Macacos Colocam os Dedos nos Narizes uns dos Outros e Arrancam Pelos em Rituais Estranhos

Os macacos-prego da Costa Rica envolvem-se em comportamentos estranhos para testar e estabelecer laços sociais.

Friday, August 7, 2020,
Por Corryn Wetzel
Macacos-prego-de-cara-branca (Cebus capucinus) com comportamentos estranhos – colocam os dedos nos narizes uns dos outros para ...

Macacos-prego-de-cara-branca (Cebus capucinus) com comportamentos estranhos – colocam os dedos nos narizes uns dos outros para testar a “amizade” e construir laços sociais.

Fotografia de Susan Perry

Na Costa Rica, há um grupo de macacos-prego-de-cara-branca que ocasionalmente arrancam pelos uns aos outros, colocam os dedos nos narizes uns dos outros e até abrem os maxilares uns dos outros. Estes comportamentos não têm um objetivo óbvio e, por vezes, parecem bastante desagradáveis e arriscados. Um dos macacos que é particularmente irrequieto, chamado Napoleon, foi visto a arrancar tufos de pelo do tamanho de uma bola de algodão a outros macacos em várias ocasiões – e depois coloca-os na boca.

“Um dos macacos queria os seus pelos de volta e tentou abrir a boca do Napoleon”, diz Susan Perry, diretora do Projeto de Macacos Lomas Barbudal da Universidade da Califórnia em Los Angeles – este projeto engloba um estudo feito ao longo de 30 anos sobre os macacos-prego-de-cara-branca da Reserva Biológica Lomas de Barbudal, na Costa Rica.


Apesar de já terem sido observados ocasionalmente macacos noutras partes da Costa Rica a exibirem estes comportamentos, Susan Perry reparou que estas atitudes pareciam mais predominantes nos macacos de Lomas Barbudal. Ao longo de 15 anos, Susan Perry e a sua equipa de investigação documentaram quase 450 casos de comportamentos destes entre os mais de 50 macacos de Lomas Barbudal. Quase 80% dos membros do grupo participam em pelo menos uma troca de rituais com outros macacos.

Num artigo publicado em junho, Susan Perry e o colega Marco Smolla explicam a sua teoria sobre as razões pelas quais este grupo de macacos desenvolveu um repertório de comportamentos únicos e aparentemente fúteis – os investigadores dizem que estes atos equivalem a comportamentos ritualizados que servem para testar os laços sociais. E como estes comportamentos só foram documentados desta forma neste grupo, é mais uma evidência de que estes macacos podem ter culturas distintas que ainda estão em evolução.

Amizades colocadas à prova
Os macacos-prego-de-cara-branca que vivem na América Central e do Sul têm uma proporção entre cérebro e corpo que é comparável à dos chimpanzés, algo que normalmente significa capacidades cognitivas e sistemas sociais mais avançados, diz  Sarah Brosnan, primatologista da Universidade Estadual da Geórgia que não participou no estudo.

É por esta razão que Susan Perry sabia que existia um bom motivo para este grupo perder tanto tempo e energia em rituais desconfortáveis, que são definidos como um conjunto de ações geralmente repetitivas e sem um objetivo óbvio.

“Sentimos uma reação quase visceral quando vemos um macaco a enfiar os dedos no nariz de outro macaco”, diz Sarah Brosnan. “Para mim, foi impressionante... o macaco estava perfeitamente feliz em ficar apenas ali sentado enquanto o outro lhe metia os dedos no nariz. Isto sugere que, para eles, isto é de alguma forma importante – caso contrário, por que razão fariam isto?”

Para responder a esta questão, o trabalho de Susan Perry centra-se em torno de uma hipótese – o teste de laços sociais – que foi descrita pela primeira vez pelo biólogo evolucionista Amotz Zahavi na década de 1970.

“A ideia por detrás da teoria de Amotz Zahavi é a de que alguns animais impõem um fator de stress sobre outro para avaliar a sua reação – para obter uma resposta honesta de como se sentem em relação a alguém”, diz Susan Perry, que também é Exploradora National Geographic.

Por outras palavras, como diz o ditado, o conflito revela o caráter. Os macacos precisam de compreender o caráter de outros para fortalecer os laços sociais, porque é isso que determina o seu estatuto num grupo. E o estatuto, por sua vez, pode influenciar o seu sucesso reprodutivo, a segurança e o acesso a comida.

No caso do macaco Napoleon, o seu comportamento testa a disponibilidade que os outros macacos têm em relação à sua agressividade, e testa a disposição que têm para colocar os seus dedos vulneráveis na boca de Napoleon – para recuperarem os pelos. Susan Perry diz que Napoleon tem uma forma particularmente criativa de testar os laços sociais. “Isto pode ser aborrecido para muitos dos macacos, e Napoleon até tem um estatuto social relativamente baixo.”

Susan Perry acredita que esta prática, que visa testar os laços sociais, é mais útil quando as relações são ambíguas, pois estes testes podem fornecer informações sobre as reações dos outros e sobre a sua tolerância ao desconforto. E pode ser útil para alterar comportamentos sociais no futuro – e criar aliados.


O ‘sagrado’ e o profano
Para estes macacos, os rituais também incluem a troca de um objeto aparentemente inútil de um lado para o outro. Como estes itens parecem ter algum significado especial, ainda que sejam inúteis, Susan Perry chama-os de objetos “sagrados”.

A troca contínua de um objeto sagrado, como um pedaço de casca de árvore ou um tufo de pelo, é outra das formas pelas quais um macaco testa a força de um vínculo com um companheiro. Esta troca pode ser arriscada, pois um macaco pode ter de colocar as mãos na boca de outro macaco para tirar o objeto. E também pode ser divertida, com os macacos a entregarem simplesmente os objetos uns aos outros.

Sarah Brosnan compara estas interações a um jogo infantil. “O pau com o qual as crianças brincam provavelmente não é importante, mas o facto de o passarem de um lado para o outro, o facto de precisarem de se tocar com um padrão específico para entrarem num ‘clube secreto’, parece um paralelo razoável para o que estes macacos estão a fazer.”

Apesar de os humanos e estes macacos terem rituais e afetos bastante diferentes em relação a objetos, estas trocas podem alterar a forma como pensamos sobre a evolução dos primatas e sobre a origem dos rituais – será que têm uma ligação biológica ou será que se aprendem culturalmente?

Susan Perry planeia estudar como é que estes rituais de interação evoluem ao longo das relações entre macacos. “Isto pode oferecer uma janela sobre como surgem e se alteram os rituais noutros primatas, incluindo nos humanos.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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