Açores: Espécies Exóticas de Insetos Aumentam com o Impacto Humano

Surge um novo estudo que revela que as espécies exóticas de insetos, aranhas e outros artrópodes estão a aumentar nos Açores.

Wednesday, September 30, 2020,
Por National Geographic
Aranha-tenaz (Dysdera crocata), uma das espécies exóticas detetadas neste estudo.

Aranha-tenaz (Dysdera crocata), uma das espécies exóticas detetadas neste estudo.

Fotografia de Paulo A.V. Borges

Investigadores de Portugal, França e Finlândia realizaram um estudo onde observaram os insetos capturados ao longo de seis anos na floresta nativa da ilha Terceira, nos Açores. Foram analisados os padrões de diversidade e abundância, assim como, a sua origem geográfica.

Em análise estiveram as espécies endémicas, que apenas podem ser encontradas no arquipélago, e as espécies exóticas, que foram introduzidas no mesmo de forma consciente ou inadvertidamente, através de atividades económicas.

O estudo revela que a diversidade de espécies exóticas de insetos, aranhas e outros artrópodes nos Açores está efetivamente a aumentar. Este padrão tem vindo a ser observado também noutras ilhas em todo o mundo, o que pode contribuir para agravar a atual crise de biodiversidade.

Registou-se ainda uma ligeira diminuição da abundância de espécies endémicas no arquipélago, ou seja, das espécies que não se encontram em mais nenhum outro lugar do planeta.

O aumento da diversidade pode indicar a alteração dos ecossistemas
A investigação ocorreu entre 2013 e 2018. Durante esse período foram capturados mais de 30 mil artrópodes, correspondendo a 159 espécies, das quais 32 são endémicas. A captura ocorreu na Terceira - a ilha que contém a maior área de florestas nativas do arquipélago.

O aumento da diversidade de espécies exóticas de insetos poderá implicar uma alteração em vários tipos de serviços de ecossistemas, perturbando processos como a predação e a reciclagem de nutrientes.

A fragmentação dos habitats nativos e a proximidade de alguns desses habitats não-nativos, está a promover um fluxo de espécies exóticas de insetos para a floresta nativa. Este processo parece estar a aumentar nos últimos anos derivado, possivelmente, à combinação de alterações climáticas e à degradação da floresta nativa por plantas invasoras.

Foram observadas as espécies exóticas de insetos endémicas, não endémicas nativas e exóticas
Para o estudo foi utilizado um conjunto de dados de série temporal exclusivo e testadas as hipóteses das causas da perda da biodiversidade, que estão a alterar a diversidade e a estrutura da abundância relativa das espécies, endémicas, não endémicas nativas e exóticas.

Também foram examinadas as tendências temporais da abundância para cada espécie individual. Registou-se, por fim, um claro aumento da diversidade de espécies exóticas de insetos e algumas evidências da tendência para diminuição da abundância em algumas espécies endémicas.

A aranha-do-cedro-do-mato parece sofrer impacto
O arquipélago dos Açores oferece às espécies exóticas de insetos o máximo de abundância e diversidade nos habitats criados pelo homem, como zonas urbanas, campos agrícolas, pastagens e matas de árvores exóticas.

Aranha-do-cedro-do-mato (Savigniorrhipis acoreensis), espécie endémica do arquipélago dos Açores que existe em todas as ilhas, com exceção da ilha do Corvo.

Fotografia de Paulo A.V. Borges

Uma das espécies endémicas dos Açores é a aranha-do-cedro-do-mato ou Savigniorrhipis acoreensis. Esta espécie habita nas copas das árvores e parece estar a ser impactada pela presença de espécies exóticas ou por fatores climáticos, como a maior secura no verão.

A conclusão do estudo permite ter uma visão diferente e complementar os vários trabalhos científicos que têm alertado para um declínio global da abundância e diversidade de insetos. Tais estudos têm sido realizados sobretudo no continente europeu e norte-americano, existindo outras regiões pouco estudadas, como é o caso das ilhas.

As ilhas oferecem um património único
Se por um lado, no continente europeu e norte-americano se observa um declínio da abundância de insetos, nomeadamente devido ao uso de pesticidas, as ilhas, por sua vez, possuem um património único de espécies.

É por isso essencial conhecer os fatores promotores de erosão da biodiversidade, para definir estratégias de gestão da conservação dos seus habitats.

Este é, assim, o outro lado da atual extinção. As espécies exóticas de insetos aumentam com o impacto humano, um fenómeno que já era conhecido em ilhas de todo o mundo, embora não claramente quantificado nos Açores.

O estudo resulta da colaboração de investigadores da Universidade dos Açores, como Paulo Borges, do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c e primeiro autor do artigo científico resultante da investigação. Contou também com o contributo da Universidade de Pau, e de Pedro Cardoso, curador do Museu de História Natural da Finlândia.

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