Populações Oceânicas de Raias e Tubarões Colapsaram 70% em 50 Anos

Mas os especialistas dizem que há soluções, como regular o comércio internacional de tubarões e criar pescarias mais sustentáveis.

Publicado 29/01/2021, 14:30 WET
O grande tubarão-martelo (na imagem vemos um destes tubarões a nadar ao largo das Bahamas) está ...

O grande tubarão-martelo (na imagem vemos um destes tubarões a nadar ao largo das Bahamas) está em perigo crítico de extinção.

Fotografia de Brian Skerry, Nat Geo Image Collection

Em alto-mar, longe de qualquer continente, tubarões e raias já foram outrora abundantes. Inúmeros tubarões-anequim, os tubarões mais velozes do planeta, perseguiam as suas presas a velocidades superiores a 30 quilómetros por hora. E vários tubarões-martelo-recortados também já navegaram pelas águas, perscrutando a vastidão do oceano à procura de comida com os seus olhos esbugalhados e outros órgãos sensoriais especializados.

Estes animais percorriam águas abertas tão vastas e inacessíveis que muitos pescadores, e até mesmo alguns biólogos, achavam difícil acreditar que a pesca em excesso os poderia colocar em perigo.

Nicholas Dulvy, copresidente do Grupo de Especialistas em Tubarões da União Internacional para a Conservação da Natureza, diz que, “há uma década, teríamos debates extremamente intensos sobre classificar tubarões oceânicos como ameaçados”.

Agora, uma análise abrangente sobre os números populacionais – atuais e históricos – criou uma imagem mais evidente e séria. Nicholas Dulvy e o coautor Nathan Pacoureau, ambos da Universidade Simon Fraser, no Canadá, descobriram que as populações de 18 espécies de tubarões e raias diminuíram 70% desde 1970, de acordo com um estudo publicado na revista Nature. Os autores alertam que, a este ritmo, muitas das espécies podem desaparecer por completo dentro de uma ou duas décadas.

Quando a equipa de investigação analisou os números do tubarão-de-pontas-brancas, uma espécie comum em 1970, “ficámos atordoados a olhar para os números em silêncio”, diz Nicholas.

“O tubarão-de-pontas-brancas diminuiu 98% nos últimos 60 anos. Este padrão foi consistente em três oceanos.” A União Internacional para a Conservação da Natureza lista agora a espécie em perigo crítico de extinção.

Os tubarões-martelo-recortados e os grandes tubarões-martelo enfrentam um destino semelhante. Embora as pescarias raramente tenham como alvo os tubarões oceânicos, se forem capturados, a sua carne, barbatanas, guelras e óleo de fígado são frequentemente vendidos.

São notícias preocupantes tanto para os tubarões como para a saúde dos oceanos, já que estes predadores de topo desempenham um papel crucial na cadeia alimentar, em parte porque mantêm os predadores mais pequenos sob controlo, segundo os especialistas.

Uma rede de cerco usada para pescar na ilha Iturup, no Extremo Oriente da Rússia. Esta técnica de pesca também captura frequentemente tubarões.

Fotografia de Sergei Krasnoukhov, Getty Images

Mergulhar nos dados

Para o estudo, Nicholas Dulvy e Nathan Pacoureau recolheram todos os dados sobre as 18 espécies mencionadas que conseguiram encontrar pelo mundo inteiro, muitos deles esquecidos em relatórios governamentais ou a acumular poeira em discos rígidos antigos.

O aumento da consciencialização pública sobre a conservação de tubarões fez com que as agências de gestão de pescarias começassem a recolher dados sobre tubarões, fornecendo à equipa um fluxo de informações completamente novas.

A equipa acabou por ficar com 900 conjuntos de dados que abrangem um período que vai desde 1905 até 2018, e cada um representa as mudanças populacionais de uma espécie ao longo do tempo dentro de uma determinada região. Com a ajuda de especialistas internacionais e modelagem computacional, a equipa extrapolou os dados para estimar a alteração global em temos de abundância populacional.

O desenvolvimento de técnicas de pesca em alto-mar também foi levado em consideração. As linhas de pesca intermináveis com centenas de anzóis ou as enormes redes de cerco apanham frequentemente tubarões de forma acidental, e a sua utilização duplicou nos últimos 50 anos – e o número de tubarões oceânicos capturados pelas mesmas quase que triplicou.

Nicholas diz que isto, juntamente com a raridade cada vez maior de tubarões, significa que a probabilidade de um tubarão individual ser capturado é agora 18 vezes maior do que em 1970.

Nicholas acrescenta que a incerteza é uma inevitabilidade na sua análise e que os autores provavelmente subestimaram alguns dos declínios de espécies, particularmente em áreas onde a pesca em excesso aconteceu durante muitas décadas.

Peixes tropicais são os mais atingidos

O maior declínio aconteceu nas populações de tubarões e raias nos trópicos, onde a pesca em mar-alto se expandiu nas últimas décadas.

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À medida que os grandes tubarões e raias se tornam raros, a pesca vira as suas atenções para as espécies mais pequenas, diz Holly Kindsvater, coautora do estudo e  bióloga populacional do Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia, que estudou várias espécies de raias Mobula mobular, algumas das quais podem ter passado por um declínio de 85% nos últimos 15 anos.

Embora as pessoas comam a carne destes animais, as suas guelras tornaram-se recentemente mais populares na medicina chinesa. Esta mudança mostra como os pescadores podem mudar as suas atenções para outras espécies quando as suas presas originais começam a escassear, diz Holly. (Leia sobre os tubarões dos recifes, que também estão em declínio acentuado pelo mundo inteiro.)

“Não creio que haja muitos barcos em alto-mar que visem exclusivamente tubarões e raias. Mas se começamos a pescar atum e já os pescámos em excesso, começamos a pescar outras coisas e também encontramos uma forma de as vender.”

À pesca de soluções

O impacto da pesca excessiva sobre os tubarões, independentemente de ser acidental ou não, deve motivar os governos a imporem mais regulamentações, com o objetivo de tornar a pesca sustentável, diz Nicholas. “Também é importante limitar o comércio internacional de espécies ameaçadas de tubarões e raias.”

Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Uma das propostas que visava proibir a pesca de tubarões-anequim no Atlântico Norte, animais que estão em perigo de extinção, foi recentemente bloqueada pela União Europeia e pelos Estados Unidos, em parte porque o grosso da captura é feita por Espanha, diz Nicholas.

“Os tubarões são a última área por regulamentar e acho que é por isso que há um pouco de resistência na sua gestão.”

Já ficou demonstrado que estes tipos de proibições funcionam com outras espécies, diz David Sims, biólogo da Universidade de Southampton, no Reino Unido, que não esteve envolvido neste estudo. David Sims publicou investigações que revelam sinais de esperança para a recuperação de grandes tubarões-brancos e tubarões-sardo no noroeste do Atlântico, ambas espécies protegidas da pesca. (Descubra seis tubarões fascinantes dos quais provavelmente nunca ouviu falar.)

As outras soluções incluem a criação de reservas marinhas ou o estabelecimento de zonas de proibição de pesca em locais ricos em tubarões, diz David.

Jessica Cramp, fundadora da organização de pesquisa e conservação marinha Sharks Pacific e Exploradora da National Geographic, concorda com as palavras de David. Jessica ajudou a estabelecer várias áreas protegidas e um santuário de tubarões nas ilhas Cook para espécies migratórias.

“Estas ações podem oferecer refúgio para espécies como o tubarão-de-pontas-brancas e o tubarão-seda, espécies que este estudo confirmou estarem em grandes dificuldades.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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