Não Sabemos Realmente Quantos Leões Vivem em África. Porquê?

Contar leões é surpreendentemente complicado, mas um novo método promete mais precisão e detalhe, dizem os cientistas.

Friday, September 11, 2020,
Por Douglas Main
Fotografias Por Alexander Braczkowski
Uma leoa repousa em cima de uma árvore no Parque Nacional Queen Elizabeth, no Uganda. Com ...

Uma leoa repousa em cima de uma árvore no Parque Nacional Queen Elizabeth, no Uganda. Com o número de leões a diminuir rapidamente, os investigadores dizem que é crucial ter estimativas populacionais precisas para ajudar a orientar os esforços de conservação.

Os leões estão a passar por um declínio chocante; isso já se sabe. Nos últimos 120 anos, estes animais desapareceram de mais de 90% da sua faixa de alcance histórica em África. E nos últimos 25 anos, a sua população diminuiu para cerca de metade.

Mas quantos leões restam atualmente em África? A resposta é surpreendentemente confusa. A estimativa mais citada ronda os 20 mil indivíduos, mas muitos investigadores de leões não se sentem completamente confortáveis com este número.

“Estes valores baseiam-se principalmente em suposições, e não na ciência”, diz Nic Elliot, investigador de leões da Universidade de Oxford. “Não sabemos quantos leões restam em África.”

Investigadores e guardas florestais colocam um novo rastreador por satélite num leão no Parque Nacional Queen Elizabeth. Estes dispositivos fornecem dados sobre a localização dos leões, podendo ajudar a evitar conflitos com os agricultores; estas informações também ajudam nas investigações sobre a monitorização populacional.

Esquerda: Uma cria de leão descansa numa árvore eufórbia no Parque Nacional Queen Elizabeth. Desde 2017, usando um método relativamente novo para contar leões chamado captura-recaptura espacialmente explícita (SECR), os investigadores estimaram que a população nesta área era de 71 indivíduos – inferior às estimativas anteriores.
Direita: Uma leoa avalia potenciais presas. Com os detalhes fornecidos pelo SECR, os investigadores sabem agora que tanto os leões como as leoas do parque precisam de viajar distâncias maiores para encontrar comida, já que a sua base de alimentação se está a esgotar.

Os leões são difíceis de contar porque têm densidades populacionais baixas, são mais ativos durante e noite, misturam-se com o ambiente e por vezes escondem-se dos humanos, sobretudo em zonas onde a caça furtiva é comum.

Mas um levantamento populacional feito com precisão é fundamental. Uma conservação eficaz requer estimativas populacionais confiáveis ao longo do tempo, porque estes números dão uma noção da extensão, urgência e localizações geográficas do declínio de uma espécie – e o que pode estar a provocar esse declínio.


Precisamos de saber que existe um problema, e qual é esse problema, antes de o conseguirmos resolver, diz Alexander Braczkowski, investigador do Laboratório de Conservação Resiliente da Universidade Griffith em Queensland, na Austrália.

Há uma técnica relativamente nova que pode identificar melhor os sinais de alerta e estimar as populações de leões com mais precisão, dizem Nic Elliot, Alexander Braczkowski e outros cientistas num novo artigo de opinião publicado na Frontiers in Ecology and Evolution. Com o nome captura-recaptura espacialmente explícita (SECR), esta técnica já é usada para contar outras espécies de felinos. Este método usa observações de campo para gerar um retrato detalhado do tamanho estimado de uma população, densidade e padrões de movimento, diz Alexander. Para além disso, também pode permitir que os cientistas rastreiem as trajetórias das populações de leões com um nível de detalhe que muitas vezes não é possível com os métodos mais antigos.

Porém, esta abordagem ainda não é muito usada pelos investigadores de leões. De acordo com os investigadores que criticam o SECR, este método consome mais tempo e só funciona com populações de leões que podem ser fotografadas.

Mas não usar o SECR é uma “oportunidade perdida”, argumentam Alexander, Nic e colegas no artigo. Os métodos mais tradicionais “podem muitas vezes produzir tendências incorretas na dinâmica da população de leões, e isso pode... ludibriar os investimentos de conservação”.

Pistas sonoras e pistas de pegadas
Nas décadas de 1970 e 1980, os investigadores atraíam muitas vezes os leões com isco antes de os adormecerem com tranquilizantes, para os marcarem com um ferro quente, indicando assim que tinham sido contados e permitindo o seu rastreio.

“Esta técnica ainda é uma das melhores para sondar uma área relativamente finita, mas nos dias de hoje, não é bem vista”, diz Paul Funston, que lidera a investigação de leões na Panthera, uma organização global de conservação de felinos selvagens.

Atualmente, é mais comum usarem sondagens de “chamada” e contagens de pegadas. A primeira envolve conduzir até ao mato e emitir gritos de socorro de uma espécie de presa, como um búfalo-do-cabo, através de uma coluna de som – depois, observam-se quantos leões aparecem. A segunda consiste na contagem das pegadas de leões ao longo de um conjunto de trajetos.

Ambas as técnicas são pouco dispendiosas e podem ser usadas numa área ampla, mas são “muito imprecisas”, diz Andrew Loveridge, especialista em leões da Unidade de Pesquisa e Conservação de Vida Selvagem de Oxford.

“Ambos os métodos apresentam falhas metodológicas graves e estatisticamente são muito inconsistentes”, diz Nic Elliot. “Os leões podem ser contados a dobrar e é preciso fazer suposições – qual é a distância que o som viaja e quais são as probabilidades de os leões responderem, ou suposições sobre como é que os leões se movem no seu ambiente.”

Mas Frans Radloff, ecologista da Universidade de Tecnologia da Península do Cabo, na África do Sul, defende estas técnicas em determinadas circunstâncias – tal como Paul Funston. Quando feitas corretamente, como por exemplo em áreas onde se sabe que há pegadas de leões, podem fornecer estimativas razoáveis sobre a abundância de leões, diz Frans.

Reconhecimento individual
Nic Elliot e Alexander Braczkowski argumentam que o SECR é melhor porque, para além de ter mais precisão, está menos sujeito a contagens superiores ou inferiores e também permite que os cientistas construam uma imagem fluida e evolutiva de uma população.

No entanto, para funcionar bem, os cientistas precisam de uma forma de reconhecer os animais individualmente, diz Alexander Braczkowski, que também é explorador da National Geographic. Com os tigres, por exemplo, cada animal tem um padrão de listas exclusivo, permitindo aos investigadores distingui-los mais facilmente. Com os leões, os investigadores fotografam indivíduos – seja a partir de um veículo ou recorrendo a armadilhas fotográficas – e estudam os seus focinhos para procurarem marcas distintas.

Um jovem leão, que estava a comer um antílope, acionou a câmara de uma armadilha fotográfica. Com a recolha de fotografias de alta resolução dos focinhos dos leões – cada focinho tem marcas únicas – os investigadores podem construir um banco de dados que lhes permite identificar leões individuais, algo que é crucial para um bom funcionamento do SECR.

Crias com seis meses de idade relaxam numa árvore. Embora os cientistas discordem sobre os melhores métodos para contar leões, todos concordam numa coisa – os leões estão em declínio, e não nos podemos dar ao luxo de complacência.

Quando os investigadores reúnem um catálogo enorme de imagens identificadas por GPS, a técnica de modelagem SECR usa estas informações para estimar matematicamente a densidade populacional, população total e outros parâmetros.

O método SECR já foi usado para contar leões com sucesso várias vezes. Por exemplo, em 2017 e 2018, Alexander juntou-se a Musta Nsubuga, biólogo da Wildlife Conservation Society, e a outros investigadores para estimar o número de leões na Área de Conservação Queen Elizabeth do Uganda. Durante três meses, conduziram ao longo de quase 8 mil quilómetros na região, tirando fotografias dos focinhos dos leões.

Com um registo científico da localização de cada indivíduo num determinado momento, o SECR permitiu que determinassem a população geral – 71 indivíduos. Esta investigação, publicada na Ecological Solutions and Evidence, também fornece novas informações sobre a faixa de alcance dos leões. Os machos, por exemplo, vagueiam agora por uma área cinco vezes maior do que aquela que percorriam na década anterior, provavelmente porque precisam de viajar distâncias maiores para encontrar comida. Aparentemente, o número de presas diminuiu devido ao aumento da caça de carne selvagem na área, diz Alexander. “Esta perceção provavelmente não teria sido possível com as técnicas mais antigas.”

Alguns investigadores dizem que as técnicas tradicionais ainda têm utilidade quando são aplicadas corretamente, e que as técnicas mais recentes não são apropriadas para todos os lugares. De facto, o SECR é mais fácil de aplicar quando os animais podem ser abordados individualmente com câmaras, ou fotografados com armadilhas fotográficas.

“Não há uma solução que resolva tudo. Os leões não podem ser contados de uma só forma por toda a África, pois cada região é única”, diz Frans Radloff. “A única maneira de obter uma estimativa do número restante de leões em África é abraçar todas as técnicas [cientificamente válidas].”

Em relação à população total de leões, os investigadores concordam que uma contagem de leões perfeitamente exata é menos importante do que saber se o número de leões está a aumentar ou a diminuir. E ninguém acha que os números estão a subir no geral. “Relativamente à sua pergunta sobre quantos leões ainda restam em África – posso simplesmente concluir que não existem os suficientes”, diz Frans.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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