Como os Castores se Tornaram nos Melhores Bombeiros da América do Norte

Estes roedores criam refúgios à prova de fogo para muitas espécies, sugerindo que os gestores de vida selvagem deviam proteger o habitat dos castores enquanto o oeste dos EUA é fustigado pelas chamas.

Friday, September 25, 2020,
Por Ben Goldfarb
Um castor nada pela zona de Schwabacher Landing, no Parque Nacional de Grand Teton.

Um castor nada pela zona de Schwabacher Landing, no Parque Nacional de Grand Teton.

Fotografia de Charlie Hamilton James, Nat Geo Image Collection

O oeste americano está em chamas devido aos incêndios alimentados pelas alterações climáticas e por um século de combate inadequado aos fogos. Na Califórnia, um incêndio florestal carbonizou mais de 1 milhão de hectares; no Oregon, uma crise que só acontece uma vez por geração obrigou meio milhão de pessoas a abandonar as suas casas. E durante este tempo todo, um dos mais valiosos aliados no combate aos incêndios permaneceu na sombra: o castor.

Um novo estudo conclui que, quando constroem barragens, formam lagoas e escavam canais, os castores irrigam vastos braços de riachos e criam refúgios à prova de fogo onde plantas e animais se podem abrigar. Em alguns casos, a engenharia destes roedores consegue até parar o fogo por completo.

“Não importa se há um incêndio ali ao lado”, diz Emily Fairfax, líder do estudo e eco-hidrologista da Universidade Estadual Channel Islands da Califórnia. “As áreas com barragens feitas por castores estão verdes e têm uma aparência saudável.”

Durante décadas, os cientistas reconheceram que o castor-americano, Castor canadensis, fornecia inúmeros benefícios ecológicos ao longo de toda a sua faixa de alcance – desde o norte do México até ao Alasca. Sabe-se que as lagoas e os pântanos feitos por castores filtram a poluição da água, alimentam salmões, aprisionam carbono e mitigam os efeitos das inundações. Os investigadores também suspeitam há muito que estes arquitetos com cauda em forma de remo oferecem outro serviço crucial: retardam a propagação de fogo.

Este pântano com barragens feitas por castores em Baugh Creek, no Idaho, é o que se chama de “refúgio esmeralda”, e pode servir como corta-fogo ou refúgio para outras espécies durante os incêndios florestais.

Fotografia de JOE WHEATON, DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HIDROGRÁFICAS DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE UTAH

“Na verdade, isto não é complicado: a água não arde”, diz Joe Wheaton, geomorfologista da Universidade Estadual de Utah. Por exemplo, em 2018, depois do Incêndio Sharps ter carbonizado 26.300 hectares em Idaho, Joe deparou-se com uma exuberante mancha verde dentro da área queimada – um pântano feito por castores que resistiu às chamas. Mas este fenómeno nunca tinha sido rigorosamente estudado pelos cientistas.

“O estudo de Emily não podia ter vindo em melhor hora”, diz Joe, que não participou na investigação. “Isto salienta a importância das soluções baseadas na natureza e nas infraestruturas naturais, e dá-nos a ciência para ajudar.”

Refúgio de fogo
Inspirados em parte pelas observações de Joe Wheaton, Emily Fairfax e o seu colega Andrew Whittle analisaram os grandes incêndios florestais que aconteceram desde o ano 2000 em cinco estados dos EUA – Califórnia, Colorado, Idaho, Oregon e Wyoming – e perscrutaram as imagens de satélite à procura de barragens e lagoas feitas por castores nas proximidades. (As infraestruturas dos castores são tão impressionantes que chegam a ser visíveis do espaço.)

Depois, com uma medida estatística sobre a saúde das plantas, a equipa calculou a exuberância da vegetação circundante antes, durante e depois dos incêndios. Não é novidade que as plantas saudáveis e bem regadas tendem a aparecer com um tom verde vivo nas fotografias de satélite, ao passo que as plantas secas parecem castanhas em comparação.

Uma planta verde e hidratada também é obviamente menos inflamável do que uma planta seca. E é isso que faz com que os ecossistemas dos castores sejam tão resistentes ao fogo. Nas secções de riachos com barragens feitas por castores, Emily e Andrew descobriram que a vegetação permaneceu cerca de três vezes mais exuberante durante a propagação do fogo pelos riachos. Os castores tinham saturado tanto os seus vales com água que as plantas simplesmente não ardiam.

Estes sistemas não se limitam a proteger os castores: há vários animais – incluindo anfíbios, répteis, pássaros e pequenos mamíferos – que provavelmente se protegem nestes “refúgios de fogo” construídos pelos castores, diz Emily. Embora o fogo seja uma força vital que rejuvenesce o habitat de algumas criaturas, como acontece com alguns pica-paus, também pode devastar outras populações de animais.

O habitat dos castores também protege o gado doméstico e as terras agrícolas, acrescenta Emily, cujo estudo foi publicado este mês na Ecological Applications. “Se alguém viver perto de um pântano feito por castores, as suas vacas podem aproveitar esse refúgio e ter mais hipóteses de sobreviver durante um incêndio florestal do que aconteceria se fossem agrupadas noutro lado.”

Aceitar os castores
Para além de tudo disto, os castores podem ajudar um ecossistema a recuperar de um incêndio florestal. No norte do estado de Washington, Alexa Whipple, diretora do Projeto Methow Beaver, descobriu que os castores ajudam na recuperação de espécies nativas, como salgueiros e álamos.

Como o Castor Ajuda a Moldar a Floresta

Por outro lado, os riachos sem castores têm mais probabilidades de ficar colonizados por plantas invasoras depois de um incêndio. Alexa Whipple também descobriu que os lagos feitos por castores melhoram a qualidade da água porque captam os sedimentos carregados de fósforo que escorrem pelas encostas queimadas.

“Se tivermos uma paisagem húmida, resistimos ao fogo e recuperamos melhor”, diz Alexa, cujos resultados ainda não foram revistos por pares e publicados. “A minha esperança é a de que os incêndios sirvam para as pessoas compreenderem os diversos benefícios oferecidos pelos castores.”

Apesar de todas as coisas boas que os castores oferecem, milhares são mortos todos os anos porque inundam estradas, derrubam árvores e provocam outros danos a propriedades. Empregar políticas mais inteligentes e humanas – com dispositivos não letais de prevenção de inundações, como os “Beaver Deceivers”, por exemplo, e realocar os castores que provocam problemas, em vez de os matar – poderia sarar as relações que temos com os castores e também com os incêndios florestais, diz Emily.

“Aceitar estrategicamente os castores nas bacias hidrográficas pode assegurar que temos plantas e solos húmidos em torno da nossa cidade”, diz Emily. Na verdade, como o título do seu estudo sugere, o Serviço Florestal dos EUA pode querer considerar uma nova mascote para substituir Smokey, o Urso: Smokey, o Castor.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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