Fotografias Raras Mostram Chitas Africanas Numa Tempestade de Neve

As imagens, captadas recentemente na Reserva Natural Rogge Cloof da África do Sul, mostram que estes animais se adaptam muito mais do que pensávamos.

Friday, September 18, 2020,
Por Christine Dell'Amore
Fotografias Por Kirsten Frost
Uma chita macho, recentemente libertada na Reserva Natural Rogge Cloof, examina a paisagem. Os felinos libertados ...

Uma chita macho, recentemente libertada na Reserva Natural Rogge Cloof, examina a paisagem. Os felinos libertados na reserva são primeiro colocados numa “boma”, ou recinto cercado, para se habituarem ao seu novo ambiente.

Durante dois dias, Kirsten Frost rastreou uma chita fêmea através de um dispositivo de localização via rádio pelas colinas rochosas da Reserva Natural Rogge Cloof, o lugar mais frio da África do Sul, enquanto uma tempestade de neve se estava a intensificar.

Semicerrando os olhos devido aos flocos que caíam, Kirsten vislumbrou a cabeça da chita, com o resto do seu corpo esbatido na paisagem tingida de branco.

“Parecia surreal: estava realmente a ver uma chita no meio da neve na ponta sul de África?”, diz Kirsten Frost, fotógrafo de vida selvagem baseado na Cidade do Cabo, que falou por email com a National Geographic. “Percebi que este era um momento que poucos tinham presenciado e um momento na natureza que nunca esquecerei.”

Mona, a fêmea mais velha da reserva, sente-se muito confortável perto de pessoas.

As fotografias foram captadas em agosto e mostram dois machos e uma fêmea, que foi apelidada de Mona pelos conservacionistas, e são provavelmente o segundo registo conhecido de chitas africanas na neve, diz Vincent van der Merwe, que gere a reintrodução de chitas para a Endangered Wildlife Trust, organização sem fins lucrativos sediada na África do Sul. A equipa de Vincent captou o que ele acredita ser a primeira fotografia de uma chita na neve em 2014, na Reserva de Caça de Mount Camdeboo, na Província do Cabo Oriental, na África do Sul.

Ambos os casos mostram chitas reintroduzidas em reservas privadas de caça, em zonas da sua área nativa de distribuição. Estas reintroduções são fundamentais para a estratégia de conservação que visa proteger uma espécie em declínio, ao mesmo tempo que dá aos turistas a oportunidade de ver estes animais. As chitas, com cerca de 7 mil indivíduos restantes na natureza, são consideradas vulneráveis à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza.

“Temos o hábito de classificar estes animais por categorias”, presumindo que as chitas são exclusivas das savanas de África Oriental, diz Vincent, cujos esforços de realocação são financiados em parte pela National Geographic Society. Segundo Vincent, as novas fotografias mostram que “estes animais são muito mais adaptáveis do que pensávamos”.

Na verdade, antes de os colonos destruírem 95% da população de chitas na década de 1960, os felinos percorriam grande parte do continente, desde cadeias montanhosas de 3 mil metros de altura até às florestas costeiras e desertos (como Kalahari), onde as temperaturas caem abaixo de zero durante a noite.

Nas últimas décadas, conservacionistas como Vincent Van der Merwe – que se autodenomina de “casamenteiro de chitas” – realocaram cerca de 60 felinos em várias reservas. Em 2018, colocaram dois machos e duas fêmeas em Rogge Cloof, uma reserva com mais de 180 quilómetros quadrados na Província do Cabo Setentrional. (Veja mais fotografias de chitas na neve.)

A África do Sul é um dos únicos países onde o número de chitas está a aumentar. Em 2017, Vincent van der Merwe e a sua equipa realocaram chitas da África do Sul para o Malawi – uma nação que fica a cerca de 1.400 milhas aéreas da África do Sul – onde estes felinos se extinguiram na década de 1980.

“O nosso objetivo é usar o excedente de chitas para serem reintroduzidas noutras partes de África”, diz Vincent.

“Nunca vi uma coisa assim”
A reserva de Rogge Cloof foi criada em 2017 a partir de uma quinta familiar de ovelhas. Vincent diz que a reserva tem tamanho suficiente para sustentar cinco chitas adultas e respetivas crias, e tem uma vasta abundância de gazelas, uma das presas favoritas das chitas.

Ainda assim, Vincent estava inicialmente preocupado porque não sabia se as chitas iriam conseguir suportar as temperaturas da região, que podem cair até aos 15 graus negativos. “As consequências de uma chita poder congelar... os meios de comunicação social comiam-nos ao pequeno-almoço”, diz Vincent.

Assim sendo, Vincent fez os trabalhos de casa, desenterrou antigos registos coloniais britânicos e confirmou que já tinham sido abatidas chitas por caçadores nesta região da África do Sul. “Isto significava que Rogge Cloof já tinha integrado o alcance nativo das chitas e sugeria que os animais da atualidade poderiam ter uma capacidade inata para lidar com a neve.”

Até agora, a aposta de Vincent valeu a pena: as quatro chitas sobreviveram todas, e uma fêmea deu à luz três crias em julho – no meio do inverno no hemisfério sul. (Leia mais sobre as ameaças de sobrevivência enfrentadas pelas chitas.)

Luke Hunter, diretor executivo do Programa Big Cats da Wildlife Conservation Society, diz que as fotografias de Kirsten Frost “são lindas – nunca vi uma coisa assim”.

Luke concorda que as chitas já viveram em Rogge Cloof, embora também diga que não era um habitat “fantástico” devido ao ambiente frio e árido.

“A região é semelhante em clima e topografia ao planalto central iraniano, que agora é o lar de cerca de 50 chitas asiáticas, as últimas desta espécie na natureza. Esta subespécie, que outrora era muito difundida, abrangia toda a Ásia Central, o Extremo Oriente e até a Índia.”

“Os animais no Irão, que lidam regularmente com neve, ficam com uma pelagem mais espessa no inverno, assim como as chitas africanas nos zoos do hemisfério norte”, diz Luke. Isto sugere que existe “alguma capacidade evolutiva inerente” para as chitas lidarem com a neve, como acredita Vincent van der Merwe.

Portanto, “apesar de ser impressionante e maravilhoso ver chitas fotografadas na neve, não é assim tão inesperado”, diz Luke Hunter.

Luke também alerta que as chitas provavelmente não lidam bem com neve muito profunda, sobretudo porque as crias têm problemas na regulação da sua temperatura corporal. Alguns centímetros de profundidade aqui e ali, como acontece em Rogge Cloof, é provavelmente tudo o que conseguem suportar, diz Luke.

Felinos do gelo
Para os que queiram ver este espetáculo pessoalmente, é possível visitar Rogge Cloof. Tal como acontece com a maioria das reservas naturais de África, também esta reserva tem enfrentado dificuldades devido ao impacto da pandemia no turismo, diz Vincent.

Como Rogge Cloof é uma das poucas reservas naturais sem predadores que representem uma ameaça para os humanos, como leões ou leopardos, os turistas podem ver as chitas enquanto caminham a pé – mas com uma distância considerável para não perturbar os animais.

Mona, a fêmea mais velha da reserva e estrela das fotografias de Kirsten Frost, sente-se particularmente tranquila perto de pessoas. “Ela simplesmente não quer saber dos humanos”, diz Vincent a rir.

Em relação ao fotógrafo, Kirsten está agora viciado no que chama “felinos do gelo de África” e quer regressar para filmar um documentário de vida selvagem.

“O facto de as chitas conseguirem suportar a neve do inverno é uma coisa pouco documentada”, diz Kirsten, “mostra que a natureza guarda muitos segredos”.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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