Armadilhas que Outrora Aprisionavam Vida Selvagem no Uganda São Agora Peças de Arte

As pessoas que vivem perto do Parque Nacional de Murchison Falls, no Uganda, estão a remover armadilhas de arame usadas para capturar ilegalmente animais selvagens e a transformá-las em esculturas.

Monday, November 16, 2020,
Por Jani Hall
Fotografias Por Esther Ruth Mbabazi
Angeyo Mustafa observa as armadilhas de arame recuperadas no Parque Nacional de Murchison Falls, no Uganda. ...

Angeyo Mustafa observa as armadilhas de arame recuperadas no Parque Nacional de Murchison Falls, no Uganda. Angeyo é um dos 620 artesãos que trabalham para a organização Snares to Wares e que ganha dinheiro a transformar armadilhas de arame (que eram usadas pelos caçadores para matar animais selvagens) em esculturas de animais.

Numa manhã nublada de setembro, o biólogo de conservação Tutilo Mudumba, juntamente com vários colegas e 17 funcionários da Autoridade de Vida Selvagem do Uganda, partiram em jipes todo-o-terreno. Estavam numa missão: encontrar e remover armadilhas de arame – armadilhas destinadas a matar animais selvagens – no Parque Nacional de Murchison Falls, no noroeste do Uganda, um país onde, de acordo com um artigo publicado recentemente, os caçadores colocam mais armadilhas ilegais por quilómetro quadrado do que em qualquer outro lugar do mundo. (Descubra como a pandemia levou a um aumento da caça furtiva no Uganda.)

A maioria dos caçadores ilegais tem como alvo a carne de antílopes, búfalos ou javalis, mas os elefantes, as girafas e outros animais também caem nas armadilhas. As aldeias a norte do parque estão entre as mais pobres do Uganda, e muitas das armadilhas em Murchison são colocadas por habitantes locais pobres que procuram uma forma de sustento rica em proteínas para as suas famílias.

O guarda florestal Odokonyero Christopher ao lado de uma armadilha de arame em Murchison Falls. Os caçadores furtivos colocam inúmeras armadilhas ilegais no parque, na maioria das vezes para matar antílopes e outros herbívoros pela sua carne.

Quando os membros da equipa terminaram a patrulha, tinham perscrutado 50 quilómetros quadrados e recolhido cerca de 200 armadilhas – a quantidade típica para uma busca de 20 pessoas em cinco horas, diz Tutilo Mudumba.

Desde 2015 que Tutilo participa em operações de remoção de armadilhas no parque enquanto codiretor e cofundador da Snares to Wares, uma organização sem fins lucrativos que emprega habitantes locais para transformar armadilhas recuperadas em intrincadas esculturas de vida selvagem africana. Para além de desenvolverem aptidões enquanto artesãos, os funcionários da Snares to Wares ganham um salário que lhes permite comprar outras fontes de proteína e necessidades básicas como medicamentos. Este programa emprega atualmente 620 artesãos e normalmente vende mais de 800 esculturas por mês, principalmente para clientes nos EUA.

“Tratam-se de fontes alternativas de alimentação, mas também de capacitação [local]”, diz Tutilo, explorador da National Geographic que fundou e dirige esta organização sem fins lucrativos com Robert Montgomery, ecologista de vida selvagem da Universidade Estadual do Michigan, que apoia e financia a iniciativa.

Luhonda Peter e Sophia Jingo, que trabalham na iniciativa Snares to Wares, medem o diâmetro de uma armadilha instalada em Murchison Falls. Estes funcionários acompanham regularmente a Autoridade de Vida Selvagem do Uganda para remover armadilhas do parque, a maior área protegida do país.

Esquerda: Artesãos da Snares to Wares concentrados no artesanato. Todos os artesãos vivem nas comunidades em torno do parque e descobriram esta organização sem fins lucrativos através do passa-palavra.
Direita: Artesãos da Snares to Wares trabalham numa escultura de um rinoceronte. Os artesãos formam linhas de montagem para garantir um processo de produção tranquilo. A maioria das esculturas demora cerca de uma a três horas a ser concluída.

Apanhar armadilhas
Fáceis de fazer e de utilizar, as armadilhas de arame são o método de eleição para caçar em Murchison Falls. Embora por vezes sejam construídas com fios elétricos, as armadilhas são geralmente feitas de arames retirados de pneus que são descartados na estrada que atravessa o parque. As armadilhas são moldadas em forma de laço e ancoradas a uma árvore ou um ramo. Quando um animal pisa o laço, a armadilha fecha-se em torno do seu membro. Os animais normalmente morrem devido a uma junção de fatores como fome, hemorragia e desidratação.

A Snares to Wares trabalha com a Autoridade de Vida Selvagem do Uganda para recolher armadilhas no parque a cada duas semanas. As armadilhas são classificadas por material e entregues aos artesãos, que trabalham remotamente em pequenos grupos, em vez de trabalharem na oficina da organização, devido à pandemia de coronavírus que atingiu o país em março.

Os artesãos transformam as armadilhas em esculturas de rinocerontes (na imagem), e também fazem leões, elefantes, hipopótamos e outras espécies que habitam no parque. Muitas destas espécies ficam frequentemente presas nas armadilhas.

Esquerda: Esta escultura de uma girafa é uma das 800 que a organização sem fins lucrativos vende normalmente por mês. A maioria é enviada para os EUA, onde são vendidas por preços que variam entre 15 e 90 dólares.
Direita: Assim que uma peça de artesanato é vendida, “os lucros surtem imediatamente efeito no Uganda”, diz Tutilo Mudumba, codiretor da Snares to Wares. Os artesãos recebem 100% do valor das esculturas que fazem e utilizam o salário para as suas necessidades básicas, como alimentação e medicamentos.

Apesar de ser difícil avaliar o impacto do programa, Juma Muhamed, diretor-assistente da Autoridade de Vida Selvagem do Uganda e segurança no parque, diz que acredita que a Snares to Wares ajudou a reduzir o número de caçadores e potenciais caçadores em Murchison Falls. O programa mostra aos jovens que existem alternativas à caça furtiva.

“Acreditamos [que iremos ] ver mais bons resultados no futuro”, disse Juma por email. “A maioria dos membros do grupo são jovens e acreditamos que, com o tempo, irão influenciar os mais velhos que normalmente os recrutam e treinam para se tornarem caçadores furtivos.”

Os funcionários da Snare to Wares classificam as armadilhas no armazém da Autoridade de Vida Selvagem do Uganda, onde a parafernália de caça furtiva é armazenada depois de recolhida no parque. A maioria das armadilhas é feita com arames de pneus.

As armadilhas são simples, mas eficazes: assim que um animal tropeça num laço de arame, o arame fecha-se em torno do membro do animal. Os animais podem morrer de fome, desidratação ou hemorragia.

Transformar arame em vida selvagem
O foco de Tutilo Mudumba no problema das armadilhas começou há quase uma década, quando Tutilo contribuiu para as investigações que identificaram as armadilhas de arame como sendo as principais responsáveis por um declínio de 40% na população dos leões do parque, entre 2002 e 2009. Tutilo passou os anos seguintes a estudar formas de prever a distribuição de armadilhas pelo parque. Apesar das inúmeras ações para remover armadilhas, aparecem sempre mais. “Continuamos a fazer isto e as armadilhas ainda não desapareceram.”

Em 2015, quando começou a fazer o seu doutoramento na Universidade Estadual do Michigan, Tutilo teve a ideia de criar a Snares to Wares, juntamente com Robert Montgomery, como uma forma de “servir a causa do incêndio”, como Tutilo o coloca. Ambos criaram a organização sem fins lucrativos nesse mesmo ano.

Os artesãos criaram esta escultura em tamanho real de um elefante e de uma cria para ficar em exposição na sede da Autoridade de Vida Selvagem do Uganda, em Murchison Falls. A escultura foi criada com 3400 armadilhas recolhidas no parque.

Settler Charles, de 25 anos, antigo caçador furtivo (à esquerda), usou o salário que recebeu da Snares to Wares para criar uma videoteca, um lugar onde as pessoas podem comprar filmes e músicas na internet. Entusiasta de arte, Settler Charles juntou-se à Snares to Wares para ganhar um salário estável e porque viu os seus amigos serem detidos devido à caça ilegal.

Ao início, as pessoas da comunidade estavam céticas, diz Tutilo. “Não conseguiam imaginar que alguém estivesse interessado em comprar esculturas de animais selvagens. As pessoas não tinham muito apreço pela vida selvagem local, porque os animais atravessam muitas vezes os limites do parque e acabam por estragar plantações e incitar o medo.”

Tutilo diz que ficou chocado quando percebeu que alguns dos participantes nem sequer tinham noção da aparência dos animais, que só tinham observado durante interações complicadas fora do parque. O seu primeiro passo foi organizar passeios pelo parque, para os artesãos poderem estudar e desenvolver uma apreciação pelos animais. Os artesãos também começaram a aprender a trabalhar com os arames e a tratar os materiais com fogo, para ficarem mais flexíveis.

Quando o artesanato começou a ser vendido, apareceram mais pessoas a pedir para participar. “Sabiam que podiam beneficiar do trabalho que [os artesãos] estavam a fazer.”

Hoje, o futuro da Snares to Wares parece bem encaminhado. Tutilo acredita que os membros da comunidade vão continuar a trocar a caça furtiva pela arte. Tutilo também espera conseguir expandir este modelo para outras áreas.

Em Murchison Falls, os caçadores furtivos colocam geralmente as armadilhas de manhã, e verificam as capturas à noite. Os conservacionistas estão particularmente preocupados com a forma como esta captura afetou as populações de leões, leopardos e de outros predadores.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler