Abelhas Usam Ferramentas – Descoberta Sem Precedentes – Para Repelir Ataques de Vespas-gigantes

No Vietname, as abelhas-asiáticas usam fezes de animais para repelir parentes das “vespas-assassinas”. Esta descoberta pode ajudar a proteger as abelhas noutros países que tenham vespas invasoras.

Publicado 16/12/2020, 11:20 WET
As abelhas-asiáticas desenvolveram uma variedade de truques para repelir os ataques de vespas-gigantes.

As abelhas-asiáticas desenvolveram uma variedade de truques para repelir os ataques de vespas-gigantes.

Fotografia de Satoshi Kuribayashi, Minden

No Leste Asiático, as abelhas enfrentam ataques intermináveis de um inimigo formidável: vespas-gigantes. Estes predadores matam abelhas individualmente, mas também invadem as colmeias em grupo. Com ataques violentos, as enormes vespas começam por decapitar todas as abelhas que encontram, para depois ocuparem a colmeia e devorar lentamente as larvas das abelhas.

Para se defenderem das vespas, as abelhas-asiáticas desenvolveram várias táticas criativas, como por exemplo atacar as vespas com “bolas de abelha” quentes, que assam os invasores.

Mas numa nova investigação feita no Vietname, os cientistas descobriram um truque ainda mais estranho das abelhas: revestem a entrada da colmeia com fezes de animais.

Esta “mancha fecal”, para além de repelir as vespas-gigantes, também é o primeiro exemplo claro do uso de ferramentas por parte das abelhas, diz Heather Mattila, entomologista do Wellesley College em Massachusetts e coautora do estudo publicado no dia 9 de dezembro na revista PLOS ONE.

Antes deste estudo, os investigadores ainda não tinham analisado o que provocava as marcas negras que se veem frequentemente a cobrir as entradas das colmeias no Vietname e noutros lugares do Sudeste Asiático. Heather e os seus colegas verificaram que este material escuro era na verdade fezes de vários animais, como galinhas e vacas. Os investigadores também documentaram que as fezes repelem uma espécie conhecida por Vespa soror, também chamada vespa-gigante.

Conseguir finalmente descobrir o que as abelhas estavam a fazer “foi muito impressionante”, diz Heather, cuja investigação foi parcialmente financiada pela National Geographic Society. “É uma das coisas mais incríveis que o nosso grupo [de investigação] alguma vez explorou”.

Este estudo assume ainda mais importância porque a Vespa soror é o parente mais próximo da Vespa mandarinia, também conhecida por vespa-gigante-asiática, ou “vespa-assassina”, cuja descoberta recente no noroeste do Pacífico alimentou debates pelo mundo inteiro.

Compreender como é que o comportamento das abelhas vietnamitas repele os ataques de vespas pode ter aplicações para proteger as abelhas noutros países, diz Heather.

“Sem esquecer que a combinação entre ‘vespas-assassinas’ e fezes é muito interessante”, diz Heather em tom de brincadeira.

Repelente fecal

Heather e a sua equipa, que passaram centenas de horas a observar abelhas num apiário vietnamita, descobriram que as abelhas começaram a adicionar fezes às entradas das colmeias após ataques naturais de vespas-gigantes. Ao analisar mais de 300 ataques de vespas registados em vídeo, a equipa determinou que as vespas eram menos propensas a permanecer na entrada da colmeia, ou a iniciar uma invasão, quando a colmeia começava a ficar coberta com fezes.

Os investigadores também descobriram que, se colocassem um papel embebido com extratos corporais de vespas-gigantes perto da entrada da colmeia, as abelhas começavam a cobrir o papel com fezes.

Ainda não se sabe exatamente de que forma é que o revestimento fecal repele as vespas. Parece que os insetos não gostam do cheiro, mas também podem não querer mastigar um ninho coberto de fezes, um comportamento que aumenta a abertura da colmeia para um ataque mais fácil, diz Heather.

As fezes também podem funcionar como uma espécie de camuflagem olfativa. “As colmeias de abelhas normalmente cheiram a mel e as coisas doces”, e as vespas podem usar esse perfume para as encontrar, diz Lars Chittka, que estuda a perceção e o comportamento de abelhas na Universidade Queen Mary de Londres. “É possível que as fezes tenham um cheiro desagradável e disfarcem [esse aroma].”

Vespas-gigantes-asiáticas (Vespa mandarinia) atacam abelhas no Japão. Uma nova investigação revela que os parentes mais próximos destas vespas, as Vespa soror, que são parecidas e agem de forma semelhante, são repelidas pelas fezes que as abelhas colocam perto das entradas das colmeias.

Fotografia de Mark MacEwen, Nature Picture Library / Alamy

Moda das vespas-assassinas

Nos EUA, desde que as vespas-gigantes-asiáticas foram observadas pela primeira vez no estado de Washington, em finais de 2019, os entomologistas têm trabalhado apressadamente para evitar que a espécie se estabeleça na região, e conseguiram fazê-lo com algum sucesso. Em outubro, biólogos estaduais descobriram e removeram o primeiro ninho conhecido destes insetos vorazes.

Uma das razões pelas quais esta invasão tem recebido tanta atenção deve-se ao facto de as vespas-gigantes-asiáticas serem conhecidas por atacarem as abelhas-europeias que, ao contrário das abelhas-asiáticas, carecem de defesas contra estes predadores.

As abelhas-europeias são as abelhas mais comuns nos EUA, e são responsáveis pela polinização de muitas espécies de plantas. Estas abelhas também compõem a maioria das colmeias comerciais e são mais eficientes na produção de mel do que as suas homólogas asiáticas.

Heather Mattila diz que, se os investigadores descobrirem exatamente o que faz com que as fezes afastem as vespas, os apicultores podem usar esta substância para cobrir as entradas das colmeias, desencorajando assim os ataques das vespas. Mas ainda há muitas incógnitas.

Por exemplo, podem existir algumas desvantagens neste comportamento. As abelhas são normalmente muito limpas e meticulosas – uma das razões pelas quais esta descoberta foi um choque, diz Heather. “É possível que o uso de fezes como repelente possa complicar os padrões de segurança na produção de mel.”

Zumbido em torno das ferramentas

Esta utilização recém-descoberta de fezes de animais qualifica-se como uma forma de uso de ferramentas por parte das abelhas, porque os animais estão a “pegar em algo e a manipular isso” para moldar o seu ambiente. É uma “descoberta bastante inovadora”, diz Susan Cobey, criadora independente de abelhas e geneticista sediada na Califórnia que não está envolvida no estudo.

A literatura sobre o uso de ferramentas por parte de animais é complexa e por vezes controversa, porque depende da definição usada para “ferramenta”, diz Heather. Já foi demonstrado que há outros insetos que as usam; por exemplo, algumas vespas Sphecidae usam pedras para compactar o solo e proteger os seus ninhos. As ferramentas não precisam de ser itens como paus ou pedras, também podem ser materiais como fezes.

Alguns investigadores não têm a certeza se “mancha fecal” se qualifica como ferramenta: “É um pouco exagerado dizer que esta é a primeira demonstração do uso de ferramentas”, diz por email Stephen Martin, entomologista da Universidade de Salford, no Reino Unido. “Esta espécie também usa folhas para manchar as entradas das colmeias, e há ninhos que são feitos de papel” – comportamentos que também podem ser classificados como uso de ferramentas, diz Stephen.

Bob Jeanne, especialista em vespas da Universidade de Wisconsin-Madison, diz que os autores estão “corretos em dizer que este é o primeiro exemplo do uso de ferramentas por parte de uma abelha... Creio que eles estão a aplicar uma definição razoável”.

Contudo, tanto Stephen Martin como Bob Jeanne concordam que este comportamento é fascinante. “A capacidade dos insetos sociais em nos surpreender continua”, diz Stephen. “Ainda sabemos muito pouco sobre o seu comportamento e este é outro grande exemplo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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