Elefantes em Cativeiro Podem Transmitir Tuberculose a Humanos – ‘Uma Questão que Tem Sido Ignorada’

À medida que o coronavírus aumenta a consciência pública sobre a transmissão de doenças entre animais e humanos, alguns especialistas alertam sobre os riscos de tuberculose em elefantes em cativeiro nos EUA.

Wednesday, September 9, 2020,
Por Rachel Fobar
Cerca de três em cada quatro novas doenças infecciosas ou emergentes em pessoas vêm de animais, ...

Cerca de três em cada quatro novas doenças infecciosas ou emergentes em pessoas vêm de animais, de acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA. Alguns especialistas dizem que isto torna a luta contra a disseminação de tuberculose entre os elefantes em cativeiro mais urgente do que nunca.

Fotografia de Steve Terrill / Jaynes Gallery, Alamy

Pouco tempo depois de um elefante fêmea chamado Hattie ter participado num espetáculo do Circo Vargas, no sul da Califórnia, o elefante, que estava muito magro, morreu num atrelado a caminho de uma quinta de animais exóticos em Illinois. A causa de morte, no dia 6 de agosto de 1996, foi tuberculose. Os testes revelaram que outro elefante do mesmo circo também estava infetado.

Em meados da década de 1990, após a morte muito falada de vários elefantes em cativeiro nos Estados Unidos, os veterinários descobriram que os animais tinham a estirpe humana de tuberculose. Desde então, mais de 60 elefantes em cativeiro – alguns dos quais já morreram – acusaram positivo para a doença, diz Susan Mikota, cofundadora da Elephant Care International, uma organização sem fins lucrativos sediada nos Estados Unidos que oferece assistência médica a elefantes. No ano passado, um elefante foi diagnosticado com tuberculose no Zoo Point Defiance, no estado de Washington, e outro no Zoo de Oregon, em Portland. Atualmente, cerca de 5 a 6% dos quase 400 elefantes presentes em zoos, santuários e circos dos EUA estão infetados com tuberculose.

Em 1996, dias depois do seu último espetáculo no circo, Hattie morreu de tuberculose. Após a morte de vários elefantes em cativeiro nos Estados Unidos em meados da década de 1990, os veterinários perceberam que os animais podiam transmitir a estirpe humana de tuberculose.

Fotografia de Alpha Stock / Alamy Stock Photo

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a agência que aplica o cumprimento da Lei do Bem-Estar Animal, não exige testes para a tuberculose.

Cerca de três em cada quatro novas doenças infecciosas ou emergentes em humanos vêm de animais, de acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA. Isto faz com que seja importante impedir a propagação de tuberculose entre os elefantes em cativeiro, diz Fleur Dawes, diretora de comunicação da In Defense of Animals, uma organização de bem-estar animal que já fez campanhas para acabar com a manutenção de elefantes em cativeiro.


Existem várias estirpes de tuberculose – uma infeção bacteriana que se propaga pelo ar e que pode ser transmitida pelos humanos através de tosse ou espirros. Acredita-se que os elefantes infetados transmitem a tuberculose quando borrifam líquido ou ar pelas trombas, embora não existam estudos que o confirmem. Os elefantes podem contrair as estirpes humanas e bovinas. Tanto para humanos como para elefantes, os tratamentos exigem um regime de medicação de vários meses.

Tal como os elefantes podem contrair a doença através dos humanos, também a podem transmitir de volta. Na verdade, 11 dos 22 tratadores de elefantes na quinta de animais exóticos de Illinois, para onde Hattie estava a ser transportada, tiveram reações positivas a um teste cutâneo de tuberculose em 1996 – os primeiros casos conhecidos de transmissão de tuberculose de elefantes para humanos nos EUA.

Adam Langer, chefe da filial de monitorização, epidemiologia e investigações de surtos do CDC, diz que a bactéria da tuberculose pode permanecer no ar durante várias horas, dependendo do ambiente. O risco de exposição depende de fatores como a concentração de bactérias no ar, tempo de exposição de uma pessoa, o tamanho de uma sala e o sistema de ventilação. Embora o contacto prolongado tenha maiores probabilidades de provocar uma infeção, “é possível ficar infetado após uma curta exposição”, diz Adam.

Como os elefantes são enormes e “têm pulmões particularmente grandes... podem expelir um número relativamente grande de bactérias para o ar que os rodeia”, diz Adam. “Portanto, partilhar o ar com um elefante que tenha tuberculose pode representar um risco maior de infeção do que partilhar o ar com uma pessoa infetada. As pessoas em maior risco são as que passam uma quantidade considerável de tempo num ambiente fechado com um elefante que tenha tuberculose infecciosa.” Os especialistas dizem que o perigo de transmissão para os visitantes de zoos e circos é baixo.

Apesar de a COVID-19 ser uma preocupação atual, em 2018 morreram de tuberculose 1.5 milhões de pessoas no mundo inteiro, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Isto faz com que a tuberculose seja a principal causa infecciosa de morte. (No dia 3 de setembro, havia quase 860 mil mortes confirmadas em todo o mundo devido à COVID-19.)

O risco de transmissão de tuberculose foi “ignorado durante muito tempo”, diz Fleur Dawes. “Infelizmente, penso que é necessário algo como esta pandemia para colocar realmente os potenciais riscos no centro das atenções.”

O elefante Packy, no Zoo de Oregon, em Portland, toma o seu banho matinal. Packy foi eutanasiado em fevereiro de 2017, depois de desenvolver uma estirpe de tuberculose resistente a medicamentos.

Fotografia de Randy L. Rasmussen, AP Photo

Mais de duas décadas depois dos primeiros casos de elefantes que infetaram pessoas com tuberculose, este tipo de transmissão ainda está a acontecer. No ano passado, no Zoo Point Defiance, no estado de Washington, oito funcionários testaram positivo para uma forma latente ou inativa de tuberculose. Os tratadores provavelmente contraíram a doença a partir de dois elefantes fêmea do zoo, Hanako e Suki, que testaram positivo dois meses depois. Hanako (que também tinha cancro na pata esquerda da frente e uma doença nas articulações em estado avançado) foi eutanasiada em fevereiro. Suki, já com 55 anos, ainda está viva, mas o zoo anunciou em novembro que não seria tratada porque o medicamento podia enfraquecer o seu sistema imunitário.

Inexistência de testes fiáveis de tuberculose para elefantes
Tal como os testes para a COVID-19 em humanos estão repletos de dificuldades, testar animais tão grandes como elefantes para a tuberculose também é um desafio. As opiniões dividem-se sobre os melhores métodos a aplicar.

Determinar se os humanos têm tuberculose envolve exames sanguíneos e radiografias ao tórax, mas é impossível fazer uma radiografia aos pulmões de um elefante que pode pesar mais de 4500 quilos. “Não temos raios-x com capacidade suficiente para fotografar os seus pulmões”, diz Michele Miller, chefe de investigação em tuberculose animal na Universidade Stellenbosch, na África do Sul.

Como a tuberculose pode passar despercebida nos elefantes (e nas pessoas), é possível que animais aparentemente saudáveis estejam infetados sem que alguém dê por isso, diz Michele.

Para testar elefantes, os veterinários têm duas opções: Um exame sanguíneo que revela anticorpos para a tuberculose, mas que não confirma necessariamente a presença da doença ativa – em vez disso, pode sinalizar que um elefante teve a infeção no passado, ou que tem tuberculose em estado latente. O outro método envolve um teste de lavagem da tromba, que isola o organismo que provoca a doença e requer a injeção de uma solução salina na tromba do elefante seguida da recolha e análise do líquido exalado para se verificar a presença da bactéria de tuberculose.

Nenhum dos testes é perfeito, e ambos podem produzir resultados de falso positivo ou negativo.

Quando um elefante está infetado, os riscos são elevados. Os veterinários fazem o Juramento de Hipócrates e juram proteger a saúde humana e animal, portanto, a eutanásia pode ser recomendada como um último recurso devido ao risco que um elefante infetado pode representar para os seus tratadores humanos, diz Kay Backues, diretora de saúde animal do Zoo de Tulsa, em Oklahoma.

Tratar a tuberculose num elefante não só é dispendioso – até 60 mil dólares – como também pode provocar efeitos colaterais graves, como danos no fígado e a perda de apetite. Para além disso, se o teste for um falso positivo, diz Michele Miller, “estamos a colocar um animal sob um tratamento que não precisa”.

Dois testes são melhores do que um
Em 2013, no Zoo de Oregon, em Portland, uma amostra de rotina da lavagem da tromba de um elefante-asiático de 29 anos, chamado Rama, acusou positivo para a tuberculose, embora o elefante não tivesse mostrado quaisquer sinais de doença.

Os elefantes em cativeiro fazem regularmente análises ao sangue e, quando uma amostra preservada de maio de 2012 do sangue de Rama foi analisada, foram encontrados anticorpos de tuberculose – cerca de um ano antes do seu teste de lavagem positivo. Dois outros elefantes do mesmo zoo – o pai de Rama, Packy, e o seu irmão, Tusko – também tinham anticorpos no sangue. Descobriu-se que Tusko já podia ter anticorpos em 2005.

Packy foi mais tarde eutanasiado porque tinha desenvolvido uma estirpe de tuberculose resistente a medicamentos (assim como Rama e Tusko, mas por razões não relacionadas com tuberculose). Em maio de 2017, quatro anos depois do diagnóstico inicial de Rama, uma amostra da lavagem da tromba de um elefante fêmea chamado Shine acusou positivo para a tuberculose. O zoo anunciou que o elefante iria receber tratamento. Em setembro de 2019, o zoo informou que iria começar a tratar outro elefante fêmea infetado, Chendra, pouco depois de o animal ter sofrido um aborto espontâneo. (O zoo salientou que a tuberculose e o aborto não estavam relacionados.) Nenhum destes elefantes apresentava sinais de doença.

Sete funcionários do Zoo de Oregon e um voluntário também testaram positivo para uma infeção latente de tuberculose. Os funcionários, que receberam tratamento, tinham estado semanalmente no recinto dos elefantes, ou a menos de cinco metros dos animais, pelo menos durante o ano anterior; porém, o voluntário passou apenas uma hora no recinto dos elefantes ao longo do ano. (Quando as notícias sobre o surto foram divulgadas, o voluntário já tinha recebido tratamento.)

Susan Mikota pergunta: “Se o zoo se tivesse baseado mais fortemente nos testes sanguíneos dos elefantes, será que aqueles casos teriam sido diagnosticados antes?”

Kelly Flaminio, veterinária do Zoo de Oregon, diz que esse podia ser o caso, “se os testes de triagem que estavam disponíveis em 2012 e 2013 fossem tão eficazes quanto os que temos agora”. A deteção precoce da tuberculose em elefantes está a melhorar, diz Kelly, “mas ainda é incrivelmente difícil fazer um diagnóstico definitivo”.

Testar – uma questão de escolha
O que aconteceu no Zoo de Oregon mostra por que razão faz sentido usar os dois testes disponíveis, diz Michele Miller, coautora de um estudo sobre o caso de 2013 do Zoo de Oregon. “Quando vamos ao médico e não nos sentimos bem, eles fazem-nos uma bateria de testes”, diz Michele. “As informações que recebemos de um variado painel de testes oferecem-nos uma visão mais completa sobre a saúde de uma pessoa ou animal do que apenas um teste.”

Mas os testes de tuberculose para elefantes em cativeiro nos EUA não são obrigatórios desde 2015, ano em que o USDA retirou a sua política que exigia testes de tuberculose nos cuidados veterinários padrão para elefantes.

Desde então, são as instalações individuais e os veterinários que decidem quais são os testes que devem ser feitos. As autoridades de saúde estaduais regulam os movimentos dos elefantes entre os estados e, quando se trata de testes de tuberculose, cada estado aplica requisitos diferentes.

Adam Langer, do CDC, não quis comentar a decisão do USDA de 2015, acrescentando que os regulamentos estaduais e federais “exigem que as instalações que abrigam animais (incluindo elefantes) tomem as medidas adequadas para salvaguardar os funcionários e o público de quaisquer potenciais riscos para a saúde ou segurança apresentados pelos animais aos seus cuidados.” Estes requisitos incluem a tuberculose, diz Adam.

De acordo com Andre Bell, porta-voz do USDA, a agência revogou a exigência de testes depois de a Associação de Saúde Animal dos EUA, um fórum nacional de saúde animal sem fins lucrativos do qual o USDA é membro, “não ter conseguido chegar a acordo sobre uma versão atualizada” das diretrizes de teste da tuberculose que o USDA estava a usar. Embora muitas instalações ainda se guiem pelas diretrizes antigas, “elas simplesmente não são obrigadas a fazer isso ou a informar sobre os resultados”, diz Andre. Quando se descobre que um elefante tem a doença, o USDA recomenda que esse animal não “viaje ou tenha contacto com o público” até que o tratamento esteja concluído.

Quais são os riscos para o público?
Ninguém consegue explicar como é que aquele voluntário do Zoo de Oregon foi infetado, diz Kay Backues, do Zoo de Tulsa, já que a tuberculose “é transmitida pelo contacto prolongado de proximidade com aerossóis”. Com base no que se sabe sobre a tuberculose em humanos, observar um elefante a seis metros de distância apresenta um risco extremamente baixo, diz Kay – assim como estar perto, ou até mesmo a cavalgar um elefante durante pouco tempo. “Sentamo-nos no elefante, damos uma pequena volta e regressamos – e num recinto grande, ou num centro de exposições de grandes dimensões, não considero isso uma exposição à tuberculose de elefante. Não é o mesmo que estar à frente de um elefante enquanto ele respira para cima de nós.” (A maioria das instalações nos EUA já não tem passeios de elefante, mas alguns circos e zoos não credenciados continuam a apresentar este tipo de interação.)

Até agora, não existem casos documentados de transmissão de tuberculose de um elefante de circo, zoo ou santuário aos clientes.

Mas um incidente no Zoo de Taronga, em Sydney, na Austrália, serve de alerta sobre como a tuberculose se pode propagar de forma fácil e misteriosa, diz Susan Mikota. Em 2011, um chimpanzé deste zoo foi diagnosticado com tuberculose, menos de um ano depois de um teste de lavagem de tromba ter revelado que um elefante estava a propagar tuberculose. O recinto dos chimpanzés estava a cerca de 100 metros do recinto dos elefantes. “Isto é muito mais longe do que alguns elefantes estão do público”, diz Susan.

“Visitar o zoo ou o circo não apresenta risco de tuberculose”, insiste Kay Backues.

Susan reconhece que ainda não há casos conhecidos de transmissão de tuberculose de elefantes em cativeiro ao público. Mas como este tipo de transmissão ainda não é bem compreendido ou estudado, Susan acredita que essa possibilidade é uma preocupação séria. Ela diz que só foi feito um pequeno estudo sobre a transmissão no Zoo de Oregon – “que não oferece evidências suficientes para se dizer que a transmissão de tuberculose de elefantes para humanos é apenas uma preocupação de saúde ocupacional, ao contrário de uma preocupação de saúde pública.”

“A ausência de evidência não é evidência de ausência... [Os elefantes] podem soprar pela tromba – e o vento faz o resto.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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