Só Restam 30 Primatas Destes na Terra. Uma Simples Ponte de Corda Pode Ajudar.

Uma ponte feita pelo homem ajudou os gibões de Hainan a percorrer o seu habitat fragmentado – mas é apenas uma solução a curto prazo, alertam os conservacionistas.

Publicado 20/10/2020, 17:01 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
Um gibão de Hainan macho numa árvore em 2019. Os machos têm uma cor preta, enquanto ...

Um gibão de Hainan macho numa árvore em 2019. Os machos têm uma cor preta, enquanto que as fêmeas têm um tom amarelo dourado com manchas pretas.

Fotografia de XINHUA; ALAMY STOCK PHOTO

O primata mais ameaçado do mundo, o gibão de Hainan, está a enfrentar muitas dificuldades para sobreviver. Só restam 30 no planeta, todos restritos a um único pedaço de floresta na Ilha de Hainan, na China.

Como esta espécie está muito ameaçada, a sobrevivência de cada gibão é vital, diz Bosco Pui Lok Chan, gestor do Projeto de Conservação de Gibões de Hainan, um projeto gerido pela Quinta e Jardim Botânico Kadoorie, em Hong Kong.

Nas copas das árvores, estes acrobatas usam os seus longos braços para se balançarem de árvore em árvore, permitindo-lhes colher frutos na floresta com facilidade. Estes primatas têm receio de se mover pelo solo, e é por isso que as décadas de fragmentação de floresta devido às atividades madeireiras e agrícolas isolaram os grupos uns dos outros, levando a uma morte lenta da espécie.

Em maio de 2015, quando o tufão Rammasun provocou um enorme deslizamento de terras em Hainan e destruiu ainda mais o habitat dos gibões, exacerbando as perdas anteriores de árvores, Chan e os seus colegas tomaram medidas de emergência.

A equipa contratou escaladores profissionais de árvores para instalarem uma ponte artificial de corda sobre a secção danificada de floresta – a primeira vez que se tentou este tipo de intervenção para esta espécie. A ponte consiste em duas cordas de montanhismo estendidas sobre uma ravina de 15 metros de comprimento. Os investigadores também instalaram armadilhas fotográficas ativadas pelo movimento perto da ponte.

Gibões de Hainan atravessam a ponte de corda na Ilha de Hainan.

Fotografia de Nature Research Press Site

Um novo estudo, publicado no dia 15 de outubro na Scientific Reports, trouxe consigo boas notícias: os gibões estão a usar a ponte, sugerindo que esta estratégia pode ser utilizada noutro lugar da floresta para ajudar os animais a percorrer o seu habitat, a misturarem-se com outros gibões e a encontrarem parceiros, diz Chan, que é um dos coautores do estudo. “Ao início, os gibões ignoraram a ponte, mas passados 176 dias, foi um alívio ver que os gibões a estavam finalmente a usar.”

Técnicas de corda
Chan também ficou surpreendido com as revelações das armadilhas fotográficas

VEJA IMAGENS DOS GIBÕES A USAREM A PONTE DE CORDA

Em vez de balançarem os braços ao longo das cordas, como fazem para agarrar os ramos das árvores, muitos dos gibões começaram a fazer o que Chan chama de “corrimão”. Os animais caminham ao longo de uma corda enquanto seguram a outra por cima das suas cabeças para se equilibrarem, da mesma forma que uma pessoa usaria um corrimão para ter estabilidade.

As fêmeas e as crias mais novas parecem ter mais disposição para usar a ponte, possivelmente porque os machos adultos são fortes o suficiente para saltar entre a ravina, especula Chan. Também é possível que as fêmeas adultas, que podem estar grávidas ou a transportar uma cria, considerem esse salto demasiado arriscado.

“Existem muitos projetos diferentes de pontes usados nas copas das árvores pelo mundo inteiro, mas este é particularmente interessante porque é simples, de baixo custo e está bem adaptado para esta espécie”, diz Tremaine Gregory, bióloga conservacionista do Centro para a Conservação e Sustentabilidade do Instituto de Biologia de Conservação Smithsonian, em Washington D.C.

Solução a curto prazo
Durante a década de 1950, estimava-se que existiam 2000 gibões de Hainan na natureza, mas na década de 1970, a perda de habitat e a caça reduziram o seu número para cerca de 10 indivíduos. Num esforço dramático para salvar a espécie, o Projeto de Conservação de Gibões de Hainan monitorizou e investigou os seus últimos redutos, patrulhou os territórios dos gibões à procura de caçadores e plantou árvores. O número de animais triplicou até hoje, para 30 individuos, mas o futuro dos gibões de Hainan ainda é incerto. (As tentativas de reprodução desta espécie em cativeiro falharam.)

“À medida que dividimos o mundo em pedaços cada vez mais pequenos com estradas e outras infraestruturas, é importante pensar em soluções para manter a ligação entre os fragmentos de habitat”, diz Temaine Gregory, que não participou neste novo estudo. Tremaine acrescenta que a ponte de corda pode inspirar outros conservacionistas a trabalhar na proteção de animais arbóreos raros.

Chan concorda, mas alerta que as pontes de corda são apenas uma solução a curto prazo. “Encontrar formas de restaurar os corredores de floresta natural deve ser a prioridade”, diz Chan, que lançou um projeto de reflorestação para plantar árvores nativas de rápido crescimento sob a ponte de corda. “Esta é a solução mais sustentável a longo prazo para a conservação.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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