Já Sabíamos que os Ornitorrincos Eram Animais Incríveis. Agora Sabemos que Também Brilham.

O pelo dos ornitorrincos brilha sob luz ultravioleta – uma descoberta que levanta questões sobre o papel que esta característica desempenha nestes estranhos mamíferos.

Friday, November 13, 2020
Por Douglas Main
Os ornitorrincos são biofluorescentes, o que significa que o seu pelo brilha com um tom azul-esverdeado ...

Os ornitorrincos são biofluorescentes, o que significa que o seu pelo brilha com um tom azul-esverdeado sob luz ultravioleta (UV). Esta fotografia, parte de uma imagem composta que foi usada num estudo, usa um filtro amarelo que revela a cor mais “verdadeira” da fluorescência do pelo.

Fotografia de JONATHAN MARTIN / NORTHLAND COLLEGE; DE ANICH ET AL. 2020

O ornitorrinco é uma das criaturas mais estranhas do planeta em vários aspetos. Embora sejam mamíferos, estes nativos australianos põem ovos e apresentam espinhos venenosos nas patas traseiras. Os ornitorrincos também têm uma cauda semelhante à de um castor e um bico parecido com o de um pato, sendo que este último é usado para detetar presas enquanto caçam à noite com os olhos fechados.

Agora, os cientistas descobriram outra característica estranha para juntar a esta lista: pelo fluorescente.

Num estudo recente, publicado na revista Mammalia, os cientistas descobriram que, quando iluminado por uma luz ultravioleta (UV) – um espectro de luz que é não visível ao olho humano – o pelo dos ornitorrincos emite um brilho azul-esverdeado.

“Fiquei um pouco perplexa ao ver que o ornitorrinco é biofluorescente”, diz Paula Anich, autora principal do estudo, “sobretudo porque já é um animal tão singular”.

Esta descoberta expande o conhecimento da ciência sobre biofluorescência, algo que os investigadores estão a descobrir ser mais difundido por todo o reino animal do que se pensava anteriormente.

“Isto adiciona mais uma observação de que muitos animais são biofluorescentes e abre questões sobre o que isso pode significar, se é que significa alguma coisa, para esta espécie”, diz David Gruber, explorador e investigador da National Geographic que estuda a fluorescência em criaturas marinhas e que não participou no estudo.

Esta imagem mostra a aparência dos ornitorrincos iluminados por uma luz ultravioleta (UV). O investigador Jonathan Martin explica que “a luz ultravioleta satura tudo com uma luz roxa, pelo que a câmara tem dificuldade em registar o que o olho humano vê; o filtro amarelo reduz a cor roxa e exibe uma imagem com uma tonalidade mais ‘verdadeira’ da fluorescência”.

Fotografia de JONATHAN MARTIN / NORTHLAND COLLEGE; DE ANICH ET AL. 2020

De esquilos-voadores a ornitorrincos
A biofluorescência é um fenómeno onde uma substância, como o pelo de um animal, absorve a luz num determinado comprimento de onda e emite essa luz num comprimento de onda diferente. Os matizes biofluorescentes comuns incluem verde, vermelho, laranja e azul.

Só nos últimos anos é que os cientistas descobriram que vários tipos de conchas de tartarugas marinhas, fungos e esquilos-voadores são biofluorescentes. Embora as razões sejam desconhecidas, as hipóteses incluem efeitos de camuflagem ou de comunicação entre indivíduos da mesma espécie.

Em 2019, Paula Anich – mamologista do Northland College, em Ashland, no Wisconsin – e os seus colegas descobriram que os esquilos-voadores ficam fluorescentes quando iluminados por uma luz ultravioleta, emitindo um brilho rosa do pelo que têm na barriga.

Estes estudos levaram a equipa até ao Museu Field de Chicago, onde os investigadores iluminaram peles preservadas de esquilos com luzes ultravioleta. Por curiosidade, a equipa fez o mesmo com um espécime de ornitorrinco armazenado no museu – e viram o brilho.

Pouco antes de o estudo de Paula Anich ter sido publicado, outro artigo de investigação descobriu que um ornitorrinco, que tinha sido recentemente morto numa estrada da Austrália, brilhava sob uma luz negra, uma lâmpada que irradia luz ultravioleta.

Isto valida a descoberta de Paula e mostra que os ornitorrincos vivos, para além dos que estão mortos há muito tempo, são muito provavelmente fluorescentes, diz Gilad Bino, especialista em ornitorrincos da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney, na Austrália.

“Os ornitorrincos não param de me surpreender”, diz Gilad sobre o novo estudo, no qual não participou.

Qual é a função?
Ainda não se sabe por que razão os ornitorrincos brilham.

Como estes animais são notívagos e mantêm os olhos fechados quando nadam, parece pouco provável que isto desempenhe um papel importante na comunicação com outros ornitorrincos, diz Paula.

Talvez os ajude a evitar determinados predadores que conseguem ver luz ultravioleta; a absorção de UV e a emissão de uma luz azul-esverdeada pode servir como uma forma de camuflagem, diz Paula.

Gilad Bino concorda que isso é plausível. Muitos animais, incluindo a maioria das aves, conseguem ver em ultravioleta. Os predadores naturais de ornitorrincos incluem peixes grandes como o bacalhau-de-murray, aves de rapina e dingos.

Também é possível que esta característica não desempenhe uma função real – pode ser apenas um traço ancestral que o ornitorrinco reteve juntamente com as suas outras características primitivas, como a postura de ovos.

Paula Anich e Gilad Bino querem estudar um ornitorrinco vivo para confirmar esta descoberta de biofluorescência, e talvez aprender um pouco mais sobre as funções desta característica.

“Dadas estas descobertas”, diz Gilad, “vou certamente levar comigo uma luz ultravioleta quando estiver a trabalhar no terreno”.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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