Nova Espécie de Morcego Descoberta no Gerês

Investigadores da Universidade do Porto encontraram uma nova espécie de morcego no Gerês. O morcego-de-bigodes de Alcathoe já tinha sido detetado na Grécia e na Hungria.

Friday, September 4, 2020,
Por National Geographic
O espécime de Myotis alcathoe capturado no Parque Nacional da Peneda-Gerês.

O espécime de Myotis alcathoe capturado no Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Fotografia de Hugo Rebelo

Myotis alcathoe é o nome da nova espécie de morcego detetada no Parque Nacional da Peneda-Gerês, contribuindo para o aumento da lista das espécies de morcegos conhecidas em Portugal.

Por trás da descoberta encontram-se investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO), da Universidade do Porto, que recorreram à aplicação de uma técnica inovadora de alta análise genética.

A nova espécie de morcego já tinha sido identificada em 2001, na Grécia e na Hungria. Agora confirma-se a sua presença em Portugal, que poderá estar distribuída por toda a região Norte.


Código de Barras de ADN deixa a descoberto a nova espécie de morcego
Myotis alcathoe, ou morcego-de-bigodes de Alcathoe, foi identificado com recurso a uma técnica inovadora de análise genética, conhecida por Código de Barras de ADN, aplicada a amostras de 25 espécies de morcegos.

As espécies foram recolhidas entre os anos de 2005 e 2018, revelando que, afinal, a coleção de dados escondia uma nova espécie de morcego, anteriormente identificada como morcego-de-bigodes (Myotis mystacinus), devido às suas grandes semelhanças, do ponto de vista morfológico.

Trata-se de uma espécie críptica, de difícil identificação morfológica, e que passou despercebida aos investigadores durante muito tempo. Apesar de ter sido descoberta em vários países, em Portugal continuavam a não existir registos da espécie.

IBI: InBIO Barcoding Initiative
Liderado por Vanessa Mata e Hugo Rebelo, especialistas em quirópteros, no âmbito dos projetos EnvMetaGen e PORBIOTA, a iniciativa IBI: InBIO Barcoding Initiative visa construir uma biblioteca de códigos de barras de ADN, com foco especial nos invertebrados.

O código de barras de ADN é uma iniciativa em expansão para catalogar a biodiversidade mundial, em que dezenas de milhares de espécies já foram referenciadas.

A técnica traduz-se numa metodologia molecular, que recorre a segmentos curtos de ADN para distinguir diferentes espécies. Para a identificação de um organismo é realizada a análise comparativa dos códigos de barras com uma base de dados, na qual diferentes espécies estão catalogadas.

A descoberta revelou nova informação sobre a biodiversidade que pode estar escondida ou camuflada em coleções biológicas. A nova espécie de morcego encontra-se, ainda, classificada na categoria “Informação Insuficiente”, pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e em risco de extinção na Catalunha.

O avanço da ciência na descoberta da biodiversidade
O estudo revela-se pertinente, pelo ponto de vista das monitorizações não invasivas, permitindo identificar diferentes espécies sem a necessidade da sua captura. Este é, também, o registo mais ocidental para esta espécie.

As bibliotecas criadas pelos códigos de barras de ADN são valiosas para uma vasta gama de estudos, que vão desde a avaliação da dieta das espécies até à deteção de espécies raras, ou composição da comunidade de habitats ou ecossistemas.

As observações realizadas durante a investigação ocorreram no norte da Galiza, sendo possível que a distribuição desta nova espécie de morcego em Portugal não se restrinja somente ao Gerês, mas sim a toda a região norte, particularmente em locais com floresta madura e pequenas galerias ripícolas, com vegetação mais densa.

Existem várias lacunas de conhecimento em relação à nova espécie de morcego
A espécie é rara e ainda pouco conhecida, associada a florestas maduras com presença de rios e ribeiras. O seu habitat é pouco extenso, quer em Portugal quer no resto da Europa.

Relacionada a ambientes ribeirinhos densos, era conhecida por habitar no norte de Espanha, na Suécia e na Turquia. No entanto, as novas descobertas revelam que podem existir várias lacunas de conhecimento, principalmente devido à subamostragem dos habitats desta nova espécie de morcego e a erros de identificação durante o trabalho de campo.

As populações da espécie presente em Portugal podem estar em risco de extinção. Uma melhor prospeção do seu habitat pode ajudar na fase inicial do conhecimento da distribuição da espécie e, como tal, vai possibilitar estudar a conservação da espécie e de outras espécies associadas a habitats comuns.

Aumenta a lista de quirópteros portugueses
Os códigos de barras de ADN, com custos associados cada vez menores, representam uma ferramenta poderosa para os campos da ecologia e da sistemática, sequenciando amostras de tecidos obtidas em diversos projetos nas últimas duas décadas.

Estes códigos têm tido um grande impacto na revelação de novas espécies ou na descoberta de diversidade criptográfica oculta. As espécies de morcegos – ou quirópteros – portuguesas conhecidas em Portugal continental aumentaram para 27 com a recente descoberta. A nova espécie de morcego junta-se, assim, ao recente confirmado morcego-de-franja-críptico, capturado no Alvão/Marão.

Espera-se o relevante crescimento da lista destes animais invertebrados, que pode tornar-se uma referência do CIBIO-InBIO, como ferramenta fundamental para a monitorização da biodiversidade a longo prazo e em grande escala, na Península Ibérica. A descoberta de novas espécies em Portugal e no mundo é outro dos objetivos.

O estudo contou ainda com a colaboração de Pedro Beja (coordenador do projeto), Sónia Ferreira (IBI manager), Francisco Amorim, Helena Raposeira e Helena Santos (especialistas em quirópteros).

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