Raias-manta Enormes Descobertas "Debaixo do Nosso Nariz" nas Praias da Flórida

O número invulgarmente elevado de animais jovens sugere que há um viveiro nesta região densamente povoada, surpreendendo cientistas.

Thursday, September 10, 2020,
Por Haley Cohen Gilliland
A investigadora Christina Coppenrath tira fotografias enquanto pratica mergulho livre ao lado de uma jovem raia-manta ...

A investigadora Christina Coppenrath tira fotografias enquanto pratica mergulho livre ao lado de uma jovem raia-manta no sul da Flórida.

Fotografia de Bethany Augliere

Subindo e descendo de moto-quatro as dunas da Praia Juno, na Flórida, enquanto examinava a areia à procura de trilhos de tartarugas marinhas em perigo de extinção, Jessica Pate reparou numa sombra negra gigante que se movia pelas águas de pouca profundidade.

Quando observou de perto, ficou surpreendida ao descobrir uma raia-manta. Jessica, mergulhadora ávida e bióloga, conhecia pessoas que tinham nadado com estes peixes enormes na Indonésia ou no Havai – mas nunca nas movimentadas águas costeiras do sul da Flórida, onde vivem mais de seis milhões de pessoas.


Intrigada com este encontro que aconteceu em 2010, Jessica pesquisou a literatura científica sobre a população de raias-manta do sul da Flórida, mas encontrou apenas um artigo de 1998. Foi aí que decidiu alterar este paradigma.

Durante mais de três anos, de 2016 a 2019, Jessica Pate investigou as águas do sul da Flórida à procura destes seres graciosos, identificando finalmente 59 indivíduos, que os investigadores apelidaram de “mantas urbanas”.

“Vimos raias a nadar em frente às estâncias Mar-a-Lago do presidente Trump e Margaritaville de Jimmy Buffett”, diz Jessica, acrescentando que os habitantes de condomínios de Miami relataram vários avistamentos de raias enquanto estavam em casa durante a pandemia.

Esquerda: Uma raia-manta nada através de uma enseada, zonas que geralmente apresentam muito tráfego de embarcações.
Direita: Uma raia-manta nada perto da estância Margaritaville. Muitas das raias-manta estudadas foram fotografadas a menos de três metros de profundidade.

Fotografia de BRYANT TURFFS, COURTESY MARINE MEGAFAUNA FOUNDATION (ESQUERDA) E JESSICA PATE, COURTESY MARINE MEGAFAUNA FOUNDATION (DIREITA)

Para além do seu estilo de vida cosmopolita, as raias da Flórida são notavelmente quase todas jovens, com base na ausência de cicatrizes de acasalamento nas fêmeas e nos tamanhos pequenos da genitália dos machos.

Num novo estudo, publicado na primeira semana de setembro na revista Endangered Species Research, Jessica Pate e os seus colegas mostram fortes evidências de que o sul da Flórida tem um viveiro de raias-manta – apenas o terceiro alguma vez encontrado. Os viveiros de mantas tendem a ser ricos em alimentos e são relativamente livres de predadores, permitindo que os jovens animais cresçam em segurança.

Uma raia-manta chamada Stevie Nicks nada sob uma mancha de algas na costa sul da Flórida.

Fotografia de Bethany Augliere

“Foi espetacular porque foi uma descoberta inesperada, e os outros dois viveiros também só foram identificados em 2018 e 2019”, na Indonésia e no Golfo do México, diz Jessica, fundadora e cientista-chefe do Projeto Flórida Manta.

“Sabemos muito pouco sobre as mantas”, acrescenta ela – como por exemplo, onde dão à luz, quanto tempo vivem e como é que escolhem os seus parceiros. É por isso que o viveiro agora encontrado pode revelar mais informações sobre esta criatura pouco compreendida e sobre formas de conservação.

A União Internacional para a Conservação da Natureza considera ambas as espécies de manta, a raia-manta gigante (que pode atingir mais de oito metros de largura) e a raia-manta de recife vulneráveis à extinção. Em 2018, os EUA adicionaram a raia-manta gigante às espécies ameaçadas ao abrigo da Lei de Espécies Ameaçadas.

Também há evidências genéticas, que vão ser publicadas num próximo artigo, de que as raias-manta da Flórida pertencem a uma terceira espécie de raia-manta, acrescenta Jessica.

“Debaixo do nosso nariz”
Para a investigação, Jessica pediu emprestado o barco de pesca do seu avô e passou os dias que conseguiu a examinar as águas de pouca profundidade entre a Ilha de Júpiter e a Praia de Boynton. De pé na proa, enquanto o barco navegava lentamente, Jessica procurou formas grandes e escuras que se moviam sobre a areia branca.

“Posso dizer que identifiquei todas as rochas em forma de raia no sul da Flórida”, brinca Jessica. Mais tarde, ela também adicionou fotografias aéreas de drones e de pequenos aviões aos seus dados.

Jessica avistou algumas das 59 raias várias vezes ao longo dos anos, incluindo uma a quem ela e os seus colegas deram o nome de Stevie Nicks, e uma raia particularmente omnipresente chamada Gillie, que foi avistada 23 vezes. (Descubra o que leva as mantas a nadarem em círculos hipnotizantes.)

O número invulgar de jovens animais avistados repetidamente no mesmo local indica a presença de um viveiro, diz Jessica. Também é possível que a água quente e de pouca profundidade do sul da Flórida ajude os animais a regularem a sua temperatura corporal e a crescer mais depressa.

“Em muitas das regiões onde se estudam raias-manta, é incomum ver raias-manta jovens. É muito raro ver quase exclusivamente jovens numa área, como acontece no sudeste da Flórida.”

Contudo, as mantas conseguem viajar longas distâncias, pelo que a única forma de confirmar que existe um viveiro no sul da Flórida é através da colocação de dispositivos de rastreio por satélite e acústicos nas jovens mantas, processo que Jessica já começou em coordenação com a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA. (Nunca foi observada uma raia-manta a dar à luz na natureza, e os seus hábitos de reprodução permanecem em grande parte um mistério.)

“Este estudo confirma que sabemos muito pouco sobre estes animais”, acrescenta Csilla Ari, professora da Universidade do Sul da Flórida que também trabalha com a Fundação Manta Pacific Research. “As mantas estão mesmo debaixo do nosso nariz numa área tão densamente povoada e mesmo assim conseguiram passar despercebidas durante muito tempo.”

Conflitos com humanos
Joshua Stewart, ecologista de conservação e explorador da National Geographic que descobriu o potencial local do viveiro de raias-manta no Golfo do México, também ficou surpreendido com a proximidade que este viveiro pode ter das pessoas.

Uma raia-manta chamada Ginger nada com um isco de pesca preso ao corpo. Quase metade das mantas estudadas apresentava ferimentos relacionados com a pesca ou com a indústria náutica.

Fotografia de Bethany Augliere

“Falamos muito sobre os impactos humanos nas mantas – e certamente há algumas evidências disso nos locais onde trabalho”, diz Joshua, diretor associado do Manta Trust. “Mas ver mantas a nadar nos canais da Flórida, com enormes iates a passar, foi realmente chocante.”

A maioria das licenças de barcos recreativos dos EUA é detida por habitantes da Flórida, podendo explicar por que razão as raias da Flórida apresentam sinais de conflitos com humanos. Entre as mantas estudadas, 27% já estiveram presas em linhas de pesca, e 46% mostraram evidências de ferimentos ou cicatrizes de hélices de barcos, equipamentos de pesca ou outras causas não identificadas, de acordo com o estudo de Jessica Pate.

A pesca em excesso e os problemas com materiais de pesca são as principais ameaças enfrentadas pelas mantas, cujas fêmeas só atingem a maturidade sexual aos oito ou 10 anos de idade e reproduzem-se lentamente, dando à luz uma ou duas crias a cada poucos anos.

A Vida Surpreendentemente Social das Raias-manta
Pela primeira vez, os cientistas observam mais de perto a vida social das raias-manta de recife, desmentindo a conceção errónea de que não formam laços estreitos.

Mas quando atingem a idade adulta, quando são grandes demais para a maioria dos predadores, as raias-manta geralmente conseguem prosperar, “tornando a proteção destes animais mais jovens muito importante para a viabilidade de toda a população”, diz Jessica.

Levando em consideração estas vulnerabilidades, Jessica espera que o seu estudo leve o governo dos EUA a designar o sul da Flórida como um habitat crítico para as raias.

“Estas mantas vivem no sul da Flórida com milhões de pessoas, pelo que a sua proteção não vai ser fácil”, diz Jessica. “Mas como as raias-manta estão a diminuir no mundo inteiro, esta pode ser uma população realmente importante para proteger a espécie.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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