de Doug Gimesy

Não é invulgar encontrar um vombate à beira da estrada na Austrália. E também não é invulgar para Emily Small acolher estes animais se forem órfãos, se estiverem doentes ou feridos, reabilitando-os no seu orfanato de vombates para os libertar novamente na natureza.


No entanto, o que é invulgar é Emily passar o seu tempo durante o confinamento de COVID-19 no seu apartamento em Melbourne com três vombates órfãos.

“Como é que ter crias de vombate connosco não é uma boa companhia?”, pergunta Emily.

Esquerda: Sinais queimados que alertam para a travessia de cangurus e vombates estão perto de árvores carbonizadas em South Buchan, região que ardeu durante a catastrófica temporada de incêndios florestais de 2019-2020. Muitos dos vombates que o orfanato de Emily Small acolhe ficam órfãos quando as suas mães são atropeladas por carros.
Direita: Abby Smith, à esquerda, guarda florestal do departamento do ambiente de Victoria, visitou Emily no orfanato em fevereiro, antes de o confinamento ter dificultado as viagens para a região.

Fotografia de DOUG GIMESY

Em 2002, Emily fundou o Orfanato de Vombates de Goongerah, em East Gippsland, orfanato que gere com a sua mãe. A instituição recebe entre seis a oito vombates por ano, geralmente órfãos cujas mães foram atropeladas por carros.

Emily concilia o trabalho no orfanato com o emprego que tem a tempo inteiro como supervisora de operações na Wildlife Victoria, uma organização sem fins lucrativos de resgate e defesa de vida selvagem em Melbourne. O confinamento dificultou a viagem de 450 quilómetros desde Preston, o subúrbio a norte de Melbourne onde Emily vive, até ao orfanato em East Gippsland, pelo que ela optou por cuidar dos vombates no seu apartamento de um quarto.

Os vombates, que nascem com pouco mais de um centímetro de comprimento, são marsupiais nativos da Austrália e ilhas próximas. Ao contrário dos cangurus, a bolsa da vombate fêmea abre-se em direção às costas, para que a cria não fique coberta de poeira quando a mãe escava o solo. Normalmente, a cria não sai da bolsa durante pelo menos seis meses e, mesmo depois disso, fica mais três ou quatro meses sem sair do lugar. Depois de sair da bolsa, a cria continua perto da mãe até completar um ano ou mais.

Cuidar de vombates vulneráveis exige muito esforço, diz Emily. Os animais exigem atenção constante, como acontece com as crianças humanas. E a pandemia faz com que seja ainda mais difícil garantir os recursos que os vombates necessitam para prosperarem num ambiente incomum.

Landon e Bronson, de sete meses, dormem numa bolsa artesanal no apartamento de Emily Small. Os vombates, como acontece com todos os marsupiais, dão à luz uma prole subdesenvolvida que fica na bolsa da mãe, onde permanece até aos seis meses de idade.

Fotografia de Doug Gimesy

Pequenos temperamentos
Cada um dos vombates que Emily acolheu tem uma personalidade distinta. Landon, o mais jovem do grupo, foi resgatado por uma enfermeira veterinária no final de março – Landon tem agora 10 meses.

“O Landon é a minha pequena lenda”, diz Emily. “Ele é muito agitado. É algo que ele irradia e não consegue controlar tanta energia, e depois chora ou grita porque está muito feliz. Na verdade, nunca tive um que fizesse isto.”

Esquerda: Landon e Bronson mascam ervas que Emily colocou no seu cercado. Emily vai cuidar dos animais até estarem prontos para serem libertados na natureza, provavelmente quando tiverem cerca de 18 meses de idade e pesarem entre 15 e 25 quilos.
Direita: Emily arranja ervas e terra que recolheu no orfanato para dar aos três vombates resgatados. Esta dieta contém micróbios e fungos que são importantes para a saúde intestinal dos animais.

Fotografia de DOUG GIMESY

Bronson, de 11 meses, pode ser um pouco mais tímido. Bronson foi encontrado por uma pessoa que o viu dentro da bolsa da sua mãe morta.

“Por vezes, ele não consegue lidar com situações que normalmente seriam confortáveis para um vombate”, diz Emily. “Parece que fica irrequieto”. Quando ouve um barulho novo ou entra num novo ambiente, Bronson foge para perto de Emily, para se sentir seguro e tranquilo. “Mas quando está confortável, adora enrolar-se e aconchegar-se.”

Beatrice, de um ano de idade, é o que Emily chama de “guerreira vombate independente”. Beatrice também foi encontrada na bolsa da sua mãe.

“Inicialmente, quando ela foi acolhida, saltava, rosnava e tentava atacar-me. Eu sabia que ela fazia aquilo por medo, porque foi resgatada um pouco mais velha. Isso significa que tem mais consciência sobre as ameaças, e ela estava a tentar parecer o mais assustadora possível, e conseguia.”

Agora que Beatrice já se habituou ao seu novo ambiente, Emily diz que é “a órfã mais doce e gentil e que tem uma alma brincalhona e confiante”.

Beatrice, vombate órfã de nove meses, corre pela cozinha de Emily Small. Quando Emily a acolheu pela primeira vez, era mais velha do que Landon e Bronson, e já tinha desenvolvido instintos de sobrevivência. Beatrice usou esses instintos para parecer intimidante aos olhos de Emily, até que começou a perceber que Emily não era uma ameaça.

Fotografia de Doug Gimesy

Cuidados em tempos de pandemia
Em situações normais, Emily diz que os vombates podem passar até três anos com as suas mães na natureza.

“Tento reproduzir esse vínculo o melhor possível, atendendo às suas necessidades individuais e garantindo que eles têm as capacidades necessárias para serem libertados”, diz Emily.

No seu apartamento, que fica no último andar, Emily fez o melhor que conseguiu para recriar os ambientes ao ar livre onde os vombates normalmente vivem. Eles precisam de acesso a ervas e terra, que têm os nutrientes que mantêm os seus intestinos saudáveis, pelo que Emily levou estes nutrientes do orfanato para casa. Emily tem uma caixa de cultivo na sua varanda, juntamente com cascas de árvore e galhos para os jovens vombates mastigarem, mas diz que limpar a área “é um pouco problemático”.

Alimentar as crias também não é fácil. O trio é alimentado por biberão e requer uma fórmula especializada, que é difícil de obter devido à pandemia. “Na verdade, estou à espera de 15 quilos de fórmula”, diz Emily. “Os correios foram reforçados mas não estão a funcionar.”

Apesar dos desafios, cada pequeno vombate tem progredido bem. E tal como cada um tem as suas personalidades distintas, também têm necessidades diferentes. “Alguns irão ficar prontos para passar à fase seguinte muito mais depressa do que os outros”, diz Emily. “Isto depende completamente deles.” Emily diz que quando os animais começam a demonstrar “comportamentos de maturidade”, como a agressividade normal para um vombate selvagem, comportamentos defensivos ou de medo, provavelmente estão prontos para passar à próxima fase.

Quando chegar a esse ponto, Emily vai colocá-los em recintos ao ar livre no orfanato e parar com a alimentação por biberão. Quando pesarem entre 15 e 25 quilos, com cerca de 18 meses de idade, serão libertados na natureza.

Altos e baixos da reabilitação
Infelizmente, a reabilitação nem sempre funciona – alguns vombates não recuperam. Na verdade, o primeiro vombate que Emily e a sua mãe acolheram morreu. “Ele era como um irmão para mim. A minha mãe alimentava-o antes de mim”, diz Emily.

Emily alimenta dois vombates no seu quarto. Os jovens animais requerem uma fórmula especializada, que é difícil de obter devido ao abrandamento dos correios provocado pela pandemia.

Fotografia de Doug Gimesy

Quando o vombate morreu, ambas disseram que não iriam acolher outro órfão. Mas não durou muito tempo. “Dizemos isso todos os anos, e eles continuam a chegar. Não conseguimos dizer que não”, diz Emily.

“Quando estão felizes e a brincar, é a melhor coisa que já vi. Qualquer pessoa que consiga evitar sorrir ou rir, quando os vombates estão assim, não é humana.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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