Os animais de estimação estão a ajudar-nos a lidar com a pandemia – mas podem ser afetados pelo stress

Alguns donos de animais de estimação estão a reparar em alterações comportamentais, ao mesmo tempo que se preocupam mais com o bem-estar dos seus animais durante o confinamento.

Por Rachel May
Publicado 5/02/2021, 14:11
Um cão de terapia chamado Casey interage com Janice – cujo sobrenome não foi divulgado – ...

Um cão de terapia chamado Casey interage com Janice – cujo sobrenome não foi divulgado – em Massachusetts no dia 20 de abril de 2020. Este husky siberiano forneceu apoio a Janice e a outras pessoas que vivem com ela durante a pandemia de COVID-19.

Fotografia de HANNAH REYES MORALES

À medida que a pandemia de coronavírus continua, uma coisa é evidente: muitos de nós estamos a recorrer a animais de estimação para nos ajudar a lidar com este momento complicado.

De facto, com as pessoas fechadas em casa, a adoção ou acolhimento de animais de estimação, sobretudo cães, aumentou pelo mundo inteiro, desde o Canadá até à Índia. Nos EUA, entre março e setembro de 2020, o número de animais de estimação adotados aumentou 8%, de acordo com a PetPoint, organização que recolhe dados sobre a adoção de animais.

Embora os benefícios de se ter um animal de estimação sejam bem conhecidos – desde a redução da pressão arterial à diminuição do stress – estas relações são complexas, e a forma como donos e respetivos animais de estimação estão a lidar com os longos períodos de confinamento é uma questão que permanece em aberto.

Investigadores de Espanha, Israel e Reino Unido fizeram sondagens online com donos de animais de estimação dos seus países. Estes estudos, publicados em três revistas científicas separadas, descobriram que, de modo geral, os nossos amigos animais proporcionam um conforto adicional.

Mas estas investigações também revelaram alguns desenvolvimentos preocupantes: as restrições associadas à pandemia estão a deixar os donos de animais preocupados com o bem-estar dos seus companheiros. Para além disso, alguns animais de estimação estão a exibir sinais de stress, como por exemplo ladrando mais, receando ruídos altos ou repentinos e sentindo ansiedade quando estão sozinhos em casa.

Em abril de 2020, Jon Bowen, consultor de psicologia comportamental no Royal Veterinary College de Londres, perguntou a 1.297 donos de cães e gatos em Espanha o que sentiam em relação aos seus animais de estimação e sobre o comportamento recente dos seus animais. A maioria dos entrevistados disse que os seus animais de estimação forneceram um “apoio substancial” durante a pandemia, mas 62% dos entrevistados disseram que a qualidade de vida dos seus animais estava a diminuir. Cerca de 41% relataram ter observado alterações comportamentais nos seus animais durante a pandemia, maioritariamente em cães que já tinham problemas de comportamento no passado.

Várias pesquisas mostram que os cães têm emoções e que podem absorver o que os donos estão a sentir – sobretudo se o dono for emocionalmente dependente do animal, diz Jon Bowen, cujo estudo foi publicado em maio de 2020 na Journal of Veterinary Behavior.

“É realmente interessante que as descobertas dos três estudos sejam notavelmente semelhantes”, diz Emily McCobb, professora associada na Escola de Medicina Veterinária Cummings da Universidade Tufts, que não participou em nenhum dos estudos. “Os resultados são muito semelhantes ao que ouvimos dizer aqui [nos EUA].”

“As pessoas estão a adotar mais animais de estimação e a descobrir que os animais ajudam a lidar com o isolamento”, diz Emily. “Enquanto veterinários, estamos a ver que, para os animais que já tinham problemas de comportamento, esses problemas parecem estar a piorar.”

Novas ansiedades

Em abril e junho de 2020, Elena Ratschen, professora na Universidade de York, em Inglaterra, entrevistou 5.926 pessoas no Reino Unido sobre a sua saúde mental, bem-estar e solidão, bem como os vínculos e interações com os seus animais de estimação.

A sondagem, publicada na revista PLOS ONE em setembro de 2020, incluía todos os tipos de animais de companhia, como peixes, pássaros, cães, gatos e pequenos mamíferos. A maioria dos entrevistados – incluindo 91% dos donos de cães, 89% dos donos de gatos e 95% dos donos de cavalos e animais de quinta – disse que os seus animais de estimação “constituíam uma fonte importante de apoio emocional”, diz Elena Ratschen.

Os entrevistados que antes dos confinamentos já estavam mais vulneráveis a problemas de saúde mental disseram que estavam a sentir laços mais fortes com os seus animais durante a pandemia.

Em geral, os donos de animais de estimação disseram que se sentiam menos solitários e isolados do que as pessoas que não têm animais. Isto pode dever-se a um “efeito amortecedor”: os animais de estimação não substituem as nossas interações sociais com outros humanos, mas podem ajudar a preencher essa lacuna, diz Elena. (Descubra como os cães são ainda mais parecidos connosco do que imaginávamos.)

Os estudos feitos em Espanha e no Reino Unido observaram novas preocupações entre os donos de animais de estimação, incluindo se o cão está a fazer exercício suficiente, preocupações com a capacidade de comprar ração, obter acesso a cuidados veterinários, descobrir quem cuidaria do animal em caso de doença e a incerteza de como o animal de estimação se vai adaptar à vida pós-pandemia.

Os animais não são um remédio para todos os males

Elena diz que os resultados da sua sondagem não suportam o pressuposto amplamente aceite de que os animais de estimação nos protegem contra a degradação da saúde mental e aumento da solidão.

“As evidências sobre os benefícios dos animais de estimação são geralmente díspares, tanto nas investigações antes da pandemia como durante a pandemia”, diz Elena, “porque as pessoas têm muitas preocupações relacionados com os seus animais de estimação”.

Por outras palavras, não são necessariamente situações onde obter um cão nos ajuda a lidar com a pandemia de uma forma mais saudável, como muitos podem acreditar.

Megan K. Mueller, professora assistente de interação humano-animal na Escola de Medicina Veterinária Cummings da Universidade Tufts, concorda com as palavras de Elena.

“Alguns dos meios de comunicação que vejo dizem coisas do género: ‘Solitário durante a pandemia? Você devia ter um animal de estimação!’ Mas é mais complicado do que isso, e a ciência está a começar a comprová-lo”, diz Megan.

Melhorar as relações humano-animal

Quando Liat Morgan, bolseira de pós-doutoramento na Universidade de Telavive, fez uma sondagem onde participaram 2.906 donos de cães israelitas entre março e abril de 2020, Liat encontrou um aumento significativo nos pedidos de adoção.

“Contudo, o mais surpreendente é que quase 80% das pessoas que adotaram um cão em 2020 já estavam a planear adotar, e sabiam no que se estavam a meter”, diz Liat. Isto sugere que as pessoas não estavam a levar impulsivamente um novo animal de estimação para casa.

Semelhante ao estudo de Jon Bowen, a investigação de Liat Morgan também revelou que uma pessoa que sente que a sua qualidade de vida diminuiu pode pensar que o comportamento dos seus animais de estimação também piorou, mesmo que isso não seja verdade.

“Não interessa realmente se o cão tem objetivamente um mau comportamento”, diz Liat. “O que importa é a atitude da pessoa.”

“Os comportamentos mais difíceis, como ladrar excessivamente, são uma das razões que as pessoas citam para abandonar os seus animais de estimação.”

De acordo com o estudo, publicado em novembro na revista Humanities and Social Sciences Communications, a maioria dos entrevistados na sondagem israelita – mesmo os que sentiam que a sua qualidade de vida tinha diminuído – não planeava abandonar os seus animais de estimação.

Ainda assim, pelo menos nos EUA, os especialistas preveem um aumento no abandono de animais de estimação devido à pandemia, por razões que variam entre a incapacidade de cuidar dos animais ou falta de acesso a alojamentos acessíveis para os animais de estimação.

Emily McCobb diz que, para evitar o abandono de animais de estimação, os governos locais e organizações sem fins lucrativos devem apoiar os donos dos animais que têm mais necessidades. Por exemplo, no Canadá e noutros países têm surgido bancos alimentares para animais.

Alguns fatores positivos da pandemia

Os especialistas enfatizam que há algumas coisas positivas nas suas investigações.

Embora o estudo espanhol tenha descoberto um aumento nos problemas comportamentais de alguns animais de estimação, Jon Bowen diz que os dados adquiridos em vários países sugerem que os animais de estimação estão, na sua maior parte, a lidar bem com a situação.

Jon Bowen, tal como Liat Morgan, adverte que os entrevistados no estudo espanhol avaliaram a qualidade de vida dos seus cães com base nas suas próprias experiências, e podem pensar que, se eles se sentem pior, os seus animais também se devem sentir pior.

“Mas quando olhamos para os efeitos da pandemia, grande parte desses efeitos não são muito acentuados”, diz Jon Bowen. “Na minha investigação, quase nenhum cão teve novos problemas de comportamento, e entre os que já tinham problemas de comportamento, nem todos pioraram.”

Olhando para o futuro, Emily McCobb diz: “Seria bom conseguirmos manter algumas das mudanças que tivemos de fazer no nosso estilo de vida por causa da pandemia, como almoçar em casa ou passar mais tempo a passear os nossos cães.”

“Os pontos positivos são poucos e dispersos, pelo que devemos mantê-los se conseguirmos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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