A Resposta dos Carnívoros a Diferentes Modelos de Gestão e Conservação

Gonçalo Curveira-Santos instalou quase 300 câmaras para avaliar o papel das áreas protegidas e das reservas privadas na conservação de 13 espécies de carnívoros na África do Sul.

Publicado 2/02/2021, 09:08 WET, Atualizado 2/02/2021, 13:05 WET
Gonçalo Curveira-Santos

O biólogo de conservação Gonçalo Curveira-Santos durante trabalho de campo.

Fotografia de Laura Gigliotti

Gonçalo Curveira-Santos, explorador da National Geographic, estuda a ocupação de mamíferos carnívoros em diferentes habitats na África do Sul e dedicou-se recentemente à análise da desigualdade na conservação em áreas protegidas tradicionais e reservas privadas de ecoturismo ou de caça. O biólogo de conservação pretendia perceber como os carnívoros sul africanos alvo de menos estudos respondem a modelos e medidas de conservação diferentes.

Os resultados, publicados na revista Journal of Applied Ecology, revelaram que as medidas de gestão canalizadas para a megafauna carismática com um elevado valor de mercado, como os leões e as chitas, têm um efeito desigual  na conservação dos restantes carnívoros capazes de transpor vedações entre propriedades e que não são ativamente geridos, geralmente os mais pequenos e elusivos mas também grandes felinos como o leopardo. 

Durante o percurso de formação passou pela Universidade de Uppsala e desenvolve agora o seu trabalho no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Climáticas (cE3c) na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Leia a nossa conversa com Gonçalo Curveira-Santos sobre o impacto da pandemia nos esforços de conservação e a sua explicação de como pode implementar-se uma gestão mais holística da vida selvagem.

Explique o seu trabalho numa frase.
Sou um biólogo da conservação, atualmente a investigar comunidades de mamíferos na África Austral, principalmente carnívoros, como modelo para compreender as respostas da vida selvagem a modelos de conservação alternativos e paradigmas de gestão atuais.

O que o entusiasma todos os dias no seu trabalho?
Desde muito novo percebi que queria, de alguma forma, poder contribuir para proteger a natureza e a vida selvagem; primeiro apenas por fascínio e mais tarde por uma consciência crescente dos riscos e ameaças. À medida que o meu interesse pela ciência foi também crescendo, percebi que a investigação e o conhecimento científico eram as ferramentas com as quais mais me identificava para esse objetivo. O satisfazer da minha curiosidade em desvendar um pouco mais da complexidade fascinante da natureza, e com isso poder contribuir mais um pouco para a conservação, é algo que me entusiasma todos os dias. A minha linha de trabalho acaba por ser uma expressão natural desta motivação com os temas, espécies e sistemas que mais me fascinam, como os carnívoros e África.

Leopardo (Panthera pardus) numa das imagens de armadilhagem fotográfica obtidas no âmbito do estudo realizado com financiamento parcial da National Geographic Society (NGS). 

Fotografia de Gonçalo Curveira-Santos

Há um desequilíbrio na gestão e conservação da vida selvagem na África do Sul. Quão perigoso é este cenário?
O contexto de conservação na África do Sul é de facto complexo, e também por isso tão interessante. A África do Sul é um país pioneiro na implementação de abordagens descentralizadas para a conservação. A atribuição de direitos privados sobre a vida selvagem transformou profundamente a paisagem de conservação, com a indústria privada de vida selvagem (ecoturismo e caça) a desempenhar um papel importante no aumento e conexão de áreas protegidas formais. Este modelo é considerado um sucesso económico e político de conservação, com particular expressão em espécies mais carismáticas (por exemplo os big five:  leão, elefante, búfalo, leopardo e rinoceronte) ou de maior valor económico, mas os impactos sobre a maioria das espécies são ainda desconhecidos.

“Áreas protegidas formais e antigas desempenham um papel fundamental que não pode ser replicado facilmente.”

O nosso trabalho apoiado pela NGS sobre carnívoros sul africanos mais negligenciados em termos de investigação e desconectados das medidas de gestão (a maioria das espécies), sugere que áreas protegidas formais e antigas desempenham um papel fundamental que não pode ser replicado facilmente, seja pela sua dimensão temporal ou por prioridades de gestão. Os nossos resultados apoiam a noção de que as reservas privadas e as fazendas de caça desempenham um papel complementar às áreas formalmente protegidas, mas que não é necessariamente o mesmo, e podem não ser uma panaceia de conservação.

A conservação da natureza deve ser a prioridade nas áreas protegidas enquanto nas áreas privadas a conservação está intrinsecamente condicionada por interesses económicos, seja o ecoturismo ou a produção. É necessária bastante mais investigação para perceber em que medida ou em que circunstâncias estas dimensões podem estar alinhadas sobre uma perspetiva mais holística da biodiversidade e dos processos ecológicos. É atraente transferir a conservação para o sector privado, mas para avaliar os benefícios de conservação de o fazer são necessários alguns parâmetros de referência, e as áreas protegidas sob proteção formal de longo prazo são referências importantes para um “estado natural”. Penso que é um risco negligenciar o investimento necessário para garantir manutenção a longo prazo de paisagens mais pristinas e habitats “antigos”, que normalmente se encontram sob o estatuto de áreas protegidas.

Como pode implementar-se uma gestão mais holística da vida selvagem que permita implementar planos de conservação mais eficazes?
A capacidade de implementar medidas de conservação mais holísticas e eficazes, requer também uma abordagem holística. Para uma conservação da natureza baseada na evidência, o suporte terá sempre de ser um conhecimento profundo da ecologia dos sistemas alvo e em resposta a medidas de gestão implementadas. Desde logo, precisamos de um foco de investigação maior nas espécies menos emblemáticas e, fundamentalmente, nos processos ecológicos, que nos permita avaliar de uma forma mais compreensiva a eficácia de modelos alternativos (por si só algo extremamente difícil, até porque não é fácil definir um consenso do que é mais “eficaz”). É neste contexto que se enquadra a minha investigação.

Depois disso, a capacidade de implementar medidas mais eficazes está dependente do conciliar de várias esferas políticas, sociais e económicas. Mas mais importante, acredito que a capacidade de o fazer com sucesso irá sempre depender essencialmente da valorização que seja feita pela sociedade, na África do Sul e a nível global, da conservação da natureza, tanto em termos de recursos como de investigação.

Seis das 13 espécies de grandes, médios e pequenos carnívoros alvo deste estudo, entre as mais de 7000 fotografias obtidas através de armadilhagem fotográfica.

Fotografia de Gonçalo Curveira-Santos

Quais os impactos da pandemia de COVID-19 na vida selvagem?
Só agora estamos a começar a descobrir os reais impactos da pandemia na vida selvagem. Em vários lugares, o confinamento coletivo e redução de várias atividades nefastas podem ter efeitos positivos, mas em África (onde foco o meu trabalho) o cenário é distinto. A pandemia COVID-19 ameaça os esforços de conservação em África com uma ‘tempestade perfeita’ de menor financiamento e menor, ou mesmo esgotada, capacidade de gestão das inúmeras áreas protegidas ou reservas privadas, a quebra acentuada da indústria ecoturística e colapso de empresas de gestão de recursos naturais comunitárias, e o consequente aumento de várias ameaças (por exemplo, caça furtiva). Mais que nunca, é crucial uma colaboração ativa entre governos locais, a comunidade internacional, doadores e profissionais de conservação para a implementação de novos, e mais resilientes, modelos de conservação que beneficiem os humanos e a vida selvagem a longo prazo.

Gonçalo Curveira-Santos instala duas das 294 armadilhas fotográficas – câmaras ativadas pelo movimento que fotografam de forma automática os animais quando passam – em KwaZulu-Natal, no nordeste da África do Sul. 

Fotografia de Michael Langley

Como é que a bolsa da NGS o ajudou?
A bolsa de Early Career da NGS foi um apoio crucial para a minha investigação e proporcionou-me aquele que foi, provavelmente, o melhor período da minha vida. Esta bolsa permitiu-nos implementar uma amostragem de armadilhagem fotográfica (câmaras ativadas por movimento e calor) por toda a extensão da Reserva de Caça uMkhuze, área protegida criada há mais de 100 anos, parte do Parque da zona húmida de iSimangaliso (Património Mundial da UNESCO) na província de KwaZulu-Natal. Isto foi fundamental, pois esta área foi a referência de conservação no nosso estudo comparativo.

Como experiência pessoal, significou viver vários meses rodeado e integrado na natureza e vida selvagem da savana africana, em contacto permanente com megafauna, desde elefantes e rinocerontes a leões e leopardos, e palmilhar diariamente (com alguma adrenalina e segurança relativa) algumas das paisagens mais bonitas que já vi. Foi particularmente especial para mim por África ser também um sonho muito antigo. Mesmo depois de finalizado o projeto, o apoio da NGS tem sido instrumental na visibilidade dos nossos resultados e nas várias oportunidades de crescimento pessoal e profissional dentro da vasta e incrível rede de exploradores da NGS. 

Se pudesse pedir um desejo para o Planeta, qual seria?
Que conseguíssemos, como sociedade global, parar por um minuto para repensar o que consideramos ser mais importante, reduzirmos as enormes desigualdades e valorizarmos mais a natureza.
 

Acompanhe o trabalho de Gonçalo Curveira-Santos na sua conta de Twitter e no Instagram.

O Big Cat Month dá destaque aos grandes felinos ao longo de fevereiro no National Geographic Wild, com programação especial todos os dias do mês.

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