A maior população mundial de rinocerontes caiu 70% numa década

O Parque Nacional Kruger da África do Sul foi atingido por caçadores ilegais, corrupção e seca.

Fotografias Por Brent Stirton
Publicado 5/02/2021, 14:35
Muitos dos rinocerontes em reservas privadas na África do Sul – como estes no rancho de ...

Muitos dos rinocerontes em reservas privadas na África do Sul – como estes no rancho de caça de John Hume em Nelspruit – não têm os chifres para reduzir as probabilidades de serem mortos por caçadores furtivos. Mas os chifres crescem novamente a cada poucos anos, o que torna esta estratégia muito dispendiosa para os parques públicos com pouco financiamento, como é o caso do Parque Kruger.

Fotografia de BRENT STIRTON

Os rinocerontes no Kruger, a joia dos parques nacionais da África do Sul, estão em perigo.

O número de rinocerontes no parque caiu cerca de 70% durante a última década, em grande parte devido à caça ilegal e aos seus efeitos indiretos na reprodução e sobrevivência de crias, de acordo com uma nova análise feita pela Parques Nacionais da África do Sul (SANparks), organização que gere o Parque Kruger e outros 18 parques no país.

O Kruger é agora o lar de menos de 4.000 rinocerontes, mas em 2010 tinha mais de 10.000. Esta população está dividida entre 3.549 rinocerontes-brancos, animais com lábios quadrados, e 268 rinocerontes-negros, que têm lábios superiores pontiagudos que os ajudam a arrancar frutos das árvores. Os rinocerontes do Kruger representam cerca de 30% dos estimados 18.000 rinocerontes selvagens no mundo.

“Estas perdas são extremamente preocupantes, mas sabemos que os rinocerontes estão a passar por uma morte lenta há algum tempo – estas são apenas as notícias oficiais”, diz Grant Fowlds, embaixador de conservação do Projeto Rhino, uma organização sul-africana sem fins lucrativos.

A caça furtiva de rinocerontes fêmea tem sido particularmente prejudicial porque cada fêmea pode ter até 10 crias durante a vida, e as crias sem mãe costumam morrer, diz Michael Knight, presidente do grupo de especialistas em rinocerontes africanos da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), organização que avalia o estado de conservação de animais selvagens.

Os chifres de rinoceronte são vendidos para utilização na medicina tradicional ou para esculturas, principalmente na China e no Vietname, embora também exista um mercado nos Estados Unidos. O Kruger, que se estende por mais de 19.400 quilómetros quadrados, é há muito tempo o epicentro da caça furtiva de rinocerontes na África do Sul.

Contudo, depois de atingir o pico em 2014, quando mais de 800 rinocerontes foram mortos pelos seus chifres, a caça furtiva de rinocerontes no Kruger tem vindo a diminuir. Desde então, os números relativos à caça furtiva caíram mais de metade.

A seca que se prolongou desde 2015 até 2016 provocou mais perdas, diz Michael. Os rinocerontes reproduziram-se menos e as mães desidratadas produziram menos leite, com a desnutrição a provocar a morte de crias. Durante a seca, a comida era escassa e os rinocerontes-brancos foram particularmente afetados pela falta de vegetação para comer; e morreram a um ritmo que atingiu o dobro taxa atual, de acordo com o Departamento do Meio Ambiente, Silvicultura e Pesca da África do Sul.

Novas formas de ajudar rinocerontes

Apesar das notícias sombrias, as tecnologias de vigilância direcionada no parque (frequentemente focadas na salvação de fêmeas em idade reprodutiva) e algumas detenções sonantes de caçadores furtivos têm ajudado. De acordo com a SANparks, a caça furtiva diminuiu 21.6% entre 2018 e 2019 (e a caça furtiva de elefantes caiu 43.8%).

Para ajudar a proteger os rinocerontes, a SANparks está a levar alguns dos animais do Parque Kruger para áreas mais seguras, como outros parques nacionais – um esforço que foi interrompido durante anos devido a um surto de tuberculose entre os rinocerontes.

Quando se retiram os chifres aos rinocerontes, uma protuberância de aproximadamente dez centímetros é deixada para proteger o tecido na base do chifre. Os chifres contrabandeados são muito procurados para a medicina tradicional e para esculturas, sobretudo na China e no Vietname.

Fotografia de Brent Stirton

Retirar os chifres aos rinocerontes no Kruger, uma estratégia comum de combate à caça furtiva nos parques privados mais pequenos da África do Sul, seria extremamente dispendioso. Este processo requer um helicóptero, um veterinário experiente e custa entre 600 e 1.000 dólares por cada rinoceronte, diz Grant Fowlds, e não é uma despesa única porque os chifres voltam a crescer a cada poucos anos. (Os chifres de rinoceronte são feitos de queratina – a mesma substância que temos nas unhas – pelo que este processo, quando é feito corretamente, não magoa os animais.)

Obstáculos no caminho

A SANparks diz que a corrupção interna é um “flagelo que afeta severamente a equipa e as operações anti-caça furtiva, bem como a reputação da SANParks”.

“Os grupos de caça furtiva conseguiram infiltrar-se entre os guardas florestais do Kruger – e noutros parques e reservas – como se pode ver pelas detenções”, diz Cathy Dean, CEO da Save the Rhino International, uma organização sem fins lucrativos sediada em Londres.

Durante o ano passado, foram caçados 394 rinocerontes nos parques do país, a maioria no Kruger. Os confinamentos devido ao coronavírus dificultaram inicialmente as viagens em torno do parque, reduzindo a caça ilegal. Mas, à medida que as restrições foram sendo levantadas, a caça ilegal aumentou, particularmente em dezembro.

Em 2020, foram detidos 66 alegados caçadores de rinocerontes no Kruger. Fora do parque, foram detidas 90 pessoas por caça furtiva e tráfico de chifres de rinoceronte. Mas, de acordo com Michael Knight, os processos judiciais provavelmente vão ser morosos devido ao polémico encerramento do Tribunal Regional de Skukuza, o “tribunal dos rinocerontes”, localizado no Kruger. O tribunal de Skukuza é conhecido pelo seu índice elevado de condenações de caçadores furtivos e por pesadas sentenças de prisão.

A organização Parques Nacionais da África do Sul, que gere o Parque Kruger, trabalha com especialistas forenses da polícia para tentar capturar os caçadores de rinocerontes. As evidências de ADN que ligam os chifres aos animais abatidos podem ajudar a condenar os caçadores ilegais.

Fotografia de BRENT STIRTON

Embora os 303 rinocerontes caçados no Kruger, entre abril de 2019 e março de 2020, tenham ficado abaixo dos 500 que a SANparks previa para esse período, e apesar de uma redução de quase 22% em relação ao ano fiscal anterior, Grant Fowlds não está otimista. “Existem menos rinocerontes para matar, pelo que é mais difícil para os caçadores ilegais conseguirem encontrá-los.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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