Mortes de Animais Devido a Desinfetantes Contra Coronavírus Preocupam Cientistas

Em Chongqing, na China, pelo menos 135 animais foram envenenados – evidências de que as cidades devem regulamentar a pulverização de desinfetantes em áreas públicas, argumentam os biólogos.

Publicado 19/08/2020, 15:39 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
Um tanque robótico pulveriza desinfetante nas ruas de Wuhan, na China, no dia 16 de março. ...

Um tanque robótico pulveriza desinfetante nas ruas de Wuhan, na China, no dia 16 de março. Os especialistas desaconselham agora esta prática devido a preocupações com a saúde humana.

Fotografia de Barcroft Media, Getty Images

Nos primeiros dias da pandemia de COVID-19, as autoridades de saúde pública acreditavam que uma das formas mais eficazes de combater a propagação do vírus passava pela desinfeção das superfícies mais utilizadas.

Esta crença fez com que a China, Coreia do Sul, França, Espanha e vários outros países pulverizassem enormes quantidades de desinfetante nas áreas urbanas mais densamente povoadas. Frotas de camiões, drones e até mesmo veículos robóticos inundaram as ruas, parques e outros espaços públicos ao ar livre com produtos químicos antivirais.

Na Indonésia, os drones encharcaram as casas com desinfetante a partir do ar. E numa vila espanhola, tratores despejaram milhares de litros de lixívia numa praia pública.


Os especialistas em doenças infecciosas, incluindo a Organização Mundial de Saúde, denunciaram esta prática como sendo ineficaz e um potencial perigo para a saúde das pessoas, citando em particular irritações respiratórias devido à inalação de produtos químicos. Combinar desinfetantes, como lixívia e amoníaco, também pode libertar gases potencialmente mortíferos, alertou a OMS.

Este mês, os biólogos juntaram as suas vozes a esta questão, afirmando através de um novo comunicado na revista Environmental Research que o uso indiscriminado destas substâncias em ambientes urbanos representa um perigo significativo para a vida selvagem.

A China foi o primeiro país, em janeiro de 2020, a começar a higienizar as suas cidades – e assim que o fez, começaram a chegar relatos de animais envenenados. Em fevereiro, uma investigação do Chongqing Forestry Bureau da cidade de Chongqing, uma enorme cidade no sudoeste da China, descobriu que pelo menos 135 animais de 17 espécies diferentes – incluindo javalis, doninhas siberianas e melros – tinham morrido depois da exposição a desinfetantes, de acordo com a agência de notícias chinesa Xinhua.

Os ingredientes dos desinfetantes, sobretudo o hipoclorito de sódio, o cloro e a lixívia, “são altamente tóxicos para os animais terrestres e aquáticos”, diz Dongming Li, professor de ecologia da Universidade Hebei Normal e coautor da análise da Environmental Research, análise que se baseou exclusivamente na investigação do Chongqing Forestry Bureau. Dongming Li e os seus colegas não examinaram pessoalmente os animais para confirmarem o que os matou.

Ainda assim, as mortes destes animais são evidências preocupantes. Li acredita que o uso excessivo de desinfetantes pode contaminar os habitats de vida selvagem urbana.

A equipa de Li está agora a pedir aos líderes mundiais para regulamentarem a dispersão de desinfetantes nas áreas urbanas, algo que, de acordo com a equipa, está a ser feito sem o input da comunidade científica.

Princípio básico de ecologia
Os desinfetantes químicos matam vírus, bactérias e outros microrganismos destruindo as suas paredes celulares e danificando as proteínas através da oxidação. Quando inaladas ou ingeridas por pessoas ou animais, estas substâncias podem irritar ou corroer as membranas mucosas dos tratos respiratório e digestivo. Em casos extremos, a exposição pode resultar na morte de um indivíduo.

As investigações como a de Chongqing não foram realizadas fora da China, pelo que não se sabe como é que a dispersão ao ar livre de desinfetantes afeta a vida selvagem urbana e os ecossistemas noutros países.

“Mas não é difícil perceber que, se colocarmos substâncias tóxicas num sistema, elas irão viajar pela cadeia alimentar”, diz Christopher J. Schell, professor de ecologia urbana na Universidade de Washington, em Tacoma. “É um princípio básico de ecologia.”

Embora as mortes dos animais em Chongqing sejam o único exemplo amplamente conhecido de desinfetantes que afetaram a vida selvagem, existe pelo menos uma outra observação do fenómeno que é conhecida, diz Schell.

Em Brickell Key, uma ilha artificial ao largo de Miami, na Flórida, vários habitantes locais e os seus cães adoeceram depois de a Brickell Key Master Association, que administra a ilha, ter implementado um programa de higienização ao ar livre, com trabalhadores em fatos de proteção a pulverizarem desinfetante diariamente nos parques da ilha, passeios e bancos de jardim.

Uma semana depois do início deste programa, vários habitantes da ilha começaram a sentir fortes dores de cabeça e pelo menos dois cães tiveram casos de vómitos, de acordo com a reportagem da agência Local 10, uma agência de notícias de Pembroke Park, na Flórida. A associação que gere a ilha não respondeu aos pedidos da National Geographic para comentar.

Salvar em vez de pulverizar
Embora a higienização das superfícies que são tocadas com mais frequência poder ajudar a reduzir a disseminação do coronavírus, sabe-se agora que a maioria das pessoas contrai a doença através da inalação de gotículas presentes no ar que são expelidas por uma pessoa infetada – não quando se entra em contacto com uma superfície contaminada.

É por esta razão que, em maio, a Organização Mundial de Saúde desaconselhou a utilização de desinfetantes ao ar livre, não só porque as ruas e calçadas “não são consideradas rotas de infeção para a COVID-19”, mas também porque a pulverização destes produtos químicos “pode ser nociva para a saúde das pessoas e provocar danos ou irritações nos olhos, na pele ou problemas respiratórias.” A OMS não mencionou os efeitos nocivos para a vida selvagem.

De acordo com as agências de notícias locais, alguns países, incluindo o Vietname e o Brasil, continuam a pulverizar desinfetantes em zonas públicas.

“A pandemia de COVID-19 tem semeado o medo no público em muitos países. E muitas autoridades de saúde do mundo inteiro podem continuar a pulverizar mais desinfetantes para garantir que o vírus está totalmente morto e para aliviar as preocupações com a infeção viral”, diz Li.

“Mas há uma abordagem melhor – encorajar as pessoas a ficarem em casa.”

Li escreve que, “em vez de se pulverizar indiscriminadamente enormes volumes de desinfetante em áreas ricas em biodiversidade, como parques urbanos, lagos e espaços verdes, seria preferível suspender as atividades humanas nesses locais”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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