Os ‘Lobos Gigantes’ Existiram – e Eram Ainda Mais Estranhos do que Pensávamos

Um estudo feito ao ADN dos extintos lobos pré-históricos revela algumas surpresas, entre elas a de que estes carnívoros, que ficaram famosos enquanto animais de estimação fictícios na série A Guerra dos Tronos, não eram parentes próximos dos lobos.

Por Andrea Anderson
Publicado 21/01/2021, 14:16 WET
Lobos pré-históricos, com pelo avermelhado, envolvidos numa luta com lobos. Esta imagem foi feita em 2020 ...

Lobos pré-históricos, com pelo avermelhado, envolvidos numa luta com lobos. Esta imagem foi feita em 2020 pelo artista Mauricio Anton em colaboração com investigadores, que acreditam ser provável que estes animais tivessem o pelo mais avermelhado do que se pensava.

Fotografia de MAURICIO ANTON (ILUSTRAÇÃO)

Ainda antes de aparecerem enquanto animais de estimação fictícios na série A Guerra dos Tronos, os lobos pré-históricos, também conhecidos por lobos gigantes, já tinham cativado a imaginação das pessoas. Pesando cerca de 70 quilos, estas criaturas eram maiores do que os lobos mais pesados da atualidade. Estes animais vaguearam por grandes áreas das Américas e alimentavam-se da megafauna agora extinta, como cavalos da Idade do Gelo e preguiças-gigantes.

Mas há muitas incógnitas sobre estes lobos. De onde vieram? Eram parecidos com os lobos da atualidade? E por que razão desapareceram, há cerca de 13.000 anos, depois de terem sobrevivido durante centenas de milhares de anos?

No primeiro estudo do seu género, investigadores analisaram diversos genomas completos destas criaturas, revelando algumas surpresas. Em vez de partilharem laços genéticos de proximidade com os lobos (Canis lupus), como seria de esperar devido às suas semelhanças, os lobos pré-históricos eram os seus primos evolutivamente distantes, há muito tempo isolados nas Américas.

“Os lobos pré-históricos e os lobos parecem extremamente semelhantes morfologicamente, mas a genética diz-nos que não são intimamente relacionados”, explica Angela Perri, arqueóloga da Universidade Durham e coautora de um artigo publicado na revista Nature sobre a genética dos lobos pré-históricos.

As novas descobertas esclarecem as relações entre os membros da família canina, colocando os lobos pré-históricos (Canis dirus) numa linhagem do Novo Mundo que se separou dos antepassados dos lobos há cerca de 5,5 milhões de anos, adensando ainda mais o mistério em torno da evolução dos lobos pré-históricos e a sua eventual extinção.

“A questão passa agora por saber se a sua extinção esteve relacionada com alterações climáticas e ambientais, ou se os humanos e potencialmente outros cães e lobos [e doenças] ajudaram no seu desaparecimento”, diz Angela Perri.

Esquerda: Uma reconstrução de 2008 do Canis dirus, ao lado de um grupo de mamutes colombianos. Esta imagem usava o mesmo padrão de pelagem dos lobos da atualidade, embora o artista Mauricio Anton tenha substituído a cor do pelo por um tom avermelhado, como aparece na imagem anterior.
Direita: Uma sequência de gravuras de 2008 mostra a reconstrução anatómica dos lobos pré-históricos. Desde então, a única alteração significativa é a pelagem agora considerada castanho-avermelhada; a forma do corpo permanece a mesma.

Fotografia de MAURICIO ANTON (ILUSTRAÇÃO)

Lobo terrível

O lobo pré-histórico – outrora classificado no género Aenocyon, que significa “terrível” – é um carnívoro muito mitificado, conhecido pelo seu tamanho imponente, dentes posteriores especializados para quebrar ossos e propensão para atacar grandes herbívoros. Este era mais um dos animais notáveis que deambulavam pelas Américas, juntamente com diversos felinos, ursos gigantes, preguiças enormes e camelos – uma mistura de criaturas que, quando o período Pleistoceno terminou, não se conseguiu adaptar a um mundo em mudança.

Na verdade, o icónico lobo pré-histórico já cativava a imaginação de Angela muito antes deste estudo. “Uma das minhas questões girava sempre em torno de saber se os lobos pré-históricos ainda existiam quando os humanos chegaram às Américas, e se houve alguma interação entre ambos”, diz Angela, que também estuda as interações entre humanos e animais.

Há vários anos, quando Angela e os seus colegas começaram o estudo do lobo pré-histórico, já sabiam que havia um lugar com muitos fósseis destes lobos: os Poços de Alcatrão de La Brea, uma icónica “armadilha de predadores” onde atualmente fica Los Angeles.

Mas os esforços feitos anteriormente para se extrair trechos substanciais de ADN de lobos pré-históricos, de felinos dentes-de-sabre e de outros animais em La Brea falharam quase todos – o ambiente quente e hostil do local coze e fragmenta o material genético. As tentativas desta equipa não foram muito melhores.

“O poço de alcatrão é quente e borbulhante, e isso não combina muito bem com a preservação de ADN”, explica Greger Larson, coautor do estudo e diretor da rede de investigação paleogenética e bioarqueologia da Universidade de Oxford.

Mas uma das amostras recolhidas em La Brea trouxe algo de novo: uma sequência de proteína de colagénio que permitiu aos investigadores fazer comparações entre lobos pré-históricos e cães domésticos, lobos, coiotes e lobos-dourados-africanos. A conclusão? O lobo pré-histórico era dramaticamente diferente.

Caça ao lobo pré-histórico

Mas a equipa precisava de mais. Quando se tenta definir relações complexas entre canídeos, a sequência de uma só proteína não é muito informativa, diz o coautor do estudo, Laurent Frantz, investigador da Universidade Queen Mary de Londres e da Universidade de Oxford.

Em 2016, Angela Perri começou a cruzar os Estados Unidos de autocarro, em veículos alugados e de avião, numa excursão de recolha de ossos que a levou a museus e coleções de universidades para examinar e recolher pedaços de ossos de lobos pré-históricos, numa tentativa de conseguir ADN suficiente para uma análise genética.

A viagem foi tudo menos fácil. “Tente explicar aos seguranças do aeroporto por que razão tem uma bolsa cheia de lascas de dentes, fragmentos de ossos, uma broca e dispositivos eletrónicos de medição”, diz Angela a rir. Mas o esforço valeu a pena. E tal como Angela suspeitava, alguns investigadores tinham amostras de lobos pré-históricos que nem sequer sabiam.

“Como morfologicamente são demasiado semelhantes aos lobos, muitas pessoas não sabem que têm lobos pré-históricos nas suas coleções. Geralmente chamam-se apenas ‘Lobo’”, explica Angela. “Trabalhei em várias zonas dos EUA, a vasculhar caixas velhas... passei muito tempo sozinha em caves.”

Com a ajuda de colaboradores, Angela e os seus colegas conseguiram gerar perfis genéticos para cinco lobos pré-históricos representativos do Ohio, Idaho, Tennessee e Wyoming.

A amostra mais antiga tinha pelo menos 50.000 anos. A mais recente parecia ter apenas 12.000 anos de idade, sugerindo que alguns lobos pré-históricos se sobrepuseram aos lobos, coiotes, raposas-cinzentas e talvez até aos primeiros humanos.

Os investigadores examinaram os genomas de lobos pré-históricos juntamente com as sequências disponíveis de lobos, coiotes, raposas-cinzentas, lobos-dourados-africanos, lobos-etíopes, mabecos e raposas-andinas; e com novas sequências para o chacal-de-dorso-negro e o chacal-listrado, ambos encontrados em África.

Através de uma série de análises de árvores genealógicas genéticas, a equipa demonstrou que o lobo pré-histórico era um parente distante de outros lobos, mostrando laços relativamente mais próximos com o chacal-de-dorso-negro e o chacal-listrado.

Os investigadores estimam que a linhagem do lobo pré-histórico se separou da que deu origem aos lobos há cerca de 5,5 milhões de anos, e que permaneceu isolada apesar da sobreposição posterior no mesmo território com outras espécies de canídeos durante milhares de anos. Esta reclusão genética é invulgar entre espécies de canídeos com parentesco, que acabam frequentemente por se cruzar.

Ganhar visibilidade

As novas informações genéticas influenciaram o “paleoartista” Mauricio Anton a fazer um novo desenho do lobo pré-histórico, animal que já tinha ilustrado no passado. Por exemplo, o pelo longo e escuro desapareceu, uma vez que se acredita que o pelo negro e outras características tenham entrado nas populações de lobos da América do Norte através da mistura com outros canídeos no continente, algo que os lobos pré-históricos aparentemente não fizeram. As outras semelhanças externas permanecem, incluindo a cabeça e o formato do corpo de lobo.

Para além das implicações na compreensão das origens do lobo pré-histórico e dos eventos que levaram à sua extinção, as novas descobertas apontam para uma evolução independente de características muito semelhantes nos lobos pré-históricos e nos lobos, destacando os benefícios adaptativos de um corpo semelhante ao de um lobo, bem como as diversas formas de canídeos que outrora percorreram diferentes partes do globo.

“O facto de termos esta convergência na forma do corpo, mesmo com um longo período de separação, sugere que a forma do corpo do lobo é muito bem-sucedida, e que assim tem sido durante um longo período de tempo”, diz Robert Losey, arqueólogo antropológico da Universidade de Alberta, que não participou no estudo.

Mas, em última análise, essas vantagens não conseguiram evitar a extinção do lobo pré-histórico. A equipa acredita que as espécies emergentes de cães e lobos possam ter competido com os lobos pré-históricos, ou difundido doenças que os afetaram. As alterações climáticas também podem ter desempenhado um papel, diz Angela.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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