Espécies Invasoras de Cobras com Um Modo Completamente Novo de Locomoção

Esta descoberta surpreendeu os herpetologistas e pode ajudar a explicar o impacto prejudicial da cobra castanha arborícola nos ecossistemas de Guam.

Publicado 20/01/2021, 16:52
A cobra castanha arborícola (aqui fotografada do Zoo Henry Doorly de Omaha) pode atingir 3 metros ...

A cobra castanha arborícola (aqui fotografada do Zoo Henry Doorly de Omaha) pode atingir 3 metros de comprimento.

Fotografia de Joel Sartore, National Geographic Photo Ark

As cobras podem ziguezaguear na areia, saltar entre as árvores e ondular debaixo de água. Agora, os cientistas registaram uma forma completamente nova de locomoção – onde as cobras formam um laço para subir um poste.

A cobra castanha arborícola, um réptil nativo da Austrália, Papua Nova Guiné e de várias ilhas do Pacífico, foi inadvertidamente levada para Guam após a Segunda Guerra Mundial, provavelmente por navios de carga. As cobras propagaram-se rapidamente, destruindo populações locais de vida selvagem e levando à extinção de 10 espécies nativas de aves. Desde então, fizeram-se muitas tentativas para controlar esta espécie invasora – desde ratos com medicamentos a cães detetores de cobras – mas nenhuma teve sucesso.

Em 2016, Julie Savidge e Tom Seibert, ecologistas da Universidade Estadual do Colorado, tiveram uma ideia diferente: instalar cilindros de metal com 20 centímetros de largura – um tipo de defletor usado para dissuadir animais selvagens – nas bases de caixas de ninhos de aves no laboratório de cobras castanhas arborícolas do Serviço Geológico dos EUA.

VEJA AS COBRAS A USAR A LOCOMOÇÃO LAÇO

Os investigadores suspeitavam que estas cobras notívagas não se conseguiam mover pelos cilindros para atacar os estorninhos Aplonis opaca, uma espécie que, embora não esteja ameaçada de extinção, está em declínio em Guam.

Mas estavam enganados. As câmaras de vídeo colocadas perto das caixas experimentais de aves revelaram uma cobra a enrolar o seu corpo em torno do cilindro, usando uma forma semelhante a um “laço” para subir.

“Ficámos a olhar um para o outro em estado de choque. Quer dizer, não era suposto uma cobra conseguir fazer isto”, diz Tom.

A equipa apelidou este comportamento recém-descoberto de “locomoção laço” e detalhou a sua mecânica num artigo publicado em janeiro na Current Biology. É o quinto tipo de movimento de cobra oficialmente reconhecido, para além do retilíneo, ou em linha reta; a ondulação lateral, o clássico ondular; o ziguezaguear, que é usado para atravessar a areia; e a locomoção concertina, um movimento de escalada semelhante a um acordeão.

“É tão invulgar e extravagante”, diz Sara Ruane, bióloga evolucionária da Universidade Rutgers que não participou no estudo. “Eu não conseguia deixar de pensar nisto.”

Cobras no poste

Depois de testemunharem as filmagens das cobras a subirem em forma de laço pelos tubos em 2016, Julie Savidge e Tom Seibert contactaram Bruce Jayne, biólogo da Universidade de Cincinnati, para lhe perguntar se ele já tinha visto algo assim nos seus 40 anos de carreira. “Fiquei ao mesmo tempo atordoado e perplexo”, diz Bruce, coautor do novo estudo.

Mas como o vídeo tinha a imagem acelerada e pouca qualidade, Bruce precisava de ver claramente como é que as cobras estavam a escalar o poste. Tom regressou a Guam em 2019 para configurar uma nova experiência. Ele colocou um tubo de aço num pequeno recinto cercado por paredes de um metro e meio de altura, e colocou um rato morto em cima para servir de isco. Depois, libertou no recinto 15 cobras castanhas arborícolas apanhadas na natureza. Cinco das cobras escalaram o tubo, algo que os investigadores filmaram em alta definição.

Nas imagens, Bruce reparou numa “região de aderência” onde os corpos das cobras, geralmente com mais de um metro de comprimento, se cruzam enquanto escalam. Quando sobem às árvores, as cobras arborícolas geralmente precisam de duas regiões de aderência, algo que conseguem obter envolvendo o corpo duas vezes em torno do tronco – um processo chamado locomoção concertina.

Mas na recém-descoberta locomoção laço, as cobras usam uma só região de aderência como âncora, permitindo-lhes enrolar o corpo apenas uma vez, como um laço. Com esta base sólida, as cobras formam pequenas curvas nos seus corpos com movimentos ondulatórios, impulsionando-se lentamente para cima.

As cobras castanhas arborícolas foram provavelmente introduzidas em Guam no final dos anos 1940 por navios de carga. Estas cobras são nativas de outras ilhas do Pacífico.

Fotografia de Bjorn Lardner, United States Geological Survey

Mas este tipo de locomoção provavelmente não é fácil para as cobras, que estão sempre à procura de comida, diz Bruce.

“Elas acabam muitas vezes por escorregar, e apesar de conseguirem fazer algum progresso ascendente, provavelmente é muito difícil para elas.”

“Muito para aprender”

Os autores do estudo alertam que esta forma de locomoção só foi registada em cobras castanhas arborícolas a escalar postes feitos pelo homem em Guam, não se sabendo portanto se também acontece no seu habitat nativo ou com outras espécies.

Mas os investigadores presumem que este movimento único – e a capacidade de aceder a presas nas copas das árvores – é outra adição a um repertório já de si diverso, algo que pode ajudar a explicar o impacto devastador destas cobras nos ecossistemas de Guam.

“Há todo um conjunto de características nesta cobra que contribuíram para o seu sucesso”, diz Julie Savidge, como a sua dieta abrangente e agilidade, que inclui saltos no ar entre os ramos das árvores.

Julie diz que esta descoberta os levou a testar um novo defletor em forma de cone de gelado que parece impedir que as cobras alcancem as caixas de ninhos. Esse projeto, que cria um ângulo que dificulta a escalada das cobras, será objeto de mais investigações no futuro.

Sara Ruane acrescenta que, embora as cobras castanhas arborícolas sejam muito conhecidas e bem pesquisadas, a sua locomoção recém-descoberta provavelmente teria passado despercebida se não fosse pelo vídeo.

“Isto só revela que ainda há muito para aprender, mesmo nas espécies bem documentadas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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