Lobos que na Antiguidade Brincavam com Humanos Podem Ter Evoluído Para os Cães Amigáveis de Hoje

Há dezenas de milhares de anos, os nossos antepassados procuravam caninos selvagens que tinham uma veia brincalhona – um traço que sobrevive nos cães da atualidade, sobretudo em raças de caça e pastoreio.

Tuesday, September 29, 2020,
Por Virginia Morell
Um perdigueiro húngaro no Parque Florestal Queen Elizabeth, na Escócia. Historicamente, esta raça acompanhava caçadores, encontrava ...

Um perdigueiro húngaro no Parque Florestal Queen Elizabeth, na Escócia. Historicamente, esta raça acompanhava caçadores, encontrava e recuperava presas.

Fotografia de Tony Clerkson, Alamy

A maioria dos cães gosta de brincar, seja a perseguir uma bola, seja numa espécie de jogo da corda ou a rasgar um brinquedo estridente em pedaços. Para os humanos, brincar com um cão é geralmente animador; e a ciência mostra que os donos de cães riem com mais frequência do que os donos de gatos.

Portanto, não é de surpreender que a disposição que os cães têm para brincar possa ter sido um fator-chave na sua domesticação, e possa ter influenciado os nossos esforços subsequentes para criar caninos para funções específicas, de acordo com um novo estudo publicado na revista Biology Letters.

Enquanto os investigadores continuam a debater quando, onde e como é que os cães foram domesticados pela primeira vez, a maioria concorda que um antepassado ligado aos lobos pode ter iniciado o primeiro contacto com os humanos.

Esta espécie de lobo ainda por identificar provavelmente começou a espalhar-se pelas povoações humanas na Alemanha ou na Sibéria há cerca de 20 mil e 40 mil anos, onde os animais comiam restos descartados por humanos. Os indivíduos menos receosos de uma alcateia podem ter perdido os seus comportamentos de lobo, como o nervosismo e a timidez, e evoluíram com o passar do tempo para os cães domésticos amigáveis, felizes e leais que aquecem os nossos lares e corações.

No novo estudo, os cientistas investigam se os lobos mais curiosos e brincalhões transportaram essas características para as novas espécies de cães domésticos, e se as pessoas criaram intencionalmente cães com essas características. Por exemplo, as investigações anteriores descobriram que algumas crias de lobo sabem intrinsecamente brincar com uma bola e pessoas.

“A disposição que os cães têm para brincar connosco provavelmente foi importante para nós durante a sua domesticação”, diz Niclas Kolm, líder do estudo e biólogo evolucionário da Universidade de Estocolmo, na Suécia. (Descubra como os cães são mais parecidos connosco do que imaginávamos.)

De facto, depois de analisar as relações evolutivas entre raças de cães da atualidade, a equipa descobriu que o seu antepassado mais comum, um animal semelhante ao basenji moderno (um cão de caça africano), pode ter brincado com humanos – embora com algum incentivo.

Niclas diz que também descobriram que os cães pastores, como os perdigueiros húngaros e os cães pastores australianos, “eram de longe os mais brincalhões”, envolvendo-se de forma rápida e ativa nas brincadeiras.

“Faz sentido em termos práticos: se um cão estiver interessado em brincar connosco, também é muito mais fácil de treinar”, diz Niclas, acrescentando que os cães pastores precisam de estabelecer laços fortes com os seus donos para serem eficazes, e que brincar frequentemente pode fortalecer essas ligações.

Jovens personalidades caninas
Os jovens mamíferos envolvem-se quase todos em brincadeiras, normalmente com outros animais da mesma espécie. Isto ajuda o desenvolvimento físico, social e cognitivo e serve para praticar aptidões, como caçar, que são vitais na idade adulta.

Os basenji (na fotografia vemos um basenji na Pensilvânia em 1959) não ladram, em vez disso, fazem um som que parece uma gargalhada.

Fotografia de Nina Leen, The LIFE Picture Collection, Getty Images

Depois de crescerem, os animais raramente brincam, porque precisam de se concentrar em encontrar território, comida e parceiro. E não costumam brincar com animais fora da sua espécie.

Mas os cães parecem trazer à tona a natureza jovial de muitas espécies, sejam humanos, tartarugas ou galinhas – interações que estão bem documentadas no YouTube. Os cães e os cavalos, que foram domesticados lado a lado em quintas durante séculos, também brincam juntos e partilham comportamentos semelhantes.

Para aprofundar mais o conhecimento sobre as raízes dos cães brincalhões, Niclas Kolm e os seus colegas investigaram a evolução do comportamento influenciado por humanos em 132 raças modernas do Kennel Club Americano. Estas raças são agrupadas pelas suas diversas funções, como pastoreio, caça, guarda, companhia, trabalho (puxar trenós) e desporto. Os investigadores inseriram os dados genéticos das diferentes raças num modelo evolutivo que previu qual era a raça com mais características lúdicas.

A equipa adicionou os dados recolhidos pelo Kennel Club Sueco entre 1997 e 2013 e analisou as personalidades e o comportamento lúdico de mais de 89 mil cães destas 132 raças. Os investigadores do Kennel Club Sueco avaliaram a disposição de um cão para brincar ao jogo da corda com uma pessoa desconhecida: os cães que participaram de forma imediata e ativa neste jogo foram classificados como muito brincalhões.

Embora os resultados revelem que as raças de pastoreio e desportivas tenham mais propensão para brincar, as mais pequenas, como os pug e os spaniel anão continental, não têm muita disposição para a brincadeira. “Estes cães são projetados para serem pequenos e para serem transportados de um lado para o outro”, diz Niclas. “Brincar connosco não é importante para eles.”

Niclas ficou mais surpreendido quando descobriu que as raças terrier, como a Staffordshire – originalmente criadas para desenvolver cães de luta – são muito brincalhonas, talvez porque foram criadas para responder às instruções humanas, incluindo os incentivos para brincar, especula Niclas.

Cão velho, truques velhos
Porém, o mais intrigante é que a raça basenji, o cão de caça africano, também é brincalhona, embora não muito. Esta é provavelmente a raça domesticada mais antiga, datando de pelo menos o século XVIII. Mas os investigadores acreditam que cães semelhantes aos basenji já existem desde pelo menos o ano 6000 a.C., com base nas pinturas rupestres encontradas na Líbia que retratam estes caninos a caçar.

É impossível saber se os basenji da atualidade se comportam da mesma forma que os cães da antiguidade. Mas a combinação entre a história antiga da raça e a sua propensão para a brincadeira fortalece a descoberta do estudo – a de que as pessoas criaram em parte os cães pela sua disponibilidade para a brincadeira. (Descubra por que razão os olhos dos cães evoluíram.)

“É um bom avanço no estudo da brincadeira”, diz Gordon Burghardt, etologista comparativo e especialista em brincadeiras de animais da Universidade do Tennessee, em Knoxville.

Marc Bekoff, professor emérito de ecologia e biologia evolutiva da Universidade do Colorado, em Boulder, diz que a equipa sueca está “provavelmente correta ao sugerir que a brincadeira com humanos foi importante na domesticação inicial dos cães”.

“Os humanos podem ter selecionado esta característica em particular, criando cães que eram mais ou menos brincalhões”, disse por email Marc Bekoff, que não participou na investigação.

Um mistério que este trabalho não esclarece são os lobos que deram origem a estes divertidos companheiros da atualidade, deixando para um futuro tópico de estudo as origens dos nossos melhores amigos.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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