Restringir o Comércio de Barbatanas de Tubarão Pode Ser Mais Fácil do que se Pensava

Muitas das barbatanas de tubarão usadas em iguarias tradicionais asiáticas vêm das águas costeiras de apenas alguns países. Esta descoberta subverte as noções convencionais – e pode facilitar os esforços de conservação.

Friday, October 30, 2020,
Por David Shiffman
Fotografias Por Federico Borella
Uma barbatana de tubarão é atada com pedras para ajudar a manter a sua forma enquanto ...

Uma barbatana de tubarão é atada com pedras para ajudar a manter a sua forma enquanto seca. Um novo estudo sobre barbatanas de tubarão revelou, surpreendentemente, que muitos são pescados em águas costeiras, e não em alto-mar, como muitos cientistas pensavam.

Todos os anos, as barbatanas de até 73 milhões de tubarões, que variam entre espécies ameaçadas de extinção – como os tubarões-martelo-recortados e tubarões Lamiopsis temminckii – e espécies mais comuns de pescarias sustentáveis, são comercializadas e vendidas para a confeção de sopa de barbatana de tubarão, uma iguaria tradicional asiática. A perceção comum é a de que grande parte do comércio de barbatanas vem de tubarões capturados em águas internacionais – onde as regras que regem as pescarias são um pouco menos claras e muito mais difíceis de aplicar, dificultando os esforços de conservação.

Mas um novo estudo, publicado no dia 28 de outubro na revista Biology Letters, contraria esta noção ao concluir que muitas das barbatanas encontradas nos mercados da Ásia, América do Norte e América do Sul vêm de tubarões capturados perto da costa – nas águas territoriais de apenas alguns países. De acordo com os investigadores, esta proximidade, ao contrário do que se pensava anteriormente, pode facilitar o controlo do comércio de barbatanas de tubarão.

“Se os tubarões são capturados dentro da zona económica exclusiva (ZEE) de um país, e não em águas internacionais, isso são potencialmente boas notícias, porque o que acontece dentro de uma ZEE está sob o controlo de alguém”, diz Kyle Van Houtan, cientista-chefe do Aquário da Baía de Monterey e autor principal do estudo. “É da exclusiva responsabilidade desse país.”

Pescadores transportam um tubarão em Tanjung Luar, na ilha indonésia de Lombok. A Indonésia é um dos grandes exportadores de barbatanas de tubarão, e muitas saem do porto desta vila de pescadores.

A equipa de Kyle Van Houtan usou análises de ADN de amostras retiradas de barbatanas em mercados de peixe e combinou-as com uma modelagem de habitat para identificar as espécies de tubarões e respetivas origens.

“É possível obter muitas informações sobre a origem e espécie de uma barbatana de tubarão, e sobre onde esse tubarão viveu, com uma simples amostra de uma barbatana sem etiqueta num mercado”, diz Kyle, referindo-se aos avanços nas análises de ADN que não só melhoraram a identificação de espécies, como também podem combinar assinaturas genéticas das amostras com as assinaturas conhecidas de populações regionais. “Estamos a descobrir um grupo completamente diferente de espécies costeiras mais raras no comércio de barbatanas de tubarão, espécies que não seriam detetáveis com as técnicas mais antigas.”

A investigação também descobriu que muitas das espécies de alto-mar presentes no comércio de barbatanas, como tubarões-azuis, tubarões-raposa e tubarões-de-pontas-brancas, provavelmente são capturadas em águas territoriais, e não em oceano aberto, como seria de esperar. Kyle salienta, por exemplo, que embora os tubarões-azuis sejam uma espécie de alto-mar, por vezes são capturados no cais de pesca perto do seu escritório em Monterey, na Califórnia.

Esquerda: Barbatanas de tubarão secas e separadas para venda em Singapura, um dos centros de comércio de barbatanas de tubarão.
Direita: No mercado de peixe de Tanjung Luar, as caudas e barbatanas de tubarões são removidas.

“Todas as espécies têm um ambiente preferido, uma gama de temperaturas onde conseguem sobreviver, uma temperatura ideal onde prosperam [e] ambientes extremos que evitam”, diz Gabriel Reygondeau, investigador associado da Universidade da Colúmbia Britânica e o especialista em modelagem de habitats da equipa de estudo. Ao combinar o conhecimento sobre os habitats preferidos de cada espécie com os dados de satélite que medem onde é que se encontram determinadas condições, a equipa consegue prever os locais mais prováveis para a presença de cada espécie.

Os investigadores analisaram mais de 5000 amostras de barbatanas de tubarão em mercados em Hong Kong, Vancouver, São Francisco e na costa norte do Brasil. Embora os autores enfatizem que estas amostras não pretendem ser uma representação completa do comércio global, a maioria das barbatanas que testaram são de tubarões capturados em águas territoriais de apenas alguns países. Esta lista inclui países que são conhecidos pela sua pesca de tubarão, como a Indonésia, Japão e México, e alguns que surpreenderam os autores: como a Austrália e o Brasil.

Diego Cardeñosa, investigador de pós-doutoramento na Universidade Internacional da Flórida, que não participou neste estudo, diz que os resultados suportam a perceção crescente de que não são apenas as espécies de tubarão de oceano aberto que estão ameaçadas, mas também as espécies costeiras. E também sublinha a natureza global deste comércio.

Os resultados do estudo e o próprio trabalho de Diego Cardeñosa sobre o rastreio genético de espécies ameaçadas de tubarões “destacam a necessidade de uma gestão mais rigorosa das pescarias em muitas regiões do globo”, diz Diego por email. “O Pacífico oriental [México] é claramente uma fonte importante de espécies de tubarão para os mercados asiáticos de barbatanas de tubarão, espécies que estão listadas pela CITES.”

Licitadores, trabalhadores do mercado de peixe, compradores e outros aguardam o início do leilão em Tanjung Luar. Cada fila de tubarões pertence a uma tripulação de pesca diferente.

A CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção) regula o comércio transfronteiriço de animais selvagens, e as espécies presentes na sua lista são as que a comunidade internacional concordou que precisavam de um controlo comercial mais rígido para evitar a diminuição das suas populações.

A conclusão de que há mais tubarões capturados nas áreas costeiras oferece alguma esperança, dado que essas pescarias podem ser monitorizadas e controladas com mais facilidade do que acontece nas águas internacionais. E também pode significar que os barcos mais pequenos, que são mais numerosos nas águas costeiras e mais difíceis de rastrear do que as grandes embarcações de alto-mar, podem desempenhar um papel mais significativo.

“Este estudo sublinha considerações mais importantes para os conservacionistas – significando que a pesca de pequena escala pode ter um impacto significativo sobre as populações de tubarões”, diz Sonja Fordham, presidente da organização sem fins lucrativos Shark Advocates International. “São necessárias salvaguardas nacionais e internacionais para alcançar a sustentabilidade.”

O maior obstáculo para a conservação de tubarões, diz Sonja, continua a ser a falta de vontade política em restringir a pesca de tubarões a níveis sustentáveis. “Precisamos de muito mais vozes a apelar a quem governa para a delineação de limites concretos com base na ciência e numa abordagem de precaução – e exigir responsabilizações.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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