Fumo de Incêndios Florestais Pode Prejudicar Golfinhos e Baleias

Enquanto a costa oeste da América do Norte está em chamas, os cientistas estão preocupados porque os mamíferos marinhos podem ser afetados pela inalação de fumo, um fenómeno não estudado.

Wednesday, October 7, 2020,
Por Brishti Basu
Fumo envolve a praia de Mondos, perto de Ventura, na Califórnia, em 2017. Os golfinhos e ...

Fumo envolve a praia de Mondos, perto de Ventura, na Califórnia, em 2017. Os golfinhos e botos que nadam perto da costa são particularmente vulneráveis à inalação de fumo.

Fotografia de Mark Ralston/AFP, Getty Images

Há poucas investigações sobre a forma como os mamíferos marinhos são afetados pela exposição prolongada ao fumo e a químicos libertados durante os incêndios florestais, mas se o resultado da explosão da plataforma de petróleo Deepwater Horizon no Golfo do México servir de exemplo, estes animais podem enfrentar efeitos graves de saúde nos anos vindouros.

Há 10 anos, a veterinária Cara Field, então socorrista em Nova Orleães,  viu em primeira mão como o pior derramamento de petróleo na história dos EUA afetou a vida selvagem na região. O derrame libertou 780 mil metros cúbicos de petróleo no oceano, grande parte do qual subiu à superfície. No processo de limpeza, as equipas queimaram petróleo na atmosfera. Mas passados apenas cinco anos, as investigações revelaram que os roazes-corvineiros que respiraram o fumo carregado de químicos desenvolveram doenças pulmonares graves, tinham mais propensão para infeções e as suas crias tinham taxas de mortalidade mais elevadas.

Cara Field, agora diretora médica do Centro de Mamíferos Marinhos, uma organização de conservação sem fins lucrativos sediada em Sausalito, na Califórnia, teme que os mamíferos marinhos ao longo da costa oeste da América do Norte possam estar a enfrentar um destino semelhante durante uma época de incêndios florestais desastrosos que destruíram mais de 2.8 milhões de hectares.

O fumo dos incêndios florestais é composto por uma variedade de gases, incluindo monóxido de carbono; dióxido de nitrogénio; hidrocarbonetos aromáticos policíclicos ou PAH; e partículas perigosas que aumentam comprovadamente os perigos de doenças respiratórias e cardiovasculares nos humanos.

Como as baleias, golfinhos, botos e outros mamíferos marinhos estão adaptados à vida no mar, onde há menos poluentes no ar do que em terra, “é esperado que sejam mais suscetíveis a lesões por partículas inaladas”, diz Cara. Isto pode ter consequências graves para espécies como lontras-marinhas e orcas, que já estão em declínio na região.

Os efeitos do fumo de incêndios em mamíferos marinhos não são bem compreendidos e a potencial ameaça é muito elevada, pelo que Cara está a pedir aos cientistas da costa oeste dos EUA para começarem agora a recolher dados sobre a saúde dos mamíferos marinhos nas áreas afetadas pelos incêndios. Embora não tenham surgido relatos de mamíferos marinhos encalhados devido à inalação de fumo, é possível que isso possa acontecer, diz Cara.

“Agora, está no momento de obter uma linha de base, escolher o tipo de amostras que devemos procurar e começar a identificar as espécies ou populações que sejam potenciais candidatas de estudo.”

Anatomia vulnerável
A anatomia das baleias, golfinhos e botos faz com que sejam mais vulneráveis aos efeitos nocivos do fumo de incêndios florestais, diz Cara Field. Como estes animais trocam enormes quantidades de ar rapidamente através dos seus respiradouros, podem facilmente inalar as partículas de fumo presentes no ar.

Uma foca de Guadalupe nada num tanque rodeado de fumo libertado pelos recentes incêndios florestais na Califórnia, no Centro de Mamíferos Marinhos em Sausalito. Este animal foi resgatado antes de os incêndios começarem.

Fotografia de BILL HUNNEWELL, CENTRO DE MAMÍFEROS MARINHOS / NOAA PERMIT #18786

E também não têm seios paranasais e outras estruturas nasais que se encontram nos animais terrestres – barreiras físicas que aprisionam partículas no muco e que permitem aos animais espirrar ou tossir, para que menos partículas cheguem aos pulmões, diz Stephen Raverty, patologista veterinário do Ministério da Agricultura na Colúmbia Britânica.

“Com uma inspiração e expiração mais rápidas e o grande volume na troca pulmonar de cada respiração, a falta destas estruturas protetoras nas baleias, golfinhos e botos faz com que corram mais riscos de exposição ao fumo”, diz Stephen.

As necropsias dos 46 golfinhos que deram à costa mortos após o derramamento de petróleo da BP também ofereceram algumas informações sobre como o fumo de incêndios afeta os mamíferos marinhos, diz Cara Field.

Os golfinhos mortos tinham doenças pulmonares graves e glândulas adrenais degeneradas – órgãos que regulam as hormonas, o sistema imunitário, as respostas ao stress e muito mais. Os cientistas concluíram que isto pode ter sido provocado pela exposição aos hidrocarbonetos do fumo porque, em animais de laboratório, a exposição aos PAH pode dar origem a atrofia adrenal semelhante e afetar os seus sistemas reprodutores. Nos humanos e animais, estes químicos têm sido associados a várias formas de cancro.

Sinais de fumo
É impossível determinar o que afetou mais os golfinhos no Golfo do México: inalação de fumo quando o petróleo derramado foi queimado; ingestão de petróleo pela cadeia alimentar; ou uma combinação de ambos, diz Cara.

Os golfinhos e botos têm maior probabilidade de sofrer irritações nas vias respiratórias e absorver mais hidrocarbonetos do que as baleias, pois tendem a ficar mais perto da costa e a respirar com mais frequência do que os mamíferos de mergulhos profundos.

“Tendo em consideração que sabemos que as vias respiratórias dos golfinhos são provavelmente mais suscetíveis à inalação destas partículas, é muito provável que a inalação de cinzas e partículas provoque danos.”

Os cientistas também observaram o impacto do fumo e dos químicos nas lontras-marinhas, uma espécie em perigo de extinção na Califórnia.

Um estudo feito em 2014 com 39 lontras-marinhas da Califórnia descobriu que a exposição ao fumo e a escoamentos de incêndios florestais – uma mistura tóxica de sedimentos, detritos, metais e químicos que fluem para os corpos de água adjacentes aos incêndios florestais – enfraqueceu os sistemas imunitários dos animais. E um estudo de acompanhamento mostrou que, passados 15 meses, o sistema imunitário das lontras parecia ter recuperado.

Mas o número de animais presentes no estudo era pequeno, diz Cara Field, e os impactos para a espécie a longo prazo permanecem desconhecidos.

Desafios de investigação
Fazer investigações sobre este tópico é difícil por razões óbvias. Os cientistas não conseguem estudar facilmente os animais com um incêndio a lavrar por perto, diz Stephen Raverty.

“Não podemos sair e capturar animais vivos por uma variedade de razões éticas e logísticas, pelo que dependemos de animais mortos ou encalhados”, diz Stephen. Por exemplo, na Colúmbia Britânica, os cientistas examinaram mais de 6 mil mamíferos marinhos encalhados ao longo de uma década. Estas observações fazem parte de um projeto a longo prazo que já ofereceu dados sobre a saúde geral dos animais, como os níveis e tipos de poluentes encontrados no tecido animal.

Devido às alterações climáticas, as épocas de incêndios florestais no oeste dos EUA vão ficar ainda mais extremas, e Stephen Raverty espera que os cientistas façam estudos semelhantes para investigar como o fumo dos incêndios afeta os mamíferos marinhos.

A chave, diz Cara Field, é seguir os animais – muitos dos quais pertencem a espécies de vida longa – durante décadas.

“Os efeitos dos incêndios florestais são geralmente cumulativos”, diz Cara. “As coisas podem não parecer óbvias durante anos, pelo que necessitamos do fator longevidade para manter os estudos em andamento.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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