Lémure que morreu de tuberculose foi provavelmente vítima do comércio ilegal de animais de estimação

Esta doença, encontrada num lémure-de-cauda-anelada de estimação, nunca foi relatada em lémures selvagens.

Publicado 24/02/2021, 16:32 WET
Lemur rehabilitation center Madagascar

Em Madagáscar, desde 1962 que é ilegal ter lémures como animais de estimação. Mas os lémures-de-cauda-anelada, como este fotografado num centro de reabilitação no sul do país, continuam a ser caçados para o comércio de animais de estimação.

Fotografia de Louise Jasper

Quando foi entregue a um centro de resgate no sudoeste de Madagáscar em abril de 2019, o lémure-de-cauda-anelada estava extremamente magro e sofria de um avançado estado de tuberculose. Uma massa alarmante do tamanho de uma bola de golfe projetava-se do lado esquerdo do pescoço do animal.

“É praticamente certo que vivia como animal de estimação na casa de alguém e contraiu tuberculose por partilhar alimentos, pratos ou o ar com um humano infetado”, diz Marni LaFleur, antropóloga da Universidade de San Diego, na Califórnia, que integrou a equipa que documentou o caso. As descobertas da equipa aparecem na última edição da revista Emerging Infectious Diseases.

Apesar dos esforços para o salvar, o animal morreu três meses depois. O lémure tinha menos de um ano de idade, mas na sua curta vida parece contraído tuberculose a partir de um humano – um fenómeno conhecido por zoonose reversa.

“As fotografias no Instagram mostram turistas a alimentarem lémures com bananas diretamente das suas bocas, aumentando as probabilidades de transmissão de doenças.”

Quase um terço das 107 espécies de lémures – animais que só existem em Madagáscar – estão em perigo crítico de extinção. O comércio de lémures de estimação é proibido em Madagáscar desde 1962, mas atualmente estima-se que os malgaxes tenham mais de 30.000 lémures como animais de estimação. Os lémures costumam ser exibidos em estâncias ou oferecidos aos turistas para estes tirarem fotografias na praia. As fotografias no Instagram mostram turistas a alimentarem lémures com bananas diretamente das suas bocas, aumentando as probabilidades de transmissão de doenças, diz Marni LaFleur. (Por exemplo, tanto os lémures selvagens como os de estimação já apresentaram resultados positivos para a raiva.)

Os lémures-de-cauda-anelada e os lémures-castanhos são geralmente os preferidos enquanto animais de estimação, sobretudo porque vivem em grandes grupos familiares e são mais fáceis de encontrar, diz Jonah Ratsimbazafy, primatólogo malgaxe que também é presidente da Sociedade Internacional de Primatologia, uma organização de pesquisa e conservação. Jonah diz que o incidente relatado pela equipa de Marni LaFleur é “um alarme para as autoridades e pessoas que mantêm lémures ilegalmente”.

Os lémures de estimação podem tornar-se agressivos, pelo que costumam ser abandonados na idade adulta e são libertados nas florestas onde podem provocar surtos de doenças, diz Marni, que também é fundadora da Lemur Love, uma organização sem fins lucrativos sediada nos EUA que combate o comércio ilegal de lémures.

Os lémures de estimação vivem muitas vezes em espaços confinados e sofrem de desnutrição. Embora o contacto de proximidade entre pessoas e primatas não humanos exacerbe o risco de transmissão de doenças, os donos de lémures em cativeiro chegam a incentivar os turistas para partilharem bananas com os animais, alimentando-os diretamente com a boca.

Fotografia de Louise Jasper

Ainda não se sabe se podem acontecer casos de transmissão de tuberculose de lémure para lémure, ou de lémure para humano, mas este caso deixa bem patente que os animais devem ser colocados em quarentena e testados antes de serem libertados na natureza, diz Marni.

A tuberculose nunca foi detetada num lémure na natureza, e raramente foi detetada em lémures em cativeiro. “Para além disso, nenhum lémure-de-cauda-anelada vive perto do centro de resgate, aumentando as probabilidades de o lémure ter sido infetado por um humano”, diz Marni. O sequenciamento do genoma revelou que a estirpe resistente a medicamentos da bactéria que adoeceu este lémure não é compatível com a tuberculose que circula entre as pessoas na região perto do centro de resgate.

Marni diz que, muito provavelmente, o lémure foi trazido de uma parte diferente da ilha e infetado por alguém ao longo do caminho. “Os lémures jovens costumam ser retirados das mães alguns meses após o nascimento, levando à desnutrição que os torna particularmente vulneráveis a doenças como a tuberculose.”

“A forma mais provável de infeção foi através de um humano”, diz Bobby Schopler, veterinário do Centro Lémure da Universidade Duke, em Durham, na Carolina do Norte, que não participou no estudo. Bobby diz que, nos seus 15 anos de trabalho com lémures, onde testa rotineiramente os animais para a tuberculose, o centro nunca registou um único caso.

Os lémures estão a desaparecer na natureza devido à desflorestação e ao comércio de animais de estimação; para além disso, também são mortos pela sua carne – a caça está a aumentar cada vez mais desde a chegada da pandemia. Marni diz que, atualmente, só devem restar cerca de 5.000 lémures-de-cauda-anelada selvagens.

“Dados os riscos de transmissão de doenças, as autoridades precisam de fazer mais para que as proibições de se manter lémures como animais de estimação sejam cumpridas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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