Abutre-preto Está a Recuperar a sua Presença em Território Português

O abutre-preto, a espécie de abutre mais ameaçada de Portugal, nidificou com sucesso. A sua presença fica agora mais consolidada na região alentejana.

Thursday, October 8, 2020,
Por National Geographic
abutre-preto

O abutre-preto é frequentemente confundido com o grifo pela sua dimensão, no entanto, é ligeiramente maior, fazendo dele o maior abutre da Europa.

Fotografia de Joel Sartore, National Geographic Photo Ark

O abutre-preto (Aegypius monachus) é uma das três espécies de abutres presentes em Portugal. Além desta, existem grifos (Gyps fulvus) e abutres-do-egipto (Neophron percnopterus).

Os abutres são animais maioritariamente necrófagos, ou seja, que se alimentam de carcaças de animais mortos. O abutre-preto é a maior ave de rapina da Europa, possuindo cerca de um metro de comprimento e podendo atingir os três metros em termos de envergadura das asas.

Apesar de ter marcado sempre presença nos céus portugueses, mesmo quando a população nidificante desapareceu do território, o abutre-preto sofreu um grande declínio e deixou de nidificar em Portugal nas últimas décadas do século XX.

Criticamente em Perigo
O abutre-preto é uma espécie associada aos habitats mediterrânicos, criando ninhos sobretudo em bosques de sobreiro ou azinheira, quase sempre em zonas remotas e montanhosas, com declives acentuados e longe da presença humana.

Alimenta-se principalmente de carcaças de coelho-bravo, ovelhas e cabras, e as áreas em que circula dependem da disponibilidade de presas, porém o abutre-preto tem preferência por zonas de montado. Ao eliminar as carcaças dos animais mortos no campo, o abutre-preto evita a propagação de doenças e assegura o funcionamento da rede trófica do ecossistema.

(Relacionado: Abutres em Portugal: Factos e Mitos)

A espécie nidifica, geralmente, em colónias dispersas e os ninhos, feitos de paus e troncos, chegam a alcançar 1,90 metros de diâmetro. Este processo ocorre entre fevereiro e abril. Os abutres-pretos atingem a idade adulta entre os três e os seis anos de idade.

Três dos 10 casais de abutre-preto nidificaram
Cerca de um terço dos casais existentes em Portugal nidificou no Alentejo, conseguindo cada um criar com sucesso uma cria.

Sete dos casais nidificaram em ninhos naturais, construídos pela espécie, e três em ninhos artificiais instalados no âmbito do projeto LIFE-Natureza para a “Promoção do Habitat do Lince-ibérico e do Abutre-preto no Sudeste de Portugal".

A espécie, que voltou a reproduzir-se no Alentejo em 2015, após um período de mais de 40 anos sem registo de reprodução a sul do rio Tejo, dá assim continuidade à recuperação da ave. Segundo a Liga para a Protecção da Natureza (LPN), este é o sexto ano consecutivo em que o abutre-preto procria com sucesso na Herdade da Contenda, mantendo ou aumentando o respetivo número de casais nidificantes.

A consolidação da presença da espécie no território tem sido possível, sobretudo, devido aos esforços de conservação desenvolvidos pela LPN, em colaboração com a empresa municipal Herdade da Contenda, propriedade da Câmara de Moura.

Essenciais ao funcionamento dos ecossistemas
Dos dez casais de abutre-preto, oito conseguiram fazer a postura de um ovo, tal como é comum na espécie. Num total de oito ovos, nasceram seis crias.

Três delas não sobreviveram, uma devido à queda do ninho e duas por causas desconhecidas, embora se aponte para o calor extremo durante o seu desenvolvimento. As três crias sobreviventes já ultrapassam os três meses de idade e estão prestes a deixar os seus ninhos com sucesso.

Apesar do avanço na recuperação da espécie, é necessário dar continuidade às medidas de conservação e estabelecer um acompanhamento mais próximo da reprodução, assim como uma intervenção em períodos críticos do desenvolvimento das crias, nomeadamente durante os picos de calor e escassez de alimento.

O abutre-preto está em risco de extinção em Portugal devido a várias ameaças à sua sobrevivência, na sua maioria de origem humana. No entanto, são extremamente importantes para manter a sanidade dos ecossistemas.

A população é ameaçada de diferentes formas
São várias as ameaças ao abutre-preto, desde o envenenamento ilegal, a colisão ou eletrocussão em linhas elétricas aéreas, o abate ilegal, a redução da disponibilidade trófica, devido à escassez do coelho-bravo, e às medidas sanitárias que obrigam a recolher todos os cadáveres de gado.

A degradação do habitat de alimentação devido a práticas agrícolas, pastoris e silvícolas mais intensivas, a perturbação humana nas zonas de nidificação, a instalação de barragens que reduzem o habitat de alimentação, assim como a implantação de parques eólicos e de infraestruturas hidráulicas perto de áreas de nidificação, também ameaçam a espécie.

Os resíduos de medicamentos e de metais pesados como chumbo, nas carcaças do gado doméstico ou silvestre, também contribuem para o estatuto de conservação da espécie.

A importância dos projetos de gestão do território
Nos últimos anos, o projeto Orniturismo – Conservação, Protecção e Valorização do Património Ornitológico tem sido responsável pela monitorização da reprodução e pelas medidas de conservação do abutre-preto no Alentejo.

A LPN e a Herdade da Contenda são dois dos parceiros do projeto, que visa conservar, proteger e valorizar o património ornitológico da região transfronteiriça Alentejo-Andaluzia, com a finalidade de desenvolver e consolidar modelos de atividades turísticas sustentáveis.

É possível avistar abutres em Portugal um pouco de norte a sul, com preferência pelas zonas fronteiriças e raianas. No Norte, Miranda do Douro, Barca D’Alva e Penedo Durão são áreas geográficas onde costumam ser observados abutres com regularidade. No centro, o Tejo Internacional é a melhor opção. Já no Sul, Marvão, Barrancos e Castro Verde são os sítios a visitar para tentar observar abutres-pretos e grifos.

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