Este Lagarto do Tamanho de Um Cão Está a Invadir o Sudeste dos EUA

Os teiús-argentinos estão a reproduzir-se em vários estados norte-americanos, depois de escaparem ou serem libertados de cativeiro. Os biólogos estão preocupados porque estes omnívoros são vorazes.

Publicado 26/11/2020, 14:57 WET
Lagartos teiú-argentinos (Salvator merianae) foram avistados em vários estados do sudeste dos EUA. Os biólogos estão ...

Lagartos teiú-argentinos (Salvator merianae) foram avistados em vários estados do sudeste dos EUA. Os biólogos estão preocupados porque estes répteis têm o hábito de comer ovos e animais nativos.

Fotografia de Kike Calvo, Getty Images

Nas profundezas da região de Everglades, um invasor voraz com escamas manchadas está a assumir o controlo. O teiú-argentino, um lagarto enorme que pode atingir mais de um metro de comprimento, já se propagou de forma abrangente pelo sul da Flórida. Mas não se ficou por esta região. Estes invasores começaram a surgir por todo o sudeste dos Estados Unidos, representando uma potencial ameaça para as espécies nativas e para os agricultores.

Estas criaturas, nativas da América do Sul, são omnívoras e comem praticamente tudo com valor nutricional que lhes caiba na boca. Os lagartos comem ovos de animais que fazem ninhos no solo, como ovos de aves e répteis, incluindo de tartarugas marinhas em perigo de extinção, e comem pombas e outros pequenos animais. Como se não bastasse, também comem morangos e outras frutas e vegetais que crescem junto ao solo.

Os teiús-argentinos também são extremamente resistentes, e quando a espécie se consegue estabelecer, a sua disseminação é muito difícil de controlar.


Apesar de os teiús se reproduzirem no sul da Flórida há mais de uma década – depois de escaparem de cativeiro ou serem libertados pelos seus donos – só recentemente é que se começaram a espalhar por pelo menos dois condados na Georgia. E durante os últimos meses, estes répteis foram avistados em quatro condados da Carolina do Sul, onde os biólogos suspeitam que também se podem estar a reproduzir. Também há relatos isolados da sua presença no Alabama, Louisiana e Texas, bem como informações de populações estabelecidas na Flórida Central.

Para quem gosta de ter animais exóticos, os teiús, animais inteligentes e dóceis, são animais de estimação muito procurados. Nos EUA, a sua presença deve-se em grande parte aos criadores americanos, mas entre os anos 2000 e 2010, foram importados da América do Sul mais de 79.000 teiús vivos, diz Amy Yackel Adams, bióloga do Serviço Geológico dos EUA, que estuda estes animais. Embora os animais que escapam ou que são libertados sejam uma minoria, os biólogos acreditam que o problema está a piorar.

Se forem libertados mais animais, “existe o potencial para uma grande população na natureza”, diz Amy.

Um estudo feito em 2018 pelo Serviço Geológico dos EUA usou informações sobre os teiús na América do Sul para prever a sua possível disseminação nos EUA. De acordo com Amy, “toda a região sudeste dos Estados Unidos está em risco. Grande parte desta área tem um clima adequado para os teiús”.  Até agora, não há estimativas oficiais sobre a quantidade de teiús que vivem nos EUA.

Os teiús preferem florestas e pastagens de terras altas, sobretudo áreas onde chove sazonalmente de forma substancial, como as florestas de pinheiros subtropicais da Flórida. Como as alterações climáticas estão a fazer com que as zonas climatológicas tropicais e subtropicais se desloquem para norte, a faixa adequada para os teiús na América do Norte também pode aumentar, diz Amy.

Os investigadores estão mais preocupados com os hábitos predatórios dos teiús, que gostam de comer ovos. Na Venezuela, estes animais são conhecidos por entrarem furtivamente nos galinheiros para roubarem ovos, algo que lhes granjeou o nome de el lobo pollero, “o lobo dos galinheiros”. Os criadores de aves nos EUA devem estar alerta.

Amy diz que, se os teiús se continuarem a dispersar pelo sudeste dos EUA, podem ameaçar muitos dos animais que nidificam ou vivem no solo, incluindo a cobra índigo oriental, que é considerada ameaçada de extinção pela Lei das Espécies Ameaçadas. Amy também receia que os lagartos possam comer os ovos das tartarugas gopher – outra espécie ameaçada – e dos jacarés-americanos, crocodilos-americanos e de muitos outros.

Podem ser travados?

Os teiús são animais resistentes e conseguem suportar temperaturas mais baixas do que alguns dos outros répteis, porque conseguem elevar a sua temperatura corporal acima da temperatura ambiente. No inverno, se ficar muito frio, podem hibernar, ficando muito lentos e escondendo-se em tocas que roubam a tartarugas gopher ou a outros animais.

Estes animais conseguem recuperar depressa das ameaças, como a caça. “Na década de 1980, o teiú era o réptil mais explorado no mundo”, diz Lee Fitzgerald, professor de zoologia na Universidade Texas A&M. Durante esse período, cerca de dois milhões de peles de teiú eram exportadas anualmente da Argentina para o comércio de couro. “No entanto, nunca foram removidos de forma abrangente de outro local”, diz Fitzgerald.

Para conter a disseminação de teiús nos EUA, as autoridades de vida selvagem e outras organizações nos estados invadidos por estes animais estão à procura de soluções.

Só este ano, no sul da Flórida, as armadilhas preparadas pelo Serviço Geológico dos EUA capturaram mais de 900 teiús perto do Parque Nacional de Everglades. Mas, de acordo com Amy Adams, não há sinais de declínio nas populações de teiús na região. O Serviço Geológico dos EUA, antes de delinear novos planos para remover os teiús, precisa de compreender o grupo de animais que vive nas clareiras. Para fazer isso, marcaram os lagartos com localizadores e estão a rastrear os seus hábitos.

Na Georgia, os biólogos estaduais têm trabalhado para capturar teiús nos condados de Toombs e Tattnall, a oeste de Savannah, e dizem que estão a encontrar menos animais. Daniel Sollenberger, herpetologista do Departamento de Recursos Naturais da Georgia, diz que o estado pode ter detetado este problema a tempo.

“Estamos a capturá-los há cerca de dois anos”, diz Daniel. “Apanhámos cerca de uma dúzia no ano passado, e cerca de meia dúzia este ano. Pode ser que agora sejam menos, pelo menos naquele local.”

Na Georgia, parte da solução tem passado pela sensibilização dos habitantes locais através de campanhas que os encorajam a relatar avistamentos de teiús. A Sociedade de Répteis da Georgia tem um Grupo de Trabalho Teiú para onde os habitantes podem enviar fotografias de teiús para identificação. Assim que identificam um animal, os voluntários da sociedade apanham-no e levam-no para uma instalação de resgate. Depois, são entregues a pessoas que os desejam ter como animais de estimação.

“Fazemos os possíveis para apanhar os animais, para os capturar, e tentamos realojá-los”, diz Justyne Lobello, presidente da Sociedade de Répteis da Georgia.

“Queremos ajudar a retirar os animais deste habitat da forma mais humana possível. O facto de termos uma longa lista de espera de pessoas que os querem ter como animais de estimação também ajuda.”

Ainda assim, os especialistas dizem que, em primeiro lugar, a melhor forma de resolver o problema é prevenir a sua propagação na natureza. Alguns estados como o Alabama promulgaram leis que proíbem a importação destes animais, e outros estados podem vir a seguir este exemplo. Entretanto, alguns biólogos alertam contra a posse destes animais.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados