Cabeça-de-cobra-dragão – Novo Peixe Estranho Descoberto na Índia

Estes peixes primitivos, que os cientistas denominam “fósseis vivos”, representam uma nova família taxonómica, uma descoberta rara.

Publicado 21/10/2020, 12:12
O cabeça-de-cobra-gollum, denominado em homenagem ao personagem subterrâneo de 'O Senhor dos Anéis', é uma de ...

O cabeça-de-cobra-gollum, denominado em homenagem ao personagem subterrâneo de 'O Senhor dos Anéis', é uma de duas espécies de uma nova família taxonómica de peixes.

Fotografia de Ralf Britz

Investigadores descobriram uma nova família de peixes parecidos com enguias, chamados cabeça-de-cobra-dragão, que vivem nas águas subterrâneas no sul da Índia. Estes peixes primitivos são um tipo de “fóssil vivo” e podem ter divergido dos seus parentes mais próximos há mais de 100 milhões de anos.

Descobrir uma nova família de peixes – a categoria taxonómica que se sobrepõe a género e espécie – é muito invulgar, diz Ralf Britz, líder do estudo e ictiólogo das Coleções de História Natural de Senckenberg, parte do Museu de Zoologia de Dresden, na Alemanha. As famílias taxonómicas costumam ser grandes e diversificadas; por exemplo, a família humana dos Hominídeos inclui chimpanzés, orangotangos e gorilas.

Esta família de peixes inclui apenas duas espécies, uma das quais tem o nome de cabeça-de-cobra-gollum, em homenagem ao personagem subterrâneo de 'O Senhor dos Anéis'.“Acreditamos que esta é a descoberta mais emocionante da última década no mundo dos peixes”, diz Ralf, autor principal de um estudo publicado recentemente na Scientific Reports.

Estes peixes estranhos de corpos alongados, que vivem em aquíferos de rocha porosa, raramente são avistados, e só visitam a superfície após inundações provocadas por chuvas fortes. Ralf diz que o nome comum desta família é apropriado porque “todas as pessoas que veem uma fotografia deste peixe dizem que lhes faz lembrar um dragão”.

A região onde estes peixes vivem, nas Gates Ocidentais do sul da Índia, é um ponto de foco de biodiversidade. Ao todo, os cientistas descobriram 10 espécies de peixes subterrâneos nestes aquíferos que fornecem água para milhões de pessoas.

Estima-se que seis milhões de poços extraem água desta reserva subterrânea, diz Ralf. Isto diminuiu o lençol freático e pode colocar em perigo algumas das espécies obscuras recém-descobertas que aqui vivem.

Espécie enigmática
Esta saga começou no início de 2018, quando o investigador Rajeev Raghavan, coautor do estudo e investigador de peixes na Universidade de Pesca e Estudos Oceânicos de Querala, reparou numa publicação nas redes sociais da Índia feita por uma pessoa que fotografou um peixe estranho que tinha encontrado no poço do seu quintal.

Rajeev enviou a fotografia para Ralf, “que não fazia ideia do que era” – não sabia qual era a espécie, género ou família. Quando Rajeev e outros colegas recolheram mais espécimes, Ralf viajou para a Índia para descrever cientificamente os peixes.

Um estudo inicial, publicado na Zootaxa em maio de 2019, identificou o peixe como sendo uma nova espécie e género, denominada Aenigmachanna gollum – cabeça-de-cobra-gollum. Pouco depois, outro investigador também encontrou uma segunda espécie dentro deste género, com base num único espécime – cabeça-de-cobra-mahabali.

Uma imagem gerada por computador do esqueleto de cabeça-de-cobra-gollum. Os estudos anatómicos deste peixe ajudam a mostrar que esta espécie (e as suas espécies irmãs) pertencem a uma família taxonómica que até agora era desconhecida, a Aenigmachannidae.

Fotografia de NAT GEO

Outro dos avanços surgiu quando Ralf e outros investigadores visitaram o campo de um agricultor no norte de Cochin, uma cidade em Querala. Nesse campo, à noite, encontraram cabeças-de-cobra-gollum a emergirem num arrozal inundado.

Mas quando Ralf e colegas fizeram pesquisas adicionais sobre a anatomia e genética destes peixes, descobriram que pertenciam a uma família completamente nova. A análise genética mostra que podem ter divergido dos seus parentes mais próximos, os cabeça-de-cobra da família Channidae, antes de África e a Índia se terem separado há 120 milhões de anos, diz Ralf.

Existem mais de 50 espécies de cabeças-de-cobra Channidae, que vivem em riachos e lagos por toda a Ásia e África.

Peixe estranho
Os cabeça-de-cobra-dragão têm “uma série de características primitivas” e são apropriadamente denominados “fósseis vivos”, diz David Johnson, ictiólogo do Museu Nacional de História Natural Smithsonian, em Washington D.C., que não participou no estudo.

Estas características únicas incluem uma bexiga natatória mais curta e menos vértebras com costelas, características que mostram que os cabeças-de-cobra-dragão são menos especializados do que os cabeças-de-cobra normais.

Esta família também carece de uma estrutura chamada órgão supra-branquial que permite aos cabeças-de-cobra Channidae respirarem ar. Este truque de respiração permitiu que uma das espécies, a cabeça-de-cobra-do-norte, se propagasse e se tornasse num incómodo invasivo na América do Norte e noutros lugares.

Outra imagem do cabeça-de-cobra-gollum.

Fotografia de Ralf Britz

Os cabeças-de-cobra-dragão também têm olhos e uma pigmentação castanha avermelhada – características incomuns nos peixes subterrâneos, muitos dos quais são brancos e não têm olhos.

Ralf diz que não se sabe porque é que esta espécie tem estas características, mas diz que se pode dever ao facto de não ser exclusivamente subterrânea.

Estes peixes movem-se pela água de forma singular, ondulando as suas barbatanas como se fossem enguias para avançar e recuar. Isto provavelmente ajuda-os a movimentarem-se pelas pequenas câmaras subterrâneas. Observá-los pode ser uma experiência hipnotizante, diz Ralf – “mexem-se como se fossem um véu ao vento”.

David Johnson compara o cabeça-de-cobra-dragão a um peixe primitivo que é parecido com uma enguia, chamado Protoanguilla palau, que foi descoberto numa caverna submarina em Palau. David ajudou a descrever esta espécie num artigo em 2012. Tal como acontece com o cabeça-de-cobra-dragão, esta família que até então era desconhecida tem características antigas que se perderam nos seus parentes, e alterou-se pouco com o passar do tempo.

A explicação para estes fósseis vivos sobreviverem sem muita diversificação permanece um mistério. “Não consigo perceber porquê”, diz David Johnson.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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