Nova espécie de camaleão pode ser o réptil mais pequeno do mundo

Mais ou menos do tamanho de uma semente de girassol, esta recém-descrita criatura de Madagáscar já pode estar em perigo crítico de extinção.

Publicado 4/02/2021, 11:47 WET
Um camaleão Brookesia nana fêmea em Madagáscar. Esta espécie é provavelmente o réptil mais pequeno na ...

Um camaleão Brookesia nana fêmea em Madagáscar. Esta espécie é provavelmente o réptil mais pequeno na Terra.

Fotografia de FRANK GLAW, ZOOLOGISCHE STAATSSAMMLUNG MÜNCHEN

Cientistas descobriram uma pequena espécie de camaleão num trecho de floresta tropical no norte de Madagáscar. Este nano-camaleão tem aproximadamente o tamanho de uma semente de girassol, cabe na ponta de um dedo e pode ser o réptil mais pequeno do mundo.

Oficialmente conhecida por Brookesia nana, ou B. nana para abreviar, esta nova espécie é tão pequena que aparentemente sobrevive com uma dieta de ácaros e colêmbolos.

“À primeira vista, percebemos que era uma descoberta importante”, diz Andolalao Rakotoarison, herpetologista malgaxe e coautora do novo estudo publicado na revista Nature.

Encontrar um réptil tão pequeno levanta questões interessantes sobre os limites inferiores do tamanho do corpo de vertebrados. E também destaca a biodiversidade surpreendente – e altamente ameaçada – de Madagáscar. Os cientistas suspeitam que este camaleão rapidamente ficará classificado em perigo crítico de extinção.

A espreitar nas ervas

Como acontece com os outros camaleões, este minúsculo réptil possui uma língua projétil que usa para capturar presas. Estas criaturas encontraram um nicho de sucesso no seu habitat nativo; caçam durante o dia no chão da floresta tropical e retiram-se para a segurança das folhas das ervas à noite.

Um camaleão Brookesia nana macho na ponta do dedo de um investigador. Estes animais têm aproximadamente o tamanho de uma semente de girassol.

Fotografia de FRANK GLAW, ZOOLOGISCHE STAATSSAMMLUNG MÜNCHEN

Se surgir um predador maior durante a noite, a oscilação das folhas alerta o camaleão para o perigo, chegando a um ponto em que este simplesmente cai na vegetação rasteira, diz Mark Scherz, biólogo evolucionário da Universidade de Potsdam, na Alemanha, e coautor do estudo.

Até agora, os cientistas observaram apenas dois indivíduos: um macho e uma fêmea, ambos capturados em 2012 durante uma expedição a um aglomerado de montanhas conhecidas por maciço Sorata.

Os investigadores suspeitam que este nano-camaleão pode ter o título de réptil mais pequeno do mundo. O seu competidor mais próximo é uma criatura chamada Brookesia micra, uma espécie de camaleão minúsculo que fez sua estreia em 2012, quando foi fotografado na cabeça de um fósforo.

“Parece uma tolice dizermos que tem alguns milímetros a menos do que a outra criatura”, diz Mark. “Mas quando alguns milímetros são dois ou três por cento do tamanho do seu corpo, é significativo.”  

“Grande parte da ciência acontece nestas etapas pequenas e incrementais”, acrescenta Mark.

O facto de terem sido encontrados apenas dois indivíduos dificulta a generalização da descoberta. É possível que outros camaleões desta espécie sejam maiores ou mais pequenos, assim como os humanos podem ter alturas diferentes. Na verdade, os cientistas sabem que os camaleões nesta família tendem a ter fêmeas maiores e machos mais pequenos, o chamado dimorfismo sexual.

Também é difícil determinar quando um animal tão pequeno é realmente adulto. Felizmente, quando Mark submeteu a fêmea a uma microtomografia computorizada, encontrou evidências de óvulos nos ovários. “Corri escada acima a pensar que tínhamos uma confirmação”, diz Mark.

Determinar a idade dos camaleões macho é um pouco mais difícil e requer um exame cuidadoso aos órgãos genitais dos animais. Quando são juvenis, os órgãos genitais dos machos – conhecidos por hemipénis – assemelham-se a balões lisos, mas ficam mais complexos e adornados à medida que envelhecem. Como este macho não tinha um “balão liso”, provavelmente não era juvenil, diz Mark. Os camaleões mais pequenos têm órgãos genitais relativamente grandes em comparação com as espécies relacionadas que têm corpos maiores.

“A fêmea é certamente adulta”, diz Tony Gamble, biólogo evolucionista que investiga lagartixas anãs na Universidade Marquette, mas que não participou neste estudo. “E aparentemente o macho também é um adulto.”

Quão pequeno pode ser?

Para além da sua aparência engraçada, os cientistas dizem que a descoberta de mais uma espécie minúscula de camaleão levanta todos os tipos de questões sobre os limites de tamanho nos vertebrados.

Por exemplo, o B. nana é muito mais pequeno do que as aves ou mamíferos mais pequenos, diz Mark, mas existem sapos que são ainda mais pequenos.

Porém, existe um determinado ponto em que se atinge o limite para o quão pequeno um réptil pode ser. Parte deste problema prende-se com a área de superfície, diz Tony Gamble. Embora possa parecer contraintuitivo, as criaturas mais pequenas, em comparação com as criaturas maiores, tendem a ter uma proporção maior de área de superfície em relação ao volume. E quanto maior for essa proporção, mais suscetível o animal é à perda de água.

“Também parece existir um limite para onde se podem colocar todas as coisas”, diz Tony. Muitas das criaturas pequenas têm tamanhos de crânio reduzidos ou ossos sobrepostos, e algumas perdem estruturas inteiras com a evolução.

“É como mudar de uma casa enorme para um apartamento minúsculo sem abdicar de nada. Estas coisas precisam de espaço”, diz Tony.

Brookesia nana, cuidado

Infelizmente, o futuro deste minúsculo camaleão é incerto. A floresta montanhosa onde estes animais se encontram já está gravemente degradada, diz Andolalao Rakotoarison.

Muitas pessoas nesta região já não têm dinheiro para comprar arroz ou carne, diz Mark. A pobreza e o aumento da população levaram à desflorestação das florestas tropicais para dar lugar à agricultura e pecuária. De acordo com a NASA, a desflorestação afeta cerca de 94% das terras anteriormente florestadas de Madagáscar.

Com uma faixa pequena de alcance e ameaças ao seu habitat, a nova espécie de camaleão rapidamente irá encaixar no estatuto de perigo crítico de extinção da União Internacional para a Conservação da Natureza. A boa notícia é a de que o maciço Sorata foi recentemente incluído numa nova área protegida de Madagáscar.

“É muito bonito dizer que temos a esperança de que as pessoas parem de desflorestar esta região”, diz Mark. “Mas até que o futuro económico de Madagáscar se altere, não há esperança para a sua vida selvagem, porque as pessoas precisam de comer.”

Enquanto isso não acontece, Tony Gamble diz que cada nova espécie serve de lembrete para os cientistas e o público saberem que Madagáscar é uma ilha  extremamente diversa.

“Quando algo assim é encontrado, creio que o que mantem estas histórias no centro das atenções e na nossa imaginação é o facto de pensarmos que as criaturas vivas podem ficar sempre um pouco mais pequenas”, diz Tony.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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