Quase 5 mil tartarugas marinhas resgatadas nas águas geladas de ilha no Texas

Paralisadas pelas águas geladas em torno da ilha de South Padre, milhares de tartarugas marinhas começaram a dar à costa, onde voluntários se reuniram para as salvar – sem eletricidade ou aquecimento.

Fotografias Por SANDESH KADUR
Publicado 23/02/2021, 14:45
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Os voluntários Irving A. Hernandez, David Daniel Barrera e Robert “DJ” Lerma transportam uma tartaruga-verde em coma numa baía perto da ilha de South Padre, no Texas. Na semana passada, os habitantes de South Padre resgataram mais de 4.900 tartarugas marinhas das águas geladas.

Fotografia de Sandesh Kadur

Enquanto as temperaturas negativas cortavam a eletricidade e congelavam os canos da água nas casas da ilha de South Padre, no Texas, no Golfo do México, os habitantes da ilha empenhavam-se numa missão de resgate: salvar tartarugas marinhas congeladas.

Pelos menos 4.900 tartarugas.

Uma tartaruga marinha atordoada pelo frio na costa rochosa da ilha de South Padre. As tartarugas marinhas dependem do calor ambiente para regular a sua temperatura corporal, e quando a água cai abaixo dos 10 graus centigrados – temperatura rara em Laguna Madre, o estuário em torno da ilha – os batimentos cardíacos das tartarugas abrandam, deixando-as paralisadas, mas conscientes.

Fotografia de Sandesh Kadur

Este é o maior evento de paralisação devido ao frio documentado nos Estados Unidos desde que a Sea Turtle Stranding and Salvage Network, parte da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, começou a manter registos em 1980, diz Donna Shaver, coordenadora da agência. “Por todo o estado, foram registadas mais de 7.000 tartarugas atordoadas pelo frio.”

Uma frente fria rara vinda do Ártico atingiu o Texas no final da semana passada, provocando uma queda acentuada nas temperaturas. Os animais de sangue frio, como as tartarugas marinhas, dependem do calor ambiente para regular a sua temperatura corporal, e quando a água cai abaixo dos 10 graus – temperatura rara na ilha de South Padre – os batimentos cardíacos das tartarugas marinhas abrandam, deixando-as paralisadas, mas conscientes.

Esquerda: Um voluntário da organização conservacionista Sea Turtle Inc. transporta uma tartaruga-verde para o Centro de Convenções da ilha de South Padre. Encerrado devido às restrições da COVID-19, este centro tornou-se num quartel-general temporário para o resgate de tartarugas, abrigando cerca 4.200 animais.
Direita: DeeOnda Ahadi identifica tartarugas-verdes no centro de convenções. A equipa da Sea Turtle Inc. identifica as tartarugas com a data da sua chegada para monitorizar há quanto tempo estão em tratamento.

Fotografia de SANDESH KADUR

Tartarugas verdes atordoadas pelo frio descansam em lonas no centro de convenções. O atordoamento em massa devido ao frio deu à equipa da Sea Turtle Inc. uma noção sobre o tamanho populacional das tartarugas-verdes na região, diz Amy Bonka, chefe de conservação da organização. “Normalmente, não vemos tantas tartarugas-verdes ao mesmo tempo fora de eventos como este”, diz Amy.

Fotografia de Sandesh Kadur

“Elas sabem que deviam estar a mexer as barbatanas e a erguer a cabeça para respirar. Todos esses instintos estão a acontecer, mas os seus corpos não estão a reagir aos instintos”, diz Wendy Knight, diretora executiva da Sea Turtle Inc., organização sem fins lucrativos que está na ilha a gerir os esforços de resgate das tartarugas marinhas.

Agora, tartarugas resgatadas de todos os tamanhos e idades estão por toda a parte. “Por todo o lado”, diz Wendy. “Temos tartarugas do tamanho de uma tigela de salada, tartarugas do tamanho de um prato de jantar e algumas tartarugas do tamanho de uma piscina para bebés.”

Cerca de 500 tartarugas estão inertes em lonas no centro de resgate. Preenchem todos os centímetros do espaço, incluindo a loja de souvenires. Outras 4.400 – a maioria tartarugas-verdes, tartarugas-de-kemp e tartarugas-comuns – estão no centro de convenções da ilha, que foi cedido devido ao elevado número de tartarugas resgatadas. “Temos perto de dois campos de futebol com tartarugas naquele edifício”, diz Wendy.

“Sem este resgate, a população de tartarugas marinhas da ilha teria sido dizimada pelo frio, destruindo quatro décadas de trabalho de conservação que visa proteger as tartarugas ameaçadas da região, que também enfrentam o perigo de colisões com barcos e o emaranhamento em equipamentos de pesca.”

O desafio de cuidar de tantos animais foi inicialmente agravado pelo facto de o centro de resgate e o centro de convenções, à semelhança do que aconteceu em grande parte do Texas, terem ficado vários dias sem energia. Felizmente, diz Wendy, é fundamental aquecer gradualmente as tartarugas atordoadas pelo frio. Mesmo que os edifícios não tivessem aquecimento, estar num espaço fechado sobre uma lona é significativamente mais quente do que estar na água.

Voluntários descarregam tartarugas atordoadas de camiões para as transportarem para o centro de convenções. Quase 75% das casas na ilha de South Padre ficaram sem eletricidade durante a tempestade. Apesar destes desafios, os habitantes surgiram em massa para ajudar as tartarugas marinhas.

Fotografia de Sandesh Kadur

Missão massiva de resgate

O resgate começou no oceano. Durante o fim de semana, embarcações comerciais e botes patrulharam as águas geladas, recolhendo centenas de tartarugas atordoadas pelo frio que flutuavam à superfície.

Na terça-feira, as tartarugas começaram a dar à costa na praia. Embora as decisões sobre quando se deve intervir para ajudar a vida selvagem possam ser complicadas para os conservacionistas, aqui não se colocou essa questão, diz Wendy. “As tartarugas da ilha não descansam na praia por diversão. Se alguma estiver na praia, é um sinal claro de que está em perigo.”

Gina McLellan, voluntária de longa data da Sea Turtle Inc., foi à praia e colocou dezenas de tartarugas na sua carrinha Subaru para as resgatar. Dezenas de outros habitantes locais fizeram o mesmo. Foram necessários pelo menos 10 homens para içar uma das tartarugas, com mais de 180 quilos e pelo menos 150 anos de idade, para uma carrinha de caixa aberta. Na tarde de terça-feira, diz Gina McLellan, havia uma fila de carros de 360 metros fora do centro de convenções, cada carro repleto com tartarugas.

“Essa fila só parou de aumentar às seis da tarde. Independentemente de os carros terem uma tartaruga ou duzentas, limitavam-se a esperar”, diz Gina. Uma menina de cinco anos e a sua família trouxeram tartarugas e regressaram no dia seguinte para trazer lonas e outros mantimentos.

Wendy diz que está maravilhada com a manifestação de solidariedade dos habitantes de South Padre. “Temos pessoas que não têm eletricidade e água em casa há três ou quatro dias e trabalham entre 15 a 18 horas por dia para salvar as tartarugas. Os postos de gasolina não têm combustível, os supermercados não têm água, mas as pessoas continuam a aparecer. Isto revela algo sobre o calibre de uma comunidade.”

Desafio atrás de desafio

Antes deste esforço massivo de resgate, os tanques da Sea Turtle Inc. tinham 38 tartarugas marinhas em recuperação e cinco tartarugas residentes, incluindo Allison, uma tartaruga-verde, e Fred, uma tartaruga-comum, cada uma com apenas uma barbatana. Quando o centro ficou sem eletricidade na segunda-feira às 2 da manhã, a temperatura da água nos tanques desceu. A equipa teve de remover as tartarugas da água e de as colocar em recipientes sobre lonas – uma situação stressante para os animais, diz Wendy.

Os engenheiros do centro SpaceX que fica nas proximidades, em Boca Chita, entraram em ação. “Eles chegaram ao centro de resgate depois da meia-noite de quarta-feira com o maior gerador que já vi na vida”, diz Wendy. “Por volta da 1:30 da manhã, sentei-me no parque de estacionamento e observei-os a restabelecer a energia.”

A equipa está otimista de que as tartarugas vão sobreviver, mas os esforços para colocar a água dos tanques à temperatura adequada ainda estão a decorrer. Dez dos aquecedores usados para regular a temperatura da água ficaram inutilizados quando a corrente foi cortada, e a organização está agora a angariar fundos para os substituir.

Milhares de tartarugas atordoadas pelo frio descansam em lonas e alguidares no centro de convenções. A equipa e os voluntários da Sea Turtle Inc. monitorizam as tartarugas, mantendo-as limpas e administrando soro fisiológico para manter os olhos dos animais lubrificados.

Fotografia de Sandesh Kadur

Enquanto a equipa e os voluntários continuam a monitorizar os milhares de novas entradas, o frio prolongado continua a ser uma preocupação. “O maior erro que podemos cometer é libertar as tartarugas antes de a água estar quente o suficiente”, diz Wendy. Os cientistas estão a monitorizar a temperatura da água em torno da ilha, esperando que atinja os cerca de 12 a 18 graus.

Enquanto isso, algumas das tartarugas mais pequenas, que tendem a congelar mais depressa, mas que também recuperam mais rápido, estão a começar a acordar. “Este é o estágio em que os seus corações começam a inchar”, diz Wendy.

“Por agora parece estar tudo bem, mas pode não permanecer assim durante muito tempo.” Embora as funções corporais das tartarugas cessem enquanto as tartarugas estão em coma – comer, mover, defecar – estas funções regressam assim que as criaturas recuperam.

“Resumindo, precisamos que o clima aqueça ou estaremos prestes a ter 4.700 tartarugas... acordadas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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