Zebras com Manchas e Listas Estranhas Podem Ser Um Aviso Para o Futuro da Espécie

De acordo com um novo estudo, os animais que têm padrões de pelagem anormais podem ser consanguíneos, “evidências dramáticas” de como a fragmentação de habitat pode afetar a vida selvagem.

Por Lindsay Patterson
Fotografias Por Brenda Larison
Publicado 28/01/2021, 14:29
Uma zebra-das-planícies com uma mancha sobre as listas na sua pelagem, no Parque Nacional Akagera do ...

Uma zebra-das-planícies com uma mancha sobre as listas na sua pelagem, no Parque Nacional Akagera do Ruanda em 2018.

Fotografia de Brenda Larison

Todas as pessoas sabem que as zebras têm listas pretas e brancas. Mas, em alguns casos, estes equinos africanos apresentam padrões de cores invulgares, como enormes manchas pretas ou pelagens douradas com listas mais claras. Também estão a surgir casos de zebras com manchas. Em 2019, na Reserva Nacional Masai Mara do Quénia, cientistas registaram uma zebra com manchas às bolinhas – pequenas manchas brancas sobre um corpo castanho escuro.

Estas anomalias – frequentemente provocadas por mutações genéticas que alteram a produção de melanina, um pigmento natural – são geralmente raras entre mamíferos. Foi por essa razão que a bióloga Brenda Larison ficou surpreendida quando descobriu um número invulgarmente elevado – cerca de 5% – de zebras-das-planícies anormalmente listadas perto do lago Mburo, no Uganda.

Embora as zebras-das-planícies sejam as menos ameaçadas das três espécies, os seus números populacionais caíram 25% desde 2002, com cerca de 500.000 animais em regiões que vão desde a Etiópia à África do Sul. A fragmentação de habitat provocada por vedações, estradas e pelo desenvolvimento humano dispersou as populações de zebras, como a do lago Mburu, em pequenas manchas de terra, impedindo que alguns dos animais migrem entre manadas.

A migração estimula as populações com novos genes, tornando-se na chave para a sobrevivência de uma espécie a longo prazo. A falta de fluxo génico pode levar à endogamia e, em última instância, infertilidade, doenças e outros defeitos genéticos.

“A observação [de zebras com padrões estranhos] levou-me a pensar: Será que parte da razão de eu estar a ver tantas zebras assim é porque esta população é endogâmica?” questiona Brenda, que estuda a evolução das listas de zebras na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Para descobrir, Brenda e os colegas realizaram análises genéticas em 140 zebras-das-planícies – incluindo sete animais com padrões incomuns – de nove regiões em África, incluindo o Parque Nacional Etosha da Namíbia e o Parque Nacional Kruger da África do Sul.

O estudo da equipa, publicado recentemente na revista Molecular Ecology, descobriu que as populações mais pequenas e mais isoladas de zebras tinham uma diversidade genética mais reduzida – o que não é uma surpresa. Mas o estudo também revelou que estes grupos isolados eram mais propensos a produzir zebras com listas anormais, sugerindo que estas mutações genéticas são provocadas pela pobreza da sua diversidade genética.

Embora o estudo só tenha observado sete animais com padrões estranhos, os resultados podem ser um alerta visual para o futuro das zebras-das-planícies, diz Brenda.

“Mesmo que as zebras-das-planícies não estejam muito ameaçadas, estes problemas genéticos costumam surgir antes de as coisas realmente problemáticas começarem a acontecer.”

Esquerda: Uma zebra-das-planícies loira, ou dourada, ao lado de um animal de coloração normal na Mount Kenya Wildlife Conservancy em julho de 2018.
Direita: Uma cria com pseudo-melanismo – uma mutação genética rara onde os animais exibem algum tipo de anormalidade no seu padrão de listas – bebe água no Parque Nacional Etosha da Namíbia em novembro de 2011.

Fotografia de Brenda Larison

Lacunas genéticas

É possível que as listas invulgares destaquem as zebras para os predadores; por exemplo, a maioria dos casos registados de zebras com manchas às bolinhas acontecem em crias, e não em adultos. Contudo, dentro dos seus grupos familiares, as zebras não se parecem importar com quem tem listas ou manchas, diz Brenda, cuja investigação mais recente sugere que as listas ajudam as zebras a evitar as dentadas de moscas.

Brenda diz que a preocupação mais imediata é a saúde genética das zebras-das-planícies. Nas suas análises, Brenda e colegas usaram técnicas avançadas de sequenciamento genético para estudar de perto as diferenças não só entre as zebras consanguíneas, mas também entre as populações de zebras em locais distintos. (Veja imagens de uma girafa branca e outros animais pálidos invulgares.)

“Descobrimos que, devido à pressão dos humanos, algumas populações podem estar a divergir mais do que em circunstâncias normais”, diz Brenda, cujo trabalho é financiado pela National Geographic Society.

Por outras palavras, as zebras estão a tornar-se geneticamente mais semelhantes dentro das suas populações, mas essas populações estão a ficar mais distantes geneticamente – refletindo a sua separação física. Isto pode levar a novas subespécies de zebras-das-planícies.

Problemas de conservação

“Isto é preocupante”, diz Desire Dalton, que estuda genética de vida selvagem no Instituto Nacional de Biodiversidade da África do Sul, em Pretória, “porque uma das principais ferramentas dos conservacionistas de zebras é a translocação – mover membros individuais de uma população para procriarem noutra”.

Se geneticamente as populações forem demasiado diferentes umas das outras, pode acontecer o oposto da consanguinidade, ou exogamia, que provoca anormalidades quando os genes são demasiado diferentes.

Há investigações que se contradizem sobre quais são as populações de zebras-das-planícies que se podem estar a tornar geneticamente distintas, ou a transformar em subespécies. Os cientistas ainda não conseguiram chegar a um consenso sobre como se deve definir e agrupar essas subespécies.

Mas Desire Dalton concorda com a equipa de Brenda Larison de que é fundamental definir esses grupos para gerir a espécie. (Descubra como as pessoas estão a ajudar a zebra-de-grevy, uma espécie rara, a sobreviver à seca.)

“É imperativo ter a certeza sobre quais são as populações que se podem misturar e as que se devem manter separadas”, diz Desire.

“Não esperem”

“Este novo estudo também é um alerta para ficarmos atentos a outras espécies africanas que atualmente podem não aparentar estar em apuros”, diz Philip Muruthi, vice-presidente para a conservação de espécies da Fundação de Vida Selvagem Africana em Nairobi, no Quénia.

Por exemplo, Philip está preocupado porque a zebra-das-planícies pode estar a seguir os passos de outra espécie africana emblemática, a girafa.

Devido maioritariamente à perda de habitat e à caça furtiva, as girafas tiveram um declínio de 30% na sua população nos últimos 30 anos; a União Internacional para a Conservação da Natureza considera agora as girafas vulneráveis à extinção. No entanto, este fenómeno ainda é tão desconhecido que foi apelidado de “extinção silenciosa”.

“É por todas estas razões que o estudo das zebras é crucial”, diz Philip Muruthi. “Ao destacar a possibilidade de as espécies comuns já poderem estar a enfrentar problemas de conservação, o estudo está a dizer que o problema já está aqui. Não esperem.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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