Cancro Terrível que Afeta os Diabos-da-tasmânia Pode Estar a Diminuir

Novas análises genéticas revelam que esta doença, que provoca enormes tumores faciais, é agora menos infecciosa do que há uma década atrás.

Publicado 22/12/2020, 17:28
Um diabo-da-tasmânia em cativeiro posa num tronco no Santuário de Animais Selvagens de Algo, na Tasmânia, ...

Um diabo-da-tasmânia em cativeiro posa num tronco no Santuário de Animais Selvagens de Algo, na Tasmânia, em 2008. Muitos dos animais neste santuário foram separados de pais que sofriam de cancro facial.

Fotografia de Dave Walsh, Alamy

Há quase um ano, desde que os primeiros casos de COVID-19 se propagaram pelo mundo, que a humanidade só fala sobre vírus. Mas, nas últimas três décadas, os diabos-da-tasmânia têm enfrentado a sua própria pandemia – um terrível cancro facial que se propaga através de dentadas.

Os tumores deste marsupial australiano provocam feridas cavernosas na boca que acabam eventualmente por conduzir à morte por fome. Ao contrário de quase todos os outros tipos de cancro, este é contagioso.

A doença do tumor facial do diabo, como é conhecido este cancro, reduziu a população desta espécie de 140.000 animais para cerca de 20.000. A doença propaga-se facilmente porque estes animais ousados costumam morder-se uns aos outros durante a época de acasalamento, ou enquanto se alimentam de restos mortais de outros animais, a sua principal fonte de alimentação.

Muitos especialistas receiam que, se este padrão continuar, a doença possa acabar por fazer com que esta espécie em perigo de extinção desapareça por completo. Para lidar com a situação, cientistas criaram diabos-da-tasmânia em cativeiro e, no início deste ano, reintroduziram 26 animais na Austrália continental. Estes carnívoros de 75 centímetros de comprimento já foram abundantes por todo o continente australiano e no seu estado insular da Tasmânia; hoje, estão reduzidos aos poucos indivíduos que vivem na Tasmânia.

Mas um novo estudo sobre a genómica deste cancro, publicado na revista Science, oferece uma esperança rara: A taxa de infeção da doença entre os “diabos” selvagens diminuiu bastante desde que surgiu, sugerindo que os diabos-da-tasmânia podem coexistir com a doença.

“Isto pode ser muito entusiasmante, porque significa que a doença não está a fustigar as populações naturais como costumava”, diz Austin Patton, líder do estudo e biólogo evolucionista da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “A doença está a abrandar.”

Transmissão reduzida

Este cancro facial foi descoberto pela primeira vez em 1996, embora possa ter surgido nas décadas de 1970 ou 1980. Em 2015, os investigadores concluíram que a doença do tumor facial do diabo era, na verdade, duas condições distintas, conhecidas por DFT1 e DFT2. Embora estas variedades provoquem tumores virtualmente indistinguíveis e levem à morte por fome, os dois tipos de cancro são geneticamente distintos. As suas origens também são independentes: A variante DFT2 surgiu num diabo macho na extremidade oposta da ilha de onde a DFT1 surgiu pela primeira vez, numa fêmea.

“A descoberta da DFT2 feita pelo nosso grupo foi uma grande surpresa para nós, dada a raridade de tumores transmissíveis em vertebrados”, diz Bruce Lyons, imunologista da Universidade da Tasmânia e coautor desse estudo, que foi publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences.

Até agora, foram identificados poucos cancros infecciosos na natureza, incluindo um que afeta cães domésticos e outro que afeta moluscos. (Leia sobre o aumento de cancros raros entre criaturas marinhas.)

Para compreender de forma mais aprofundada como é que a DFT1 se está a mover entre a população de diabos, Austin Patton e os seus colegas utilizaram uma técnica chamada filodinâmica, técnica que normalmente é usada para estudar vírus.

As abordagens de filodinâmica reconstroem a forma como um patógeno se propaga e evolui ao longo do tempo, através de análises dos seus genes. Para fazer esta análise, a equipa de Austin usou amostras recolhidas de 51 tumores de diabos-da-tasmânia desde o início de 2000.

Em 2003, quando a amostragem começou, a equipa descobriu que o cancro se propagava com um fator de cerca de 3.5, diz Austin. Isto significa que sempre que um diabo-da-tasmânia é infetado com a doença, provavelmente transmite a infeção a outros 3.5 animais desafortunados.

Um diabo-da-tasmânia com cancro facial, ao lado de uma carcaça na Tasmânia, na década de 1990.

Fotografia de Dave Watts, Nature Picture Library

Contudo, em 2018, quando a última amostra foi recolhida, Austin e os seus colegas descobriram que a disseminação do cancro tinha descido para um fator de cerca de 1 – o que significa que é pouco provável que este cancro consiga extinguir a espécie, diz Austin.

Mas Austin alerta que isto não é necessariamente uma boa notícia. Uma taxa de transmissão mais pequena pode dever-se simplesmente ao facto de restarem tão poucos diabos-da-tasmânia, ou seja, o cancro não se consegue propagar de forma tão eficaz. O novo estudo também não analisou a DFT2, cuja taxa de infeção permanece desconhecida.

Cancro complicado

Outro estudo, publicado na PLOS Biology em novembro, sugere que a história cancerígena dos diabos-da-tasmânia é ainda mais complicada.

Elizabeth Murchison, geneticista da Universidade de Cambridge, e os seus colegas descobriram que a DFT1 tem cinco tipos diferentes, ou clados, e cada um pode infetar o mesmo diabo-da-tasmânia. É algo semelhante ao que acontece quando o cancro da mama se espalha até ao cérebro, pulmões e fígado, diz Elizabeth por email. “De certa forma, a DFT1 ‘metastizou’ através da população de diabos-da-tasmânia.”

Estas diferenças genéticas podem afetar a recuperação da espécie.

Por exemplo, Bruce Lyons está a trabalhar numa vacina para evitar que os diabos propaguem a doença – mas Bruce precisa de ter em consideração estas complexidades genéticas, algo que pode tornar as coisas ainda mais difíceis.

Da mesma forma, reintroduzir diabos na natureza pode ser contraproducente se os animais criados em cativeiro não tiverem determinadas adaptações evolutivas que os ajudem a combater a doença.

É exatamente por isso que os diabos criados em cativeiro não são libertados na Tasmânia desde 2016, diz Carolyn Hogg, bióloga conservacionista da Universidade de Sydney. Enquanto isso, os diabos recentemente reintroduzidos na Austrália continental nunca tiveram contacto com este cancro.

“As populações continuam a persistir na presença da doença”, diz Carolyn, “bem como na presença de outras ameaças como a consanguinidade, fragmentação de habitat, colisões com veículos e muito mais”.

Apesar de tudo, diz Carolyn, os conservacionistas não vão desistir destes animais: “As pessoas que trabalham com diabos-da-tasmânia na natureza têm sido cautelosamente otimistas”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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