Mortes Controversas de Lobos Continuam no Estado de Washington

O estado de Washington matou recentemente os três membros da matilha de lobos Wedge, o acontecimento mais recente de um debate feroz sobre a melhor forma de controlar estes carnívoros.

Friday, August 21, 2020,
Por Josh Adler
À medida que os lobos regressam à região oeste dos EUA, os debates sobre a forma ...

À medida que os lobos regressam à região oeste dos EUA, os debates sobre a forma como lidar com os animais que atacam gado estão cada vez mais intensos.

Fotografia de Cultura Creative (RF) / Alamy Stock Photo

As autoridades estaduais de vida selvagem mataram o que restava de uma matilha de lobos na região leste de Washington e autorizaram a morte de um ou dois membros de outra matilha próxima, reafirmando a polémica política do estado em utilizar meios letais para lidar com os predadores que atacam gado.

O anúncio foi feito depois de o Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Washington ter baleado uma loba no dia 27 de julho na Floresta Nacional de Colville, no canto nordeste do estado. A loba e outros dois lobos faziam parte da matilha Wedge que matou quatro cabeças de gado e feriu outras 12 na região desde abril. Suspeita-se que outra matilha, a Leadpoint, matou ou feriu seis animais nos últimos 30 dias.

No mesmo dia em que a fêmea foi morta, o departamento divulgou um comunicado onde dizia que tinha como objetivo limitar o uso de meios letais contra lobos no seu estado.


Após a morte da loba da matilha Wedge, os dois lobos restantes da matilha mataram mais dois bovinos. Pouco depois, Kelley Susewind, diretor do departamento,  anunciou que o estado iria tomar ações letais contra os animais e, no dia 17 de agosto, o departamento anunciou que tinham sido abatidos.

O estado já matou 34 lobos no leste de Washington nos últimos oito anos devido a ataques a gado.

“Seria bom não termos de matar lobos”, diz Staci Lehman, porta-voz do Departamento de Pesca e Vida Selvagem. “Mas também há pessoas cujos meios de subsistência são afetados.”

O rancheiro Len McIrvin, proprietário do Rancho Diamond M, que perdeu gado devido à matilha Wedge, diz que “os lobos problemáticos têm de ser removidos”. McIrvin afirma que o seu negócio perdeu mais de 70 cabeças de gado por ano desde 2008 devido a ataques de lobos, embora o estado não tenha confirmado mais de 30 mortes anuais de animais provocadas por lobos em todo o estado de Washington durante esse período de tempo.

A morte da loba foi o último evento crítico de um acérrimo debate que decorre neste estado sobre a conservação de lobos. Embora a agência estadual de vida selvagem alegue estar a fazer o que é necessário para proteger os rancheiros, alguns cientistas, ambientalistas e políticos – incluindo o governador Jay Inslee – condenaram esta matança por motivos humanos e ecológicos, argumentando que não é uma abordagem cientificamente válida.

Muitos dos que se opõem às ações estaduais referem investigações recentes que sugerem métodos não letais, como equipas de cães de guarda e recintos protegidos para o gado, que tendem a ter mais sucesso na prevenção de potenciais ataques do que o simples abate de predadores, diz Adrian Treves, biólogo da Universidade de Wisconsin-Madison. Estas mortes podem na verdade levar a mais perdas de gado porque perturbam as redes sociais das matilhas, fazendo com que os lobos sobreviventes virem as suas atenções para presas mais fáceis, como animais domésticos, diz Treves, que fundou o Carnivore Coexistence Lab, uma organização que faz investigações no mundo inteiro sobre o conflito entre predadores e gado.

Alguns rancheiros argumentam que o uso de técnicas não letais duplica a sua carga de trabalho, adiciona custos operacionais e só funciona ocasionalmente. Ainda assim, vários rancheiros do leste de Washington trabalham proativamente com o estado para manter as suas manadas em segurança, com métodos não letais, e raramente perdem gado, diz a agência.

História violenta
Os lobos-cinzentos já viveram por todo o estado de Washington – e em grande parte dos Estados Unidos – mas os colonos exterminaram-nos deste estado na década de 1930. Desde 1995, os lobos foram reintroduzidos na maior parte das Montanhas Rochosas do norte e nos estados do sudoeste americano, mas continuam sob proteção federal em muitas outras regiões. Contudo, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA propôs a remoção dos lobos-cinzentos da Lista Federal de Espécies Ameaçadas, gerando um acérrimo debate.

Nos últimos 12 anos, alguns lobos dispersaram-se das suas populações no Canadá e em Idaho para regressarem a Washington. Hoje, a grande maioria dos estimados 145 lobos do estado vivem no leste de Washington, onde estão classificados em perigo de extinção pela lei estadual. É necessário estabelecer mais pares reprodutores para que a sua classificação seja melhorada.

Os lobos preferem caçar alces ou veados selvagens, mas caçam bezerros ou gado que se separa da manada porque são presas fáceis. Em Washington, se um rancheiro suspeitar que a morte de uma vaca foi provocada por lobos, as autoridades estaduais conduzem uma investigação forense. Se for confirmada a morte por um lobo, o Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Washington paga ao rancheiro até 10 mil dólares por incidente e ajuda a financiar a prevenção de ações não letais adequadas às operações de cada rancho. De acordo com as diretrizes do departamento, as ações letais só devem ser consideradas em último recurso e após ataques repetidos a gado.

Dos 34 lobos que o estado matou, 29 foram abatidos porque atacaram gado do Rancho Diamond M, que possui cerca de 1.600 cabeças de gado. Este empreendimento é gerido por McIrvin, cuja família paga uma taxa ao Serviço Florestal dos EUA para pastorear o seu gado nos cerca de 328 mil hectares designados para esse fim pelo plano de gestão do governo federal para a Floresta Nacional de Colville.

“Se os lobos tiverem por hábito matar gado, removemos a matilha, é tão simples quanto isso”, diz McIrvin em entrevista por telefone. A principal queixa de McIrvin é a de que os regulamentos estaduais o impedem de fazer o trabalho por si próprio. “Tudo o que eles precisam de fazer é dizer para eu tratar do problema e fica tudo bem. Mas eles não vão fazer isso.”

A Floresta Nacional de Colville abrange a Cordilheira do Rio Kettle, e as vacas podem separar-se facilmente da manada neste terreno montanhoso e acidentado. As patrulhas a cavalo são a melhor forma de evitar que os lobos ataquem gado neste tipo de paisagem, diz Chris Bachman, diretor de vida selvagem do grupo de conservação Lands Council, uma organização sediada em Spokane. As patrulhas a cavalo têm membros que são particularmente treinados para percorrer pastagens e florestas onde o gado pasta e para manterem o gado protegido de lobos e outros predadores. Bachman está a colaborar com os rancheiros estaduais e locais para encontrar as melhores práticas de atuação para os patrulheiros.

“Se não tivermos um homem a cavalo para manter o gado todo junto, os animais vão para qualquer lugar. Portanto, é apenas uma questão de tempo até que sejam atacados”, diz Bachman.

Se as patrulhas encontrarem lobos nas proximidades, podem usar meios dissuasores, como luzes, música alta ou tiros para o ar para os afugentar. Estes homens são geralmente treinados e contratados pelo estado, que oferece os seus serviços aos rancheiros por custos irrisórios ou gratuitamente. Porém, alguns rancheiros, incluindo McIrvin, preferem contratar as suas próprias equipas.

Factos sobre Lobos
Com o seu olhar penetrante e uivar arrepiante, os lobos inspiram adoração e controvérsia por todo o mundo. Descubra quantas espécies de lobos existem, as características que tornam o seu uivar único e como a população de lobos nos Estados Unidos Continentais quase se extinguiu.

As patrulhas também têm a tarefa de encontrar carcaças de gado e informar a administração de cada rancho para a sua remoção. A remoção de gado morto – bem como a de animais feridos – é fundamental para reduzir os ataques, porque pode atrair mais lobos, dizem os especialistas.

Antes de a loba da matilha Wedge ter sido abatida no dia 27 de julho, os agentes estaduais de vida selvagem disseram que os bezerros feridos do Rancho Diamond M só foram encontrados dias depois de terem sido atacados. Isto sugere que os meios de dissuasão não letais foram indevidamente utilizados, ou que a manada não estava a ser acompanhada quando os ataques ocorreram, diz Amaroq Weiss, defensor de lobos do Centro para a Diversidade Biológica da Costa Oeste, um grupo ambientalista. McIrvin diz que os seus cavaleiros estavam no local, mas os registos estaduais mostram que, nos 26 dias que antecederam os ataques, a patrulha só trabalhou seis dias a tempo inteiro e oito dias parcialmente.

“Não existe um único [método] não letal que funcione”, diz McIrvin. “O melhor que um cavaleiro pode fazer é afugentar os lobos até às propriedades dos meus vizinhos.”

Mas nem todos os rancheiros são tão impetuosos quanto McIrvin, e muitos têm dificuldade em lidar com a situação.

“Isto não é fácil”, diz Hilary Zaranek, rancheira do Montana que dirige uma operação de gado com o seu marido e os três filhos na Bacia Tom Miner, o território mais densamente povoado por lobos no seu estado. “Sentei-me num campo com lobos mortos e limitei-me a chorar. Depois, enchi veículos todo o terreno com bezerros mortos, fui para casa e quis desistir desta atividade. Mesmo as pessoas que querem fazer algo diferente nem sempre sabem o que podem fazer.”

Morte gera mais morte
As investigações mostram que a morte de membros individuais de uma matilha de lobos pode fazer com que esta se divida, fazendo com que os lobos fiquem mais desesperados e propensos a atacar gado, diz Weiss.

“Isto dá origem a mais ataques. Ter matilhas estáveis que têm famílias ao longo de várias gerações favorece a estabilidade. Se for só um ou dois adultos a caçar, vão procurar uma presa mais fácil. E é mais fácil caçar gado do que alces ou veados selvagens. Portanto, estamos a criar este cenário”, diz Weiss.

O Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Washington já reconheceu este padrão de comportamento no passado. Nos documentos divulgados de um processo judicial de agosto de 2018, Benjamin Maletzke, o especialista em lobos do estado, escreveu que ferir um lobo macho durante a época de reprodução pode fazer com que esse lobo e a sua parceira ataquem gado. “Se um dos dois for ferido, a sua capacidade em abater uma presa selvagem para alimentar a família fica comprometida.” Acontece o mesmo se forem abatidos, diz Weiss. E se uma matilha inteira for morta, os ataques ao gado podem parar temporariamente, mas uma nova matilha irá muito provavelmente entrar em ação. A matilha Wedge, por exemplo, mudou-se para a região depois de a matilha anterior ter sido morta pelo estado.

Há outras investigações científicas que suportam esta visão. Treves e os seus colegas fizeram a revisão a 40 anos de investigação sobre os métodos letais e não letais usados na redução de predadores de gado e chegaram a uma “conclusão surpreendente”. De acordo com o artigo de 2018 que foi publicado com as suas descobertas: “Os métodos letais revelaram efeitos contraproducentes recorrentes, levando a mais perdas de gado”.

Mas Trent Roussin, biólogo de campo do Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Washington, que monitoriza matilhas na região nordeste, argumenta que este debate sobre o comportamento desestabilizado das matilhas não reúne consenso. E também diz que a necessidade de reduzir os ataques no imediato é a consideração principal. “No terreno, o motivo pelo qual estamos a remover os lobos é para impedir os ataques agora, este ano.”

Roussin diz que a remoção da fêmea não reprodutora da matilha Wedge tinha como objetivo a diminuição das necessidades calóricas, reduzindo assim os ataques a gado. Talvez esta loba também tenha sido responsável pela matança de gado, diz Roussin, mas não sabemos. “Nunca sabemos realmente, até matarmos um lobo, se isso é eficaz.”

Neste caso, a matilha atacou mais gado desde o dia 27 de julho, diz Lehman.

Alvos errantes
Não são apenas os ambientalistas que protestam contra as mortes de lobos. No dia 30 de setembro de 2019, o governador Jay Inslee enviou uma carta à agência de vida selvagem onde solicitava que “reduzissem significativamente a necessidade de remoção letal” de lobos-cinzentos.

No dia 27 de julho – o mesmo dia em que a loba da matilha Wedge foi abatida – o Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Washington respondeu ao pedido de Inslee, anunciando que ia oferecer mais patrulhas de apoio para as “zonas de ataques crónicos”, incluindo na Cordilheira do Rio Kettle. A agência também vai testar novos métodos para localizar gado em áreas mais vastas, incluindo coleiras, chocalhos e dispositivos de identificação via rádio.

Os outros esforços incluem mais financiamento para as patrulhas e o fornecimento de materiais para os rancheiros usarem, incluindo lanternas, buzinas e bandeiras para estabelecer perímetros. Os patrulheiros a cavalo também terão de usar dispositivos GPS portáteis e manter registos diários para uma maior transparência e responsabilização.

Estes recursos adicionais serão de pouca utilidade, salienta Weiss, se os rancheiros como McIrvin não se comprometerem totalmente a fazerem uso dos mesmos. Weiss também diz que a resistência de rancheiros como McIrvin está enraizada na desconfiança que têm da “burocracia”, embora o Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Washington considere os rancheiros semelhantes a “clientes”.

Mas, para muitas pessoas, a matança de lobos levada a cabo de forma continuada pela agência ofusca quaisquer planos atuais de reforma. Treves diz que está frustrado porque ele e outros cientistas falaram durante anos com o estado sobre os melhores métodos de proteção de gado contra predadores de acordo com a melhor ciência disponível e reconhecida internacionalmente. “No entanto, o estado parece confiar mais na ciência irreproduzível de revistas dúbias para justificar a matança de lobos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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