Mais de 130 anos após a sua descoberta, esta mariposa foi finalmente fotografada viva

A mariposa Dichagyris longidens, a 11.000ª imagem do Photo Ark da National Geographic, é um lembrete do papel crucial desempenhado pelos insetos.

Published 10/02/2021, 16:45 WET
Joel Sartore fotografou a mariposa Dichagyris longidens em setembro de 2020 perto de Santa Fé, no ...

Joel Sartore fotografou a mariposa Dichagyris longidens em setembro de 2020 perto de Santa Fé, no Novo México.

Fotografia de JOEL SARTORE, NATIONAL GEOGRAPHIC PHOTO ARK

Um mês após o início da pandemia de coronavírus, o fotógrafo Joel Sartore acordou  de manhã cedo na sua casa em Lincoln, no Nebrasca, e saiu para ir buscar o jornal. Com as suas viagens para 2020 canceladas, viagens que costumam durar seis meses por ano, Sartore não sabia o que fazer.

Na alpendre da sua casa, uma panóplia de insetos a zumbir em torno de uma luz captou a sua atenção – libelinhas, cigarras, besouros e muitos mais. De repente, Sartore sentiu-se mais animado.

“Pensei: aposto que me consigo manter ocupado durante esta pandemia a fotografar insetos e outros invertebrados”, diz Sartore. Enquanto fundador do Photo Ark da National Geographic, Joel pretende documentar todas as espécies que vivem em zoológicos e santuários de vida selvagem pelo mundo inteiro.

Depois daquela manhã de abril, Sartore recrutou dois dos seus filhos mais velhos e convidou os amigos aposentados Loren e Babs Padelford, entomologistas amadores do Nebrasca que dedicam o seu tempo a fotografar insetos. A equipa começou a vasculhar os campos e pradarias no Nebrasca e em cinco estados vizinhos à procura de pequenas criaturas, incluindo a feroz formiga-leão, as coloridas cigarrinhas e os fininhos insetos-assassinos. Resumindo, adicionaram 900 espécies novas ao Photo Ark em apenas oito meses.

“Perceber que algo de tão vital para o Photo Ark esteve este tempo todo debaixo do meu nariz é simplesmente incrível”, diz Sartore, que fotografou a maioria dos invertebrados no campo, em tendas, e libertou-os novamente na natureza.

Para a 11.000ª espécie a ser adicionada a este esforço de décadas, Sartore escolheu a mariposa Dichagyris longidens. (Conheça o gato-chileno, um felino misterioso que assinalou a 10.000ª fotografia de Sartore no Photo Ark.)

Depois de ter sido nomeada em 1890, esta mariposa de cerca de dois centímetros de comprimento, nativa do sudoeste dos EUA, foi praticamente esquecida. De facto, sabe-se tão pouco sobre esta espécie que a fotografia de Sartore é a primeira de um espécime vivo.

“Os mamíferos recebem toda a atenção – os gorilas, os tigres – mas são os insetos que nos salvam a todos”, diz Sartore, citando o papel que os insetos desempenham enquanto polinizadores e necrófagos cruciais que degradam resíduos. Só nos EUA, os insetos contribuem em cerca de 70 mil milhões de dólares por ano para a economia. Ao mesmo tempo, muitos estudos mostram que os insetos também estão a desaparecer a um ritmo acentuado pelo mundo inteiro, em grande parte devido à perda de habitat e aos pesticidas agrícolas.

Akito Y. Kawahara, professor associado e curador de Lepidóptera (mariposas e borboletas) no Museu de História Natural da Flórida, aplaudiu a decisão de Sartore de destacar uma mariposa para assinalar este marco do projeto Photo Ark.

“Ele está a chamar a atenção para as coisas pequenas do mundo – coisas que são verdadeiramente subestimadas”, diz Akito.

Mariposa mistério

Quando Sartore e a sua equipa capturaram a mariposa Dichagyris longidens ao longo do rio Pecos, no Novo México, em setembro de 2020, enviaram uma fotografia desta espécie misteriosa para Bob Biagi, editor do site BugGuide, um site de identificação de espécies. A resposta de Bob foi: “Esperamos pela sua imagem há pelo menos 130 anos.”

A mariposa Dichagyris longidens é um tipo de larva – pequenas mariposas castanhas que parecem praticamente iguais às outras. Os próprios cientistas têm dificuldades em distingui-las, diz Akito, e é por isso que esta mariposa foi tão pouco estudada.

As mariposas larva têm esta designação porque as suas lagartas emergem do solo à noite e arrancam os caules das plantas, geralmente mudas, derrubando-as. Algumas espécies, como a Euxoa auxiliaris, são consideradas pragas agrícolas, mas a maioria é inofensiva para as colheitas, diz Akito.

As mariposas larva também ajudam a alimentar morcegos (são particularmente “carnudas”, diz Akito) e polinizam flores que florescem durante a noite. O papel das mariposas enquanto polinizadoras é frequentemente ofuscado aos olhos do público pelas borboletas e abelhas.

A Terra é o lar de cerca de 160.000 espécies conhecidas de mariposas e borboletas, mas é provável que outras 200.000 permaneçam por identificar. “Há inúmeros insetos sobre os quais sabemos pouco”, diz Scott Bundy, professor de entomologia na Universidade Estadual do Novo México.

“Esperamos pela sua imagem há pelo menos 130 anos.”

por ROBERT BIAGI, EDITOR, BUGGUIDE

O Novo México tem muitas espécies de insetos não documentadas, em parte porque se tornou estado há relativamente pouco tempo, em 1912. Nos estados do leste dos Estados Unidos, os entomologistas já catalogam espécies há séculos, diz Scott.

“Para mim, essa é a parte mais divertida – ainda temos muito para aprender sobre o que temos aqui.”

Insetos enquanto ameaças – e soluções

De acordo com um estudo recente, as mariposas e borboletas estão a desaparecer mais depressa do que os outros grupos de insetos, e muitas espécies podem desaparecer antes de serem identificadas.

“As alterações climáticas representam um enorme problema para as mariposas”, diz Akito. A oscilação das temperaturas pode confundir as lagartas sobre quando chega o momento de se transformarem em crisálida, e os incêndios florestais cada vez mais extremos podem queimar as lagartas vivas.

Outra das ameaças é a poluição luminosa. Enquanto criaturas notívagas, as mariposas orientam-se pelo luar, mas podem distrair-se com a iluminação artificial, acabando por circular as luzes tantas vezes que ficam exaustas e tornam-se presas fáceis, explica Akito.

Photo Ark: A Arca Fotográfica de Joel Sartore

Akito Y. Kawahara publicou recentemente um estudo onde detalha oito coisas simples que as pessoas podem fazer para ajudar as mariposas e outros insetos, como desligar as luzes no escritório e em casa durante a noite e plantar vegetação nativa.

Akito também incentiva as pessoas a terem curiosidade sobre o mundo que as rodeia: Saia de casa com o seu smartphone, vire pedras e partilhe fotografias do que encontra, diz Akito. Estes dados de ciência-cidadã podem complementar as pesquisas científicas, sobretudo durante a pandemia, quando a capacidade dos cientistas para trabalhar no terreno é limitada.

“Espero que mais fotógrafos não se sintam apenas atraídos pela megafauna carismática”, diz Akito, “e que percebam que existe uma diversidade extraordinária de animais incríveis mesmo nos nossos quintais.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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