Pandemia Ameaça Meio Século de Esforços de Proteção de Macacos Raros

A pandemia de COVID-19 continua a fustigar todo o Brasil e dificulta um importante programa de vacinação que visa proteger o ameaçado mico-leão-dourado da febre amarela.

Thursday, August 27, 2020,
Por Jill Langlois
Micos-leões-dourados – animais em perigo de extinção – sentados no ramo de uma árvore na Mata ...

Micos-leões-dourados – animais em perigo de extinção – sentados no ramo de uma árvore na Mata Atlântica do Brasil. Embora os números de micos-leões-dourados tenham recuperado de apenas algumas centenas na década de 1970 para alguns milhares na atualidade, os surtos de febre amarela podem reverter este progresso.

Fotografia de Leo Correa, Associated Press

SÃO PAULO, BRASIL – A disseminação desenfreada de COVID-19 pelo Brasil está a ameaçar mais de meio século de esforços de conservação para proteger um pequeno macaco alaranjado chamado mico-leão-dourado.

Com um nome que deriva das suas jubas leoninas e encontrados apenas no Brasil, os micos-leões-dourados decresceram para apenas 200 indivíduos na década de 1970, devido à captura para o comércio de animais de estimação e à destruição e fragmentação do seu habitat na Mata Atlântica do Brasil. Uma série de esforços de conservação – que vão desde investigações genéticas e reprodutivas até à reprodução em cativeiro e a realocações para áreas de habitat que precisam de um aumento populacional – recuperaram os números para valores a rondar os 3.700 em 2014.

Depois, surgiu outro revés. Em 2017, um surto de febre amarela matou cerca de 30% da população recuperada. E agora, um empreendimento de vários anos para vacinar os macacos contra a febre amarela foi suspenso devido à pandemia de coronavírus.


“Foi uma surpresa quando os micos morreram de febre amarela”, diz Russel Mittermeier, diretor de conservação da organização sem fins lucrativos Global Wildlife Conservation, que estuda o mico-leão-dourado desde os anos 70. Outras espécies de macacos eram conhecidas por serem suscetíveis à doença, mas não os micos-leões-dourados. “Outro surto seria devastador.”

Declínio acentuado da população
Em meados de 2017, os micos-leões-dourados começaram a desaparecer.

Na época, Carlos Ramon Ruiz-Miranda, primatólogo da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, e os seus colegas estavam a terminar um levantamento populacional de rotina destes macacos minúsculos. O Brasil estava a ser assolado pelo pior surto de febre amarela em 80 anos, doença que já tinha fustigado todo o sudeste do país, matando mais de 250 pessoas e milhares de macacos na Mata Atlântica.

Quando Carlos Ruiz-Miranda não encontrou micos-leões-dourados na Reserva Biológica de Poço das Antas, a principal região de estudo desde 1985, o primatólogo ficou perplexo.

“Fiquei preocupado e com um pouco de receio porque era uma população grande e, de repente, percebi que algo terrível tinha acontecido”, diz Carlos.

Passado pouco tempo, os habitantes locais começaram a telefonar ao investigador para informar que os micos-leões-dourados estavam doentes, deitados no chão, e que não conseguiam subir às árvores. (Leia sobre micos-leões-dourados roubados de zoológicos europeus.)

“É realmente raro encontrar micos-leões-dourados mortos nas pastagens”, diz Carlos, que também é presidente da organização sem fins lucrativos Associação Mico-Leão-Dourado, um grupo de conservação sediado no Brasil. Os macacos tendem a permanecer na floresta e só atravessam as pastagens durante breves momentos para passarem de um fragmento de floresta para outro, e as suas carcaças desaparecem rapidamente por causa dos predadores e da humidade elevada do local. “Durante todos os anos em que trabalhei com eles, nunca vi algo assim.”

Em maio de 2018, os cientistas confirmaram a primeira morte de um mico-leão-dourado por febre amarela. No ano seguinte, um estudo mostrou como a situação era terrível; o surto de febre amarela fez com que a população desaparecesse em quase um terço, para apenas 2.516 macacos – que ainda restam atualmente. Na Reserva Biológica de Poço das Antas, no Rio de Janeiro, os investigadores acabaram por confirmar que 30 micos-leões-dourados ainda viviam na região, mas a população da reserva teve um declínio de 70%.

Carlos Ruiz-Miranda e outras pessoas da Associação Mico-Leão-Dourado e Save the Golden Lion Tamarin, uma instituição de beneficência sediada nos EUA, decidiram que uma vacina era a melhor hipótese para salvar a espécie.

Em muitos casos, vacinar populações inteiras de primatas seria impossível, mas o mico-leão-dourado vive numa região pequena e é acompanhado de perto pelos investigadores, pelo que parecia viável, diz Sérgio Lucena, primatólogo e diretor do Instituto Nacional da Mata Atlântica. “Para ter sucesso”, diz Sérgio, “a vacina tem de ser usada de uma forma muito exata e dentro de uma área muito restrita”.

Até 2018, os cientistas não sabiam que a febre amarela podia infetar os micos-leões-dourados, mas os testes e levantamentos populacionais confirmaram que um surto tinha levado ao declínio de 30% da população.

Fotografia de Silvia Izquierdo, Associated Press

Assim que as primeiras vacinas – uma versão diluída da que é administrada a humanos – foram dadas aos micos-leões-dourados em cativeiro e consideradas seguras, o maior obstáculo passou pela obtenção de uma autorização para administrar a vacina aos macacos na floresta. Esta foi a primeira vez em que um pedido deste género foi feito ao governo e não havia um processo definido para a sua aprovação.

Depois, quando Carlos Ruiz-Miranda e a sua equipa aguardavam por uma última licença, antes de partirem para vacinar cinco grupos sociais de macacos, surgiu a pandemia de COVID-19.

Vacinar macacos durante uma pandemia
Confinados ao trabalho em casa e incapazes de seguir para o campo para continuarem o seu trabalho, os investigadores perderam sete meses à espera.

“Ficámos muito frustrados e irritados com a burocracia”, diz Carlos. “Estávamos a fazer telefonemas semanalmente para tentar fazer alguma coisa com a vacinação e para obter uma resposta rápida quando percebemos que estávamos a perder os micos.”

Finalmente, em agosto, a sua insistência deu frutos. Com uma licença em mãos, os investigadores estão prontos para regressar ao campo em setembro. Assim que os primeiros grupos forem vacinados e transferidos, serão observados durante um período de seis meses a um ano, antes que outros animais recebam o mesmo tratamento.

Para proteger os investigadores da propagação de COVID-19, as equipas irão para a floresta em grupos de duas pessoas, exigindo mais veículos e aumentando o tempo e os custos necessários para a realização do trabalho. Apenas três pessoas são permitidas no laboratório ao mesmo tempo, e têm de usar sempre máscara –enquanto manuseiam os macacos e não só. (Não há evidências de que os micos-leões-dourados podem contrair o coronavírus a partir de humanos, mas também não há evidências do contrário.)

Os micos-leões-dourados que são monitorizados por telemetria demoram até três dias a serem localizados; os que não têm transmissores de rádio podem demorar até dois meses a rastrear. Uma vez encontrados, são colocados numa armadilha especial e sedados para se recolher amostras de sangue, fazer testes com zaragatoas e realizar um exame completo de saúde. A vacina contra a febre amarela pode ser administrada com os macacos acordados.

Se tudo correr bem, o objetivo é vacinar 500 micos-leões-dourados, a população mínima viável para manter a espécie viva na natureza. Carlos Ruiz-Miranda espera que o tempo que perderam devido à COVID-19 não tenha afetado a saúde da população.

“Quanto menor for uma população, maiores serão as probabilidades de qualquer pequeno evento catastrófico a poder eliminar”, diz Carlos. “Se nada for feito, podemos começar a ver extinções locais.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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