Tubarões no Séc. XXI: de Bestas a Bestiais

Thursday, August 13, 2020,
Por João Correia
A ilha de Roca Partida, no Arquipélago Revillagigedo, hospeda um rico habitat marinho. Nesta imagem, tubarões-de-pontas-brancas e ...

A ilha de Roca Partida, no Arquipélago Revillagigedo, hospeda um rico habitat marinho. Nesta imagem, tubarões-de-pontas-brancas e várias espécies de peixe povoam o recife.

Fotografia de Enric Sala/National Geographic Creative

Comecei a gostar de tubarões no início da minha adolescência, que redefiniu o conceito de geek. Enquanto os meus colegas se apoquentavam com as beijocas que conseguiriam surripiar na próxima festa de domingo à tarde, eu comia fatias de pão com manteiga, e doce de melão feito pela minha mãe, deliciado com o episódio semanal do National Geographic. Admito – sem embaraço – que aqueles primeiros acordes da música do genérico - ta-ta-ta-ta-taaa ta-ta-ta-ta-taaa-ta-ta-ta!! - à medida que a moldura rectangular amarela se ia desenhando no écran, me deixavam mais entusiasmado do que as ditas perspectivas de beijocas supra-mencionadas.

Imagem de um caderno com alguns desenhos de tubarões.

Fotografia de João Correia

A minha obsessão por tubarões, amplamente demonstrada pelos bonecos que ia desenhando nos cadernos, terá começado uns anos antes, quando o meu pai me trouxe o extraordinário livro Sharks – Silent Hunters of the Deep de uma viagem à Austrália. Essa paixão foi ainda mais refinada numa ida ao Sea World de Orlando em 1987, onde aprendi uma imensidão de factos interessantíssimos sobre estes animais fascinantes, temperados com a visão sublime dos ditos a nadarem à minha frente. Mas estes momentos de intensidade foram vastamente ultrapassados pela gloriosa cassete VHS do Jaws, a (primeira) obra prima de Steven Spielberg, baseada no romance igualmente brilhante de Peter Benchley. Hoje em dia sou capaz de recitar o script deste ícone do cinema de 1975 desde a primeira à última linha e desafio qualquer umª para um ‘duelo de Jaws’. Aviso-vos que não têm a mais pequena hipótese de me bater. Mas foi durante o primeiro visionamento (de centenas que se seguiram) desta película, que entendi finalmente qual era a minha vocação: era ser cientista tubarólogo, à semelhança do professor Matt Hooper, personagem interpretada por Richard Dreyfuss.


Se a visão do meu futuro com tubarões era um pouco enevoada até aí, esta cristalizou-se de forma límpida no Mr. Hooper, que instantaneamente se tornou em “quem eu queria ser quando fosse grande”. O meu rumo levou-me – sem qualquer outra opção no formulário de candidatura – ao curso de Biologia Marinha na Universidade do Algarve, onde entrei em 1990. Desde então, tenho tido o privilégio de saborear uma sucessão de passos profissionais e académicos centrados nestes lindíssimos animais.

Mas vamos ao foco deste artigo, porque a imagem actual dos tubarões é muito distinta da que era nos longínquos anos 80 e 90, em que todos me achavam maluquinho por querer dedicar a vida a estudar uma besta assassina que come bebés ao pequeno-almoço. “Estás doido, maluco?!” ouvia eu a toda a hora “…isso é um bicho malvado que te arranca uma perna assim que entras na água!!” Esta era a visão que os desgraçados tinham há trinta~quarenta anos e sou o primeiro a admitir que as belíssimas duas horas de Jaws não terão contribuído muito para melhorar esta visão do público. Aliás, até este vosso criado sentiu uns arrepios na espinha quando, nadando em pleno oceano Atlântico, longe da praia, ocasionalmente ouvia os carismáticos taaa-nããããã do John Williams, ficando a cismar se havia um par de olhos, ao lado de uns trezentos dentes afiados, a apreciarem das profundezas o meu estilo de bruços amedrontado. “Quem não?...” depois de ter visto o filme, não é verdade?

Nas minhas primeiras idas à conferência da AES - American Elasmobranch Society, uma sociedade de cientistas que se dedicam ao estudo de ‘elasmobrânquios’, que é o nome técnico de tubarões e raias – apreciava o esforço que todos faziam em arrebanhar dinheiro a programas de financiamento de investigação, tarefa nada fácil porque as instituições financiadoras invariavelmente respondiam “Mas porque diabo quer você tanto dinheiro para estudar um bicho que só sabe é matar pessoas e fazer bichinhos?...” Ironicamente, o filme Jaws trouxe os animais para a ribalta e tornou-se um pouco mais fácil pedir dinheiro para os investigar, desde que o projecto fosse disfarçado de estudo de medidas de protecção contra os desgraçados dos animais. Quem me contou este ‘truque’ foi o professor Samuel Gruber e aqui fica uma merecida homenagem ao ‘Doc’ que, para além de me ter acolhido no seu Sharklab nas Bahamas, em 1994 e 95, é um dos poucos cientistas que dedicou toda a sua carreira ao estudo destes animais, carreira essa que incluiu prestar consultoria ao Steven Spielberg, quando este se preparava para começar a filmar o Jaws em Martha’s Vineyard.

Ao longo dos anos, contudo, tornou-se tristemente evidente que, se alguém precisa de protecção, são os pobres tubarões, que têm levado uma tremenda sova nos últimos tempos, fruto da pesca excessiva que lhes é movida sem perdão. Seja através do horrível corte das barbatanas para a sopa – prática grotesca conhecida como finning – ou mesmo para consumo directo da carne (o público não faz ideia, mas a maioria dos douradinhos que por aí andam estão cheios de carne de tubarão, que é infinitamente mais barata do que a pescada…), a verdade é que os tubarões têm sido dizimados sem perdão nas últimas décadas, facto amplamente documentado em múltiplas publicações científicas, muitas delas focadas nos desembarques comerciais de tubarões na costa portuguesa.  

Artigo de Eugenie Clark publicado na revista National Geographic em 1981.

Fotografia de João Correia

Apesar de tudo, no meio deste cenário terrível, salpicado por documentários e publicações repletas de fotografias de dentadas e tripas à mostra, foram surgindo pequenos grupos de aficionados por tubarões, que se dedicam a estudar estes magníficos animais, frequentemente incompreendidos. Um desses primeiros exemplos surgiu precisamente na National Geographic Magazine em agosto de 1981, num artigo inesquecível redigido pela igualmente memorável Eugenie Clark, (mais) uma investigadora que dedicou a sua vida ao estudo dos tubarões, fundando o Cape Haze Marine Laboratory em Sarasota, na Florida, em 1957. Esta meca do estudo sobre tubarões viria a tornar-se no mais conhecido Mote Marine Laboratory em 1967, constituindo ainda hoje um local de peregrinação para todos os grandes apreciadores destas magníficas criaturas.

Carl Luer, um dos muitos investigadores que por lá laboram há décadas, dedicou os últimos anos da sua carreira a entender o mecanismo através do qual os tubarões conseguem inibir o crescimento de tumores, mecanismo esse que se pretende transmitir aos seres humanos de forma farmacológica. Traduzindo este palavreado técnico por miúdos, os tubarões ajudam-nos a combater o cancro. E nós agradecemos-lhes matando uns cem milhões por ano, num acto de simpatia tão característico da nossa espécie.

Fotografia minha com Eugenie Clark na reunião da AES em New Orleans, no ano de 1996.

Fotografia de João Correia

Mas aproveitemos o mote ‘simpatia’ para elogiar a brilhante carreira de Eugenie Clark, autora de The Lady and the Sharks (1969), com quem tive o privilégio de conversar anualmente nas minhas idas à conferência da AES. Esta foto foi tirada na reunião de 1996, em New Orleans, e está meio amarelada porque exibi-a orgulhosamente na minha parede durante duas décadas, até a imortalizar digitalmente e guardar numa caixa de memórias preciosas.

Durante todos estes anos, e em largas dezenas de palestras sobre tubarões, eu e os meus compadres tubarólogos temos explicado a miúdos e graúdos como estes animais desempenham um papel crucial no ambiente oceânico, sempre com ares de muita desconfiança por parte do público, mais habituado a pensar neles como comedores de criancinhas. Mas, lá diz o ditado, “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. E assim é, porque o esforço dos muitos apreciadores de tubarões espalhados por esse mundo fora, foi conseguindo lentamente alterar a imagem dos pobres bichos. Aqui fica um abração a todos os tubarólogos portugueses que, desde 1997, se tornaram sócios da nossa Associação Portuguesa para o Estudo e Conservação de Elasmobrânquios, que fundei, com outros amigos que partilham a mesma paixão, no dia 31 de janeiro desse ano tão distante. De palestra em palestra, com umas entrevistas para a televisão e imprensa pelo meio, lá fomos explicando ao mundo que os bichos merecem o nosso respeito e não o nosso ódio. Este esforço tem tido eco um pouco por todo o mundo e não é que, nestes gloriosos anos mais recentes de (alguma) elucidação sobre o ambiente que nos rodeia, conseguimos elevar os desgraçados desde a categoria ‘besta assassina’ até… ‘Fofinhos’?!

Neste ponto há que exultar o papel tremendo que os aquários públicos têm desempenhado nesta luta pela educação de um público habituado a associar a palavra ‘tubarão’ a ‘amputação’, mas esse papel será objecto de um artigo futuro dedicado à controversa temática da manutenção de animais marinhos vivos sob cuidado humano. Em paralelo com o tremendo papel dos aquários, também as redes sociais têm desempenhado uma função vital na promoção da imagem destes animais. Quem é que nunca partilhou, ou meteu um belo ‘like’, num vídeo de malucos que se lançam heroicamente à água para ajudarem um tubarão que se vê aprisionado numa zona de rebentação com profundidade baixa demais? O facto curioso é que metemos os mesmos likes em vídeos similares com golfinhos, ou com pobres coalas que tentam desastradamente escapar ao fumo e infernais labaredas que assolam o eucaliptal onde dormiam a sesta. Dir-se-ia, por isso, que os tubarões conseguiram – a muito custo - ascender à categoria de ‘fofura máxima’, partilhada por golfinhos e coalas, ou mesmo pelos reis máximos da fofurice, o ursinho pandinha!

Quem diria, há vinte anos que, na sequência de um incidente entre um tubarão e um surfista – do qual o surfista saiu lamentavelmente perdedor da contenda – a população da Western Australia (particularmente na zona de Perth), ficasse do lado dos tubarões (!) quando o governo local decretou um culling, ou seja, matança indiscriminada da bicheza em praias frequentadas por banhistas e tubarões considerados perigosos. Mais extraordinário ainda, entre os manifestantes que clamavam pela protecção dos tubarões, encontravam-se membros desmembrados da comunidade surfista, vítimas de encontros menos felizes com os nossos amigos dentudos.

A verdade é que as estatísticas não mentem e, ao longo dos anos e muita consciencialização promovida por aquários e ONGs como a AES, APECE, Loving the Planet – e tantas outras – o público foi percebendo que os muito raros incidentes com tubarões (normalmente à volta de 80 por ano, com uma média de 4 fatalidades anuais) são fruto de situações infelizes de “estar no local errado na hora errada”. O mesmo público já entende que não há um único tubarão que, à semelhança do malvado personagem aquático do Jaws, aprecie intensamente tornozelos humanos. Já os leões marinhos que vivem perto de tubarões brancos, ou as tartarugas que nadam em território de tubarões tigre, têm motivos sólidos para acordarem aos gritos a meio da noite, assaltados por terríveis pesadelos sangrentos. Os programas promovidos pela National Geographic e tantos outros, também já nos mostraram que é mais fácil ser atingido por um relâmpago, ser picado por uma vespa africana assassina, ser espezinhado por um hipopótamo, ou ser devorado por um crocodilo, urso, ou leão, do que ser mordido por um tubarão. Já para não falar na probabilidade de ser atropelado, assaltado ou, enfim, apagado por outro ser humano, sendo qualquer uma destas desgraças probabilisticamente mais verosímeis do que o temido ‘ataque de tubarão’.

Assim tem sido com cada vez mais animais, habitats e filosofias variadas de protecção ambiental, que se vão multiplicando por esse mundo fora.

E é precisamente nessa nota que vamos terminar, aproveitando para apelar a tod@s que dediquem alguma da vossa atenção a estes extraordinários animais, que já por cá andavam – ou melhor, nadavam – antes de os dinossauros dominarem os continentes. Perguntar-me-ão “Mas o que é que eu, cidadã(o) comum, posso fazer para proteger os tubarões e, já agora, outros animais que precisam da nossa ajuda?” A resposta é, simplesmente, “Façam o que puderem”, o que inclui: 1) apoiar ONGs dedicadas aos bichos – ou causas - que beneficiam da vossa simpatia; 2) não consumir produtos que promovam carnificinas como o finning, o que significa nada de sopa de barbatana de tubarão, ou comprimidos de cartilagem de tubarão, que não servem para rigorosamente mais nada do que ficarem com um pouco mais de cálcio (comam antes um queijinho fresco, que faz-vos melhor e tem menor pegada ambiental); 3) partilhem e divulguem notícias/programas/documentários que promovam a imagem positiva – e real – destes animais, denunciando aquelas que tentam demonizá-los ou apelando à violência contra eles. Em pouco mais de duas décadas conseguimos elucidar a generalidade da sociedade e educá-la quanto à verdadeira natureza destes animais absolutamente únicos. O grande desafio, agora, é salvá-los da caça impiedosa que lhes tem sido movida e, para isso, é necessária a ajuda e apoio de tod@s. Eu e os meus – correcção, nossos – amigos tubarões, contamos convosco!


João Correia é Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Leiria, General Manager na Flying Sharks, Co-fundador da APECE (Associação Portuguesa para o Estudo e Conservação de Elasmobrânquios), Vice-Presidente da Loving the Planet  e autor da trilogia 'Sex, Sharks & Rock 'n' Roll' e do livro 'Tubarões Voadores'.

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