Os 232 Animais Nesta Fotografia Foram Mortos por Gatos Domesticados em Apenas Um Ano

Esta imagem tem como objetivo chamar a atenção para os mais de dois mil milhões de pássaros e outros animais mortos anualmente por gatos domesticados nos EUA.

Monday, September 28, 2020,
Por Cordilia James
Fotografias Por Jak Wonderly
Esta versão de uma fotografia premiada engloba aves, roedores, répteis e outros animais levados para o ...

Esta versão de uma fotografia premiada engloba aves, roedores, répteis e outros animais levados para o WildCare Animal Hospital em San Rafael, na Califórnia, animais que foram feridos letalmente por gatos em 2019.

Fotografia de Jak Wonderly

Desde vinicultura a vida selvagem, Jak Wonderly sabe como dar vida a fotografias através de luz, configuração e composição. Mas captar algo de belo em animais mortos foi um novo desafio.

A fotografia de Jak, “Caught by Cats”, ganhou recentemente o primeiro lugar na categoria Humano/Natureza da edição 2020 da Competição BigPicture Natural World Photography. A sua imagem destaca um quadro sombrio: a fotografia precisava de ser multiplicada 10 milhões de vezes para chegar perto de mostrar os milhares de milhões de animais mortos anualmente por gatos.

A inspiração para a fotografia surgiu do trabalho feito no centro WildCare, um hospital de vida selvagem sem fins lucrativos sediado em San Rafael, na Califórnia. Dos 321 animais feridos por gatos e levados para o centro em 2019, apenas 89 sobreviveram. Os restantes 232, mostrados na fotografia de Jak, acabaram por morrer apesar dos esforços da WildCare para os salvar.

“Ter tantos animais à nossa frente, e saber que morreram todos da mesma causa, fez-me realmente contemplar o que está a acontecer”, diz Jak.

Jak trabalhou na disposição dos animais e testou vários arranjos que expressariam visualmente a enorme contagem de mortes, e que poderiam cativar os espetadores durante tempo suficiente para que conseguissem observar em pormenor. A ideia original partiu de Melanie Piazza, diretora de cuidados animais da WildCare. Melanie trabalha na reabilitação de animais selvagens há mais de 20 anos e já tratou de gatos feridos e de outros animais selvagens ao longo da sua carreira.

Seguir o projeto “Caught by Cats” acabou por ser uma experiência emocional. Um dia antes da sessão fotográfica, Melanie retirou os corpos preservados dos animais dos congeladores da WildCare e levou-os para casa para descongelarem. O dia seguinte foi preenchido a escovar e a tratar feridas para impedir que os animais vertessem fluidos, enquanto Jak os organizava e fotografava.

“O nosso objetivo não era ser repugnante ou chocante. Queríamos apresentar os animais da forma mais respeitosa possível e chamar a atenção das pessoas para a sua beleza”, diz Melanie.

Melanie Piazza, da WildCare, com um Piranga ludoviciana morto por um gato. O fotógrafo Jak Wonderly documentou os 232 animais feridos por gatos em 2019 que a WildCare não conseguiu salvar. Dos mais de 300 animais levados para o centro com ferimentos de gatos, apenas 89 sobreviveram.

Fotografia de Jak Wonderly

O problema dos gatos ao ar livre
Os gatos já contribuíram para a extinção de 63 espécies de vertebrados, a maioria aves, diz Peter Marra, diretor da Georgetown Environment Initiative. “O facto de terem provocado estas extinções já é suficiente mau... para além disso, sabemos que os gatos têm um impacto significativo nas populações a nível mundial, independentemente de estarem ou não ameaçadas.”

Peter Marra, antigo diretor do Centro de Aves Migratórias do Smithsonian, é o autor de Cat Wars: The Devastating Consequences of a Cuddly Killer, que detalha as razões pelas quais os gatos podem ser perigosos para a diversidade de espécies. Desde o lançamento do livro em 2016, pouco mudou em relação à regulamentação sobre os gatos ao ar livre, diz Peter, mas há uma maior consciencialização e compreensão sobre o problema.

Alguns argumentam que os gatos são predadores naturais e que devem poder vaguear e matar as suas presas quando quiserem. Mas, de acordo com Melanie Piazza, esta luta é desigual. É um argumento que ignora vários fatores importantes.

Numa relação natural entre presa e predador, os predadores caçam até não existirem presas suficientes na população para os alimentar, explica Melanie. Conforme a população de predadores diminui, a população de presas tem tempo para se regenerar. Mas os gatos domesticados interrompem este ciclo.

“Estes gatos ficam na mesma área durante 15 a 20 anos, são alimentados pelos seus donos e não precisam de caçar para sobreviver”, diz Melanie. “Eles estão simplesmente a matar de forma constante, mas a sua população nunca se altera, e isso não dá tempo às populações selvagens locais para recuperar como o fariam se estivessem num ciclo natural entre presa e predador.

O debate sobre os gatos domesticados ao ar livre é uma questão polarizadora, e Melanie diz que o projeto não visa alienar os amantes de animais. O objetivo, em vez disso, é uni-los. Melanie sugere que os gatos podem usar uma coleira ao ar livre, ou podem ter uma zona exterior fechada, mas também diz que as pessoas se deviam comprometer em manter os gatos domésticos em casa. Estas práticas não só protegem outros animais, como também mantêm os gatos seguros e saudáveis.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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