Lémures de Madagáscar Estão a Ser Mortos Durante o Confinamento

Os dados iniciais revelam um cenário preocupante para estes animais e respetivo habitat.

Publicado 21/12/2020, 16:49
Os lémures-rato, como o Microcebus berthae, que estão perigo crítico de extinção, são tão pequenos que ...

Os lémures-rato, como o Microcebus berthae, que estão perigo crítico de extinção, são tão pequenos que cabem na palma da nossa mão. Com a pandemia, à medida que as pessoas centram as suas atenções nas florestas para procurar alimento e combustível, exacerbando assim as décadas de desflorestação, as 107 espécies conhecidas de lémures de Madagáscar correm um perigo ainda maior.

Fotografia de Bruno DAmicis, National Geographic

Tiana Andriamanana ficou alarmada quando viu os incêndios a devorarem as florestas de Madagáscar em março. Tiana já se tinha habituado a ver as queimadas ilegais que são feitas para a expansão agrícola, mas estes incêndios generalizados no início do ano eram extremamente invulgares.

Os fogos intensificaram-se no final de março, quando Madagáscar decretou o confinamento devido ao coronavírus. As pessoas começaram a fugir da capital do país, Antananarivo, e de outras cidades em veículos lotados com destino às áreas rurais. “Esperavam poder trabalhar a terra e produzir rendimento que as ajudasse a sobreviver à crise económica e sanitária”, diz Tiana, diretora executiva da Fanamby, uma organização de conservação sem fins lucrativos em Madagáscar que é responsável pela gestão de cinco áreas protegidas.

Mas trabalhar a terra para se cultivar alimentos como arroz, amendoim e milho significa o derrube de árvores. Em pouco tempo, as nuvens de fumo – sinais de queimadas ilegais – já pairavam sobre as áreas protegidas. Em algumas partes do país, cada vez mais pessoas começaram a derrubar árvores para queimar e converter a madeira em carvão, uma fonte de combustível mais leve e mais fácil de transportar do que a lenha.

Toda esta atividade ilegal nas florestas de Madagáscar é particularmente preocupante para Tiana e para outros conservacionistas devido à grave situação enfrentada pelas 107 espécies de lémures da ilha – primatas que habitam a floresta e que têm olhos arredondados, focinhos longos e caudas felpudas, e que não existem em mais lado nenhum na Terra. Quase um terço destes animais está em perigo crítico de extinção, e os restantes são quase todos considerados ameaçados de extinção, em grande parte devido ao desflorestamento das últimas décadas.

A desflorestação ameaça a biodiversidade espetacular da ilha, que é crucial para uma indústria de turismo que gera quase mil milhões de dólares por ano – até ter sido encerrada pela pandemia.

Fotografia de Adriane Ohanesian, National Geographic

O isolamento geográfico de Madagáscar e os seus diversos tipos de floresta deram origem a um país de maravilhas biológicas, lar de milhares de animais e plantas endémicas que, tal como os lémures, estão a enfrentar a pressão humana.

Muitos investigadores de lémures saíram do país em março; e outros não conseguem viajar para as áreas remotas onde costumam trabalhar. Mas os relatórios de campo feitos pelas patrulhas de conservação florestal que trabalham com funcionários de Madagáscar, mais as sondagens ao domicilio conduzidas por equipas de investigação malgaxes e as análises das imagens de satélite revelam uma situação que está a piorar para os lémures, não só devido à perda de habitat, mas também ao aumento da caça ilegal.

Madagáscar é uma das nações mais pobres do mundo. A desnutrição é generalizada, com quase uma em cada duas crianças com menos de cinco anos a sofrerem de atrasos no crescimento. Muitas pessoas nas áreas rurais dependem da caça de animais da floresta para se alimentarem, mas com o agravamento da pobreza provocada pela pandemia, os lémures são cada vez mais uma fonte frequente de carne, de acordo com Cortni Borgerson, antropóloga da Universidade Estadual de Montclair, em Nova Jersey, que concentra o seu trabalho na caça e consumo de carne de lémure.

Antes da pandemia, o turismo era a pedra basilar da economia de Madagáscar, sustentando mais de 300.000 empregos, e a observação de lémures era muito popular. As receitas do turismo atingiam os cerca de 900 milhões de dólares por ano num país onde a maioria das pessoas vive com menos de 2 dólares por dia. No entanto, sem os voos internacionais, muitos dos empregos dos guias naturais acabaram, assim como os empregos para cozinheiros, funcionários de hotéis e muitos outros. Sem um salário estável, as pessoas voltaram as suas atenções para as florestas à procura de alimento e combustível.

O Indri indri, animal em perigo crítico de extinção, é o maior lémure do mundo.

Fotografia de Taylor Maggiacomo (ILUSTRAÇÃO)

“A COVID-19 criou um sério revés devido ao encerramento temporário do ecoturismo, que é a força vital de algumas destas comunidades”, diz Russell Mittermeier, diretor de conservação da organização sem fins lucrativos Global Wildlife Conservation e presidente do grupo de especialistas em primatas da Comissão de Sobrevivência de Espécies da União Internacional para a Conservação da Natureza.

“As pessoas que trabalham na conservação estão a dar o seu melhor”, diz Tiana Andriamanana. “É um problema, mas é um problema em todo o lado devido à COVID-19.”

Abate de árvores

Entre todas as ameaças enfrentadas pelos lémures de Madagáscar, o derrube adicional de árvores é a mais perigosa, de acordo com Edward Louis, um dos líderes mundiais em investigação de lémures e diretor geral da Parceria de Biodiversidade de Madagáscar, uma ONG do país.

Esquerda: Antes da pandemia, situações como esta – com visitantes entusiasmados com um grupo de lémures sifaka, animais em perigo de extinção, no Parque Nacional de Andasibe-Mantadia – eram comuns nas florestas de Madagáscar.
Direita: Um lémure-castanho no cabelo de uma mulher num hotel na região leste de Madagáscar. Os lémures são mantidos neste hotel para os hóspedes desfrutarem da sua observação.

Fotografia de ADRIANE OHANESIAN, NATIONAL GEOGRAPHIC

Se uma pessoa cortar duas ou três árvores com 50 anos num dia – um número normal, diz Edward Louis – a redução cumulativa de habitat de lémures pode ser desastrosa. Conforme as manchas de floresta diminuem, a fragmentação isola as populações, levando à endogamia. “Para além disso, a escassez de habitat pode desencadear disputas territoriais, levando por vezes a que lémures machos matem animais jovens que não têm parentesco com eles”, diz Edward.

Conseguir determinar com exatidão a extensão da desflorestação – e consequente perda de habitat de lémures – é muito desafiante, sobretudo durante a pandemia. Com base na linha cronológica de anos anteriores, as imagens de satélite de 2020 de todo o país só estarão disponíveis, no mínimo, em maio de 2021, diz Lucienne Wilmé, coordenadora nacional do programa Global Forest Watch para Madagáscar, um esforço de monitorização florestal online que fornece serviços sobre desflorestação no mundo inteiro.

“Os dados do Global Forest Watch baseiam-se na percentagem de cobertura das árvores, portanto, se houver uma abertura, é possível perceber”, diz Lucienne. Mas as “aberturas” na floresta podem não significar a ausência de árvores; em vez disso, podem mostrar lugares onde as árvores que perdem as suas folhas em diferentes épocas do ano aparentam estar ausentes. “É muito complicado e muito diferente de uma floresta para outra.”

Para determinar um quadro mais completo, esta organização também conta com relatórios complementares e observações de campo feitas pelos grupos de pesquisa regionais e organizações sem fins lucrativos. Este trabalho terrestre – que é muito exigente nas regiões remotas e difíceis de alcançar – tornou-se ainda mais difícil durante a pandemia devido às restrições nas viagens. Para além disso, o funcionamento irregular dos serviços de internet pode tornar a partilha de dados quase impossível, diz Lucienne.

De acordo com Tiana Andriamanana – com base no rastreio de cerca de 600 mil hectares de terras protegidas que são geridas pela organização Fanamby – a desflorestação aumentou em média 10% desde 2019. No início de outubro, a organização estimava que mais de 50 hectares tinham sido desflorestados ilegalmente.

Por vezes, os caçadores usam armadilhas feitas de um tronco com um quadrado de pequenos ramos para capturar ilegalmente lémures para obter a sua carne, como acontece na área protegida que vemos nesta imagem.

Fotografia de Adriane Ohanesian, National Geographic

Embora este número possa parecer insignificante, não é, diz Tiana. A maioria das perdas florestais aconteceu em Alaotra-Mangoro, no leste de Madagáscar, e em Menabe, na região oeste. Estas zonas são o lar de espécies em perigo crítico de extinção, incluindo o Indri indri, o maior de todos os lémures, e o Microcebus berthae, um lémure-rato tão pequeno que cabe na palma da nossa mão.

Tiana espera registar reduções adicionais devido às queimadas ilegais que são agora mais frequentes, e que normalmente acontecem por volta de outubro e novembro, antes do início da época das chuvas.

“O número de animais desaparecidos é equivalente ao número de animais comidos.”

por CORTNI BORGERSON, EXPLORADORA DA NATIONAL GEOGRAPHIC

A desflorestação também aumentou em algumas das 43 áreas protegidas, que abrangem 1.6 milhões de hectares geridos pelos Parques Nacionais de Madagáscar, diz o diretor-geral Mamy Rakotoarijaona. Num ano normal, perdem-se cerca de 7000 hectares de floresta, de acordo com Ollier Duranton Andrianambinina, chefe do departamento de sistemas de comunicação e informação dos parques.

Mas Tiana diz que, este ano, as perdas podem ser ainda maiores. Embora os Parques Nacionais de Madagáscar tenham implementado novas tecnologias em 2019, para melhorar a vigilância e os alertas florestais de incêndios, a pandemia reduziu as patrulhas de guardas florestais.

Febre do carvão

De acordo com Edward Louis, da Parceria de Biodiversidade de Madagáscar, independentemente das restrições nas viagens impostas pela pandemia de coronavírus e das leis que proíbem o abate de árvores nas áreas protegidas, as pessoas mais pobres nas cidades do sul têm viajado para as reservas florestais no norte para encontrar emprego a cortar madeira para carvão. “É um grande negócio e as pessoas precisam agora de um salário.”

A organização de Edward tem trabalhado com as autoridades locais para gerir as patrulhas de guardas florestais em Montagne des Français, uma área protegida de floresta seca no norte, e em Kianjavato, uma área protegida no sudeste onde esta organização sem fins lucrativos está a trabalhar para preservar um corredor que liga as áreas remanescentes de floresta natural.

Em Montagne des Français, o habitat exclusivo do lémure-saltador-do-norte – um animal castanho acinzentado de 18 centímetros de altura que é conhecido pelos seus gritos estridentes – as patrulhas identificaram áreas recentemente desnudadas devido à produção de carvão. Cerca de 80% destes lémures foram exterminados nas últimas duas décadas devido à perda de habitat e à caça, e estima-se que existam atualmente menos de cem indivíduos.

“Acabei de regressar da floresta de Manombo, no sudeste, e vi esta reserva especial [de floresta] a arder todos os dias. Isto deixa-me muito triste porque faço investigação sobre lémures naquela floresta desde 1997”, disse em final de novembro Jonah Ratsimbazafy, primatólogo malgaxe e presidente da Sociedade Primatológica Internacional, uma organização de investigação e conservação.

“Com a continuação da pandemia, os próximos seis meses podem ser ainda mais críticos para Madagáscar”, diz Edward Louis que, apesar de atualmente estar no Nebrasca, está em contacto permanente com as suas equipes no país. A demanda por árvores e carne continua, e os efeitos a longo prazo da perda de habitat para os lémures podem não ser evidentes durante algum tempo, diz Edward.

Lémures para comer

Antes de a pandemia atingir a região, os lémures e outros animais na floresta, incluindo os Cryptoprocta ferox, animais parecidos com gatos, e os pequenos Echinops telfairi, parecidos com musaranhos, já eram caçados há muito tempo como alimento, embora a caça de lémures seja proibida desde 1960.

A antropóloga e Exploradora da National Geographic Cortni Borgerson estima que, antes da pandemia, pelo menos 1600 lémures Varecia rubra e 10.000 lémures Eulemur albifrons eram anualmente mortos e comidos.

(Relacionado: Como a pandemia aumentou a caça furtiva no Uganda.)

Cortni diz que as suas análises mais recentes, que ainda não foram publicadas, revelam uma tendência preocupante: As famílias desesperadas por comida, ou que querem vender carne nos mercados locais, estão a voltar-se cada vez mais para a caça. “As populações de Varecia rubra, animais em perigo crítico de extinção, e de Eulemur albifrons, vulneráveis à extinção, estão nos seus níveis mais baixos em 10 anos.”

Em torno do Parque Nacional de Masoala, com base nos relatórios atuais das equipas de investigação de Cortni, onde ela trabalhou durante quase 15 anos, estima-se que a densidade de lémures Eulemur albifrons tenha caído 56% – em 2019 havia de mais de 20 animais por quilómetro quadrado, e este ano registam-se menos de 10.

Muitos dos lémures de Madagáscar, animais que não existem noutro lugar do mundo, passam a maior parte do tempo nas copas das árvores, como as do Parque Nacional de Ranomafana.

Fotografia de Adriane Ohanesian, National Geographic

O destino dos animais que estão a desaparecer não é um mistério. “O número de animais desaparecidos é equivalente ao número de animais comidos.” Cortni chegou a esta conclusão depois de comparar os dados recolhidos semanalmente pelas suas equipas sobre o consumo de animais com informações sobre as contagens de densidade de lémures.

“A densidade populacional de lémures Varecia rubra também caiu – com uma média de 63% só nos últimos 12 meses.” Cortni acredita que a maior parte deste decréscimo deriva da perda de habitat, e cerca de 25% deve-se à caça.

Os relatórios de Ollier Duranton Andrianambinina parecem corroborar as descobertas de Cortni – também indicam um aumento na caça de lémures. Entre janeiro e setembro deste ano, as patrulhas registaram um aumento na caça muito acima do normal – 564 lémures capturados em armadilhas e 132 casos de pessoas a caçar.

Aubin Andriajaona, gestor local da Parceria de Biodiversidade de Madagáscar em Montagne des Français, diz que a desflorestação foi “muito elevada” entre março e junho, e que as patrulhas na área encontraram partes corporais de lémures e pedaços de peles.

Fomentar a consciencialização e fornecer opções

Tiana Andriamanana diz que as equipas de patrulha da Fanamby chegam a encontrar pessoas que não sabem que a queima de árvores é ilegal. Quando isto acontece, diz Tiana, as equipas podem não deter as pessoas, mas explicam que as queimadas são ilegais e as razões pelas quais as árvores são valiosas.

“A pandemia enfatizou a necessidade de se reduzir a dependência de empregos gerados pelo ecoturismo e a necessidade de se criar outras oportunidades de emprego, para aliviar a pobreza que dá origem a comportamentos ilegais.”

Edward Louis concorda e sugere que os negócios existentes – o fabrico de óleos essenciais e produtos de aromaterapia, bem como a produção de baunilha, café e manga – devem ser desenvolvidos e organizados em consórcios.

Mas, para proteger os lémures e ajudar a preservar a natureza selvagem de Madagáscar, a necessidade mais urgente passa pela contenção da pandemia, diz Edward. O reflorestamento vai continuar a ser uma prioridade para substituir o que foi perdido – voltando a ligar o habitat fragmentado dos lémures e a expandir as zonas em torno das áreas protegidas.

“Precisamos de tornar as comunidades locais autossuficientes em termos de segurança alimentar e de saúde”, diz Tiana. “Se não tivermos isso, estas comunidades irão continuar a explorar a floresta.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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