Peixe que Andava no Fundo do Mar Está Extinto. Será Possível Salvar os Seus Parentes?

O peixe-mão-liso foi declarado extinto, acontecimento inédito para qualquer espécie de peixe marinho. Outros peixes-mãos podem desaparecer a seguir.

Thursday, September 3, 2020,
Por Douglas Main
O peixe-mão-manchado, em perigo crítico de extinção, vive no estuário do rio Derwent perto de Hobart, ...

O peixe-mão-manchado, em perigo crítico de extinção, vive no estuário do rio Derwent perto de Hobart, na Tasmânia, e está ameaçado pelo aquecimento das águas e pela poluição. O seu parente, o peixe-mão-liso, foi declarado extinto em maio.

Fotografia de Alex Mustard, Minden Pictures

Pela primeira vez na história moderna, uma espécie de peixe marinho foi declarada extinta. O peixe-mão-liso (Sympterichthys unipennis), um habitante de águas rasas com barbatanas pontiagudas e uma protrusão parecida com uma barbela na testa, não é visto desde 1802, ano em que o biólogo francês François Péron ajudou a colher um destes peixes perto da costa da Tasmânia para levar para o Museu de História Natural de Paris.

Apesar das extensas pesquisas feitas ao longo de muitos anos, não foram encontrados mais peixes-mãos-lisos. Em maio, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), um consórcio global de cientistas que define o estado de conservação das espécies, classificou formalmente a espécie como extinta.


Acredita-se que ainda existem outras 13 espécies de peixes-mãos – têm este nome porque “andam” no fundo do mar com barbatanas que parecem pequenas mãos e que agem como pés – embora sete destas espécies não sejam avistadas desde o ano 2000 ou até antes. Todas estas espécies, exceto uma, estão consideradas ameaçadas, em perigo crítico de extinção ou com “dados insuficientes”, o que significa que não existem informações disponíveis suficientes para decidir o seu estado de conservação.

O desaparecimento do peixe-mão-liso destaca a sensibilidade desta família de peixes às perturbações ambientais, como as alterações climáticas, destruição de habitat e poluição, porque o peixe-mão-liso era quase certamente comum quando os cientistas o documentaram pela primeira – e última – vez, há mais de 200 anos. Os cientistas dizem que este marco serve de alerta para o que pode acontecer às outras espécies de peixes-mãos e a espécies localizadas e vulneráveis em lugares como a Tasmânia.

“São o canário na mina de carvão”, diz Neville Barrett, ictiólogo do Instituto de Estudos Marinhos e Antárticos da Tasmânia.

Como acontece com os outros peixes-mãos, o peixe-mão-vermelho tem barbatanas peitorais modificadas que lhe permitem “caminhar” no fundo do mar. Existem apenas duas pequenas populações desta espécie.

Fotografia de Fred Bavendam, Minden Pictures

De cores vivas e muito caseiros
“Se nunca viu um peixe-mão, imagine mergulhar um sapo em tinta colorida depois de lhe ter contado uma história triste, forçando-o também a usar luvas com dois tamanhos acima do normal”, diz a descrição do Handfish Conversation Project, organização liderada por um grupo de investigadores do governo australiano e instituições académicas dedicadas à conservação destes peixes.

“O autor da descrição permanece desconhecido, mas pegou”, diz Jemina Stuart-Smith, ecologista marinha do Instituto de Estudos Marinhos e Antárticos da Universidade da Tasmânia e da Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth.

Com um tamanho que normalmente não ultrapassa os 15 centímetros de comprimento, acredita-se que a maioria dos peixes-mãos vive apenas no oceano em torno da Tasmânia. Mas mesmo dentro destas águas, cada espécie só se encontra apenas num pequeno número de locais.

E também são muito caseiros. O peixe-mão normalmente não se dispersa em longas distâncias e as suas proles não passam por uma fase de mobilidade em grandes áreas, como acontece com muitos outros tipos de peixes. “Eles têm uma estratégia que funciona de forma brilhante num ambiente estável”, diz Neville Barrett.

‘Tempestade’ perfeita de ameaças
Não se sabe exatamente qual foi a combinação de fatores que levou à extinção do peixe-mão-liso, mas os hábitos caseiros deste peixe – áreas geográficas limitadas e preferência por água fria – tornam-no particularmente vulnerável às disrupções ambientais.

“Por exemplo, perto de Hobart, na Tasmânia, o escoamento e a poluição de metais pesados de várias indústrias degradaram a qualidade da água dos estuários ao longo da costa, o habitat predominante do peixe-mão-manchado e de outras espécies de peixe-mão”, diz Graham Edgar, biólogo marinho do Instituto de Estudos Marinhos e Antárticos. Isto preocupa os investigadores porque, segundo Graham, se estes peixes desaparecerem de uma área, provavelmente não vão regressar.

As dragagens históricas para apanhar vieiras, a destruição de recifes de ostras e a introdução de espécies não nativas nas águas da Tasmânia provavelmente também tiveram efeitos significativos sobre o número de peixes-mãos.

Este é o único espécime conhecido do peixe-mão-liso (Sympterichthys unipennis), recolhido em 1802 e levado para França pelo biólogo François Péron.

Fotografia de CSIRO Australian National Fish Collection

Porém, a maior ameaça pode ser o aquecimento das águas. O peixe-mão percorreu outrora uma área muito maior, quando o clima era mais frio, diz Neville. Agora, o aquecimento forçou muitas espécies, incluindo os peixes-mãos, alguns crustáceos, algas e muitos outros organismos marinhos que gostam do frio, para áreas cada vez mais pequenas. A Tasmânia é um ponto importante para o peixe-mão porque as suas águas, apesar de estarem a aquecer, são mais frias do que as águas mais a norte.

“Mas isto está a mudar porque a corrente do leste da Austrália, que varre a costa de Brisbane até Sydney, empurra cada vez mais as águas quentes para sul”, diz Neville. As temperaturas do oceano na Tasmânia subiram quase 2 graus Celsius desde 1900, de acordo com o Centro de Ciência e Serviços Climáticos Met Office.

“Tem sido uma tempestade perfeita de ameaças diferentes”, diz Graham Edgar, “e isso conduziu não só à extinção do peixe-mão-liso, mas também a uma perda catastrófica de biodiversidade em torno da Tasmânia, com declínios enormes nas populações e zonas de alcance de vários peixes, bivalves, crustáceos, algas marinhas e outros organismos marinhos.

Estes declínios podem passar despercebidos até ser tarde demais, porque os seus habitats estão submersos e longe da vista, e porque há uma falta de dados sobre as suas populações, diz Graham – como acontece com o peixe-mão-liso.

Dados insuficientes
Existem planos de conservação planeados para apenas três espécies: peixe-mão-vermelho (em perigo crítico de extinção), peixe-mão-manchado e peixe-mão de Ziebell. Atualmente, o peixe-mão-vermelho recebe uma atenção especial porque existem apenas duas populações conhecidas, ambas perto de Hobart, e acredita-se que restem menos de 100 adultos, diz Jemina Stuart-Smith. (Leia sobre a descoberta de uma colónia rara de peixe-mão-vermelho em 2018.)

Os planos de conservação para estas espécies focam-se na recolha de dados, prevenção da destruição de habitat e, em alguns casos, na introdução de substratos artificiais para os peixes desovarem, para substituir as algas perdidas e ascídias (filtradores em forma de tubo), que foram destruídas por espécies invasoras como estrelas do mar e ouriços do mar.

“Para as outras espécies, não temos informações e recursos necessários para implementar estratégias de conservação”, diz Jemina.

Como muitas das espécies de peixe-mão são raras e difíceis de encontrar, também são difíceis de estudar. Mesmo assim, os investigadores continuam à procura e usam novos métodos, como a recolha de fragmentos do seu ADN no oceano. As investigações sobre reprodução em cativeiro também continuam, diz Neville Barrett, embora ninguém tenha conseguido fazer com que completassem um ciclo de vida inteiro em cativeiro.

“Apesar de serem peixes muito carismáticos e peculiares... sabemos muito pouco sobre eles”, diz Jemina.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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