Esta Abelha Mutante Rara é Macho e Fêmea

O inseto também tem olhos amarelos, outra peculiaridade genética rara. Esta combinação de fenómenos estranhos provavelmente não irá acontecer novamente durante muito tempo, dizem os especialistas.

Thursday, August 20, 2020,
Por Jason Bittel
“Cuido de abelhas desde 1976 e esta é a primeira vez que vejo algo assim”, diz ...

“Cuido de abelhas desde 1976 e esta é a primeira vez que vejo algo assim”, diz o apicultor Joseph Zgurzynski.

Fotografia de Annie O'Neill

Quando verificava as suas colmeias em junho, o apicultor Joseph Zgurzynski descobriu algo muito invulgar. Apesar de todas as outras abelhas da colmeia terem olhos pretos normais, um dos insetos exibia um par de olhos amarelos que eram impossíveis de ignorar.

Mas as peculiaridades não se ficavam por aqui. Quando Zgurzynski observou a abelha mais de perto, percebeu que não só a cor era invulgar, mas os olhos também eram anormalmente grandes. Na verdade, pareciam os olhos típicos das abelhas macho, ou zangões, apesar de o resto da abelha – abdómen, ferrão e asas – serem claramente de uma fêmea.


“Cuido de abelhas desde 1976 e esta é a primeira vez que vejo algo assim”, diz Zgurzynski, que cuida de cerca de seis milhões de abelhas na sua empresa, a Country Barn Farm, a norte de Pittsburgh, na Pensilvânia.

Felizmente, Zgurzynski estava acompanhado naquele dia pela fotógrafa Annie O’Neill, que passou quase uma hora a documentar a estranha abelha. Posteriormente, Zgurzynski decidiu obter uma segunda opinião e enviou algumas das fotografias para David Tarpy, especialista em abelhas da Universidade Estatal da Carolina do Norte.

A abelha de olhos amarelos tem o que se chama de ginandromorfismo, onde as características de ambos os sexos estão presentes, mas que não se dividem uniformemente a meio do corpo.

Fotografia de Annie O'Neill

Tarpy confirmou as suspeitas do apicultor. Para além de uma mutação genética que afeta a pigmentação dos olhos e que provavelmente a deixa cega – uma condição bastante rara – a abelha também tem o que se chama de ginandromorfismo (um organismo que possui características femininas e masculinas).

Mesmo nas espécies mais amplamente estudadas, o ginandromorfismo é extremamente raro, embora nos últimos anos tenham surgido exemplos fascinantes em borboletas e pássaros.

“É por essa razão que isto é tão surpreendente”, diz Tarpy. “É o mesmo que apanhar dois relâmpagos na mesma garrafa.”

Avós sem filhos
Os humanos têm cromossomas emparelhados – um conjunto de cada progenitor – e a sua combinação afeta as características que são transmitidas. É por isso que uma criança pode ter cabelos pretos e olhos castanhos, enquanto que o irmão, filho dos mesmos pais, pode ser loiro de olhos azuis.

Mas a genética das abelhas é um pouco diferente, diz Natalie Boyle, entomologista da Universidade Estatal da Pensilvânia.

Quando uma rainha e um zangão acasalam, os seus ovos fertilizados geram apenas abelhas fêmeas. Isto acontece porque os machos são criados a partir de ovos não fertilizados, o que significa que têm apenas um conjunto de cromossomas – os da rainha. Assim, as abelhas macho não têm pais ou filhos, mas têm avós e netos.

“Se perdermos muito tempo a pensar nisto, ficamos com a cabeça feita num oito”, diz Boyle.

“Como os zangões têm apenas um conjunto de cromossomas, quando acontece uma mutação genética rara, como a cor amarela dos olhos, essa mutação irá sempre aparecer.”

Apesar de invulgares, estas mutações oculares extraordinárias não são inéditas: os cientistas estudam mutações na cor dos olhos das abelhas desde 1953.

“A biologia consegue ser estranha”
Porém, o ginandromorfismo desta abelha não é fácil de explicar.

Se a abelha tivesse ginandromorfismo bilateral – mais ou menos dividido ao meio, exibindo características masculinas de um lado do corpo e femininas do outro – seria provável que o ovo se tivesse dividido antes de ser fertilizado, diz Tarpy.

Mas dado que as características estranhas desta abelha são conhecidas por ginandromorfismo em mosaico – onde os traços de ambos os sexos estão presentes – é possível que tenha ocorrido uma aberração posterior no desenvolvimento da abelha. Mas não se sabe exatamente como aconteceu.

“Como sabemos, a biologia consegue ser estranha”, diz Tarpy.

Animais subestimados
Os animais do tamanho de pássaros e borboletas podem ter um ginandromorfismo colorido e óbvio, mas nem todos os exemplos são facilmente identificados.

Erin Krichilsky precisou de um microscópio para descobrir o ginandromorfismo bilateral numa pequena abelha Halictidae enquanto trabalhava no Instituto de Pesquisa Tropical Smithsonian, no Panamá. Quando Erin percebeu que o inseto de quatro milímetros tinha o maxilar superior de uma fêmea no lado esquerdo e o maxilar inferior de um macho no lado direito, correu literalmente pelo laboratório para mostrar a todos o que tinha encontrado.

“Estes mutantes são facilmente ignorados”, diz Erin Krichilsky, que publicou as suas descobertas sobre a abelha Halictidae na Journal of Hypmenoptera Research. “Mas acho que os estamos a subestimar. Por exemplo, estes animais, que são metade macho e metade fêmea, podem ser os precursores evolutivos de novas formas ou comportamentos.” Mas não se sabe como é que esta condição afeta a sua longevidade ou fertilidade.

Em relação à abelha especial de olhos amarelos, Zgurzynski diz que está preservada dentro de um frasco. Apesar de poder parecer cruel, Zgurzynski diz que é provável que o inseto cego morresse ou fosse expulso do ninho.

“Ainda bem que ele guardou o espécime”, diz Erin. “Provavelmente vai demorar muito tempo até encontrarmos outra abelha com estes dois fenómenos em simultâneo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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