Turistas que tiram selfies com gorilas selvagens podem infetar os animais com COVID-19 e outras doenças

A maioria das selfies com gorilas que os investigadores encontram no Instagram violam as regras de distanciamento social destinadas a manter estes primatas – que estão em perigo de extinção – em segurança.

Published 23/02/2021, 12:55 WET
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Um gorila-das-montanhas a ser fotografado no Parque Nacional dos Vulcões, no Ruanda. Estes animais podem contrair doenças humanas, pelo que o distanciamento e outras medidas são importantes para os proteger.

Fotografia de Christophe Courteau, Nature Picture Library, Alamy Stock Photo

A COVID-19 não afeta apenas os humanos – os animais também a podem contrair. As espécies infetadas até agora incluem gatos domésticos, leões, tigres, visons e cães. Em janeiro, três gorilas do Zoo Safari Parque de San Diego testaram positivo, os primeiros casos em primatas não humanos.

Os gorilas – que provavelmente foram infetados por um tratador assintomático – acabaram por recuperar com ajuda médica. Winston, de 49 anos, o líder do grupo de gorilas, tem uma doença cardíaca, desenvolveu pneumonia e foi tratado com antibióticos, medicamentos para o coração e terapia com anticorpos monoclonais.

O facto de estes animais serem suscetíveis ao coronavírus não surpreende os investigadores, dadas as semelhanças entre humanos e primatas, incluindo gorilas, chimpanzés e orangotangos. A preocupação agora é a de estes animais poderem estar expostos à COVID-19 na natureza.

Um novo estudo publicado na revista científica People and Nature revela que este é um risco real.

Para ter uma noção de como os turistas chegam perto dos gorilas-das-montanhas nos três países onde estes primatas ameaçados ainda existem – Uganda, Ruanda e República Democrática do Congo (RDC) – uma equipa de cientistas analisou várias selfies tiradas por turistas com animais antes da chegada da pandemia. A equipa descobriu que a maioria das pessoas que publicam estas fotografias estavam mais perto dos gorilas do que o permitido, muitas vezes perto o suficiente para propagar doenças como o coronavírus.

“O que observámos é que os regulamentos nem sempre são respeitados e que a distância média entre turistas e gorilas tem ficado cada vez mais curta nos últimos sete anos”, diz Magdalena Svensson, professora na Universidade Oxford Brookes, no Reino Unido, e coautora do estudo publicado na People and Nature.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), organização que monitoriza o estatuto de conservação de espécies de vida selvagem, publica regularmente diretrizes sobre as boas práticas para o turismo de grandes símios, diretrizes que recomendam que se mantenha uma distância de pelo menos sete metros dos animais e o uso de máscaras faciais. Antes da pandemia, o Uganda, o Ruanda e a RDC adotaram a regra dos sete metros; mas só a RDC é que exige o uso de máscara.

O turismo de gorilas está neste momento a operar, embora com capacidade limitada e medidas de segurança mais rígidas do que antes da pandemia. Mas Magdalena Svensson alerta que, se as regras não forem reforçadas e aplicadas daqui para frente, os animais correm um perigo significativo de contrair COVID-19.

“Não queremos acabar com o turismo de gorilas ou impedir que as pessoas vejam estes animais incríveis, mas queremos tornar este turismo o mais seguro possível para todos”, diz Magdalena.

Aberto a infeções

O turismo é uma das grandes ajudas para a conservação de primatas, trazendo verbas essenciais para apoiar nos esforços de proteção e as economias locais. O turismo também ajuda a manter os caçadores furtivos afastados, trazendo visitantes e guardas florestais para áreas onde os animais se encontram e mostrando à população local o valor de manter estes primatas vivos e saudáveis.

Mas, devido à nossa semelhança genética com os símios, os humanos transmitem-lhes regularmente uma série de doenças, desde E. coli, sarna, giardia e até pneumonia.

As doenças respiratórias são um flagelo particular. Vários dos patógenos que geralmente provocam apenas sintomas semelhantes aos de uma constipação nos humanos podem ser fatais para os grandes símios – estes tipos de vírus são a principal causa de morte de algumas populações. Em 2016 e 2017, por exemplo, um surto de doença respiratória humana em chimpanzés no Parque Nacional de Kibale, no Uganda, matou 25 animais num só grupo e infetou 44% dos 205 membros do grupo.

Os gorilas no Zoo de San Diego são os primeiros primatas de que há conhecimento a terem sido infetados com COVID-19 fora de um ambiente laboratorial. Experimentalmente, os cientistas já confirmaram que os macacos Chlorocebus aethiops, Macaca mulatta e Macaca fascicularis podem contrair o vírus e apresentar sintomas graves.

“Todos os símios e muitos macacos podem ser suscetíveis à infeção e à doença COVID-19”, diz Tony Goldberg, epidemiologista da Universidade de Wisconsin Madison.

Se os gorilas selvagens forem infetados com COVID-19, o vírus pode ser muito mais grave do que foi para os animais que estão em cativeiro no Zoo de San Diego, que tiveram “cuidados veterinários excelentes”, acrescenta Tony Goldberg. “Pode propagar-se muito mais depressa entre as famílias de gorilas, que passam o tempo todo juntas.”

Investigação criativa

Magdalena Svensson e os seus colegas estavam interessados em perceber o quão rigorosamente as regras da UICN têm sido seguidas pelas pessoas que tentam ver gorilas. Dadas as limitações atuais nas viagens, os investigadores procuraram no Instagram para terem uma visão sobre a forma como os turistas se comportam na natureza. “Estamos a tentar ser criativos e a fazer investigações que nos possam ajudar na conservação dos primatas, mesmo que [remotamente]”, diz Magdalena.

Uma pesquisa com as hashtags #gorillatrekking e #gorillatracking revelou 858 selfies com gorilas-das-montanhas publicadas entre 2013 e 2019. Magdalena e um colega estimaram em separado a distância entre um gorila e um humano em cada fotografia. Se as distâncias calculadas por ambos diferissem significativamente, pediam a um terceiro colega para avaliar a distância.

Os resultados não apresentam um quadro completo sobre a forma como todos os turistas se comportam perto dos cerca de mil gorilas-das-montanhas que restam atualmente na natureza, mas sugerem que um número significativo de pessoas não está a seguir as regras. Das 858 selfies, 86% foram tiradas até uma distância de quatro metros de um gorila. Por outro lado, apenas 3% das fotografias foram tiradas a pelo menos sete metros de distância, conforme exigido. Em 25 fotografias, as pessoas estavam até a tocar nos animais.

Os turistas parecem estar a aproximar-se cada vez mais dos grandes símios: durante o período de estudo de seis anos, a distância média entre as pessoas e os gorilas diminuiu cerca de um metro.

Os investigadores também examinaram o uso de máscaras faciais nas selfies. Na RDC, onde as máscaras são exigidas, descobriram que 65% das pessoas as usavam. No Uganda e no Ruanda, onde as máscaras não são obrigatórias, nenhuma pessoa usava máscara nas selfies. Com as investigações de campo e o turismo de vida selvagem lentamente a regressar, o Ruanda e o Uganda exigem agora máscaras faciais e aumentaram a distância de segurança dos sete para os nove metros. Não se sabe se estas mudanças serão permanentes. (As expedições da National Geographic que levam os visitantes para ver grandes símios seguem os protocolos de saúde e segurança estabelecidos pelas autoridades governamentais de vida selvagem.)

“Os autores deste estudo devem ser parabenizados por reconhecerem que as selfies são uma fonte de dados pouco utilizada”, diz Tony Goldberg, que não esteve envolvido na investigação. “É muito difícil obter dados exatos sobre os encontros com símios selvagens a partir de entrevistas com turistas ou guias, e as fotografias podem revelar aspetos diferentes da experiência turística, aspetos que, de outra forma, não seriam aparentes.”

Uma oportunidade para mudar

Os problemas revelados pelo estudo das selfies não são exclusivos dos gorilas, acrescenta Tony. Em 2018, um dos seus alunos de pós-graduação, Darcey Glasser, participou em 101 excursões de observação de chimpanzés no Uganda e relatou mais de 900 casos de turistas envolvidos em ações corporais em áreas de chimpanzés que poderiam propagar doenças – tossir, espirrar, urinar e cuspir. Darcey Glasser também observou milhares de momentos em que os turistas tocavam nos troncos e ramos das árvores com os quais os chimpanzés podiam entrar em contacto. Embora tocar nas árvores não viole nenhuma das regras atuais, é um dos diversos modos pelos quais existe a possibilidade de transmissão de doenças, e  que poderiam ser atenuados com medidas mais rigorosas, conclui Darcey.

Magdalena Svensson tem esperança de que a pandemia de coronavírus ajude a melhorar as regulamentações e a fiscalização no turismo de primatas. “As máscaras faciais”, diz Magdalena, “são agora a norma e podem ser facilmente incluídas enquanto acessórios obrigatórios para todas as observações de primatas”.

Gladys Kalema-Zikusoka, veterinária e fundadora da Conservation Through Public Health, uma organização sem fins lucrativos sediada no Uganda que promove a coexistência entre pessoas, gorilas e outros animais selvagens, também espera que a COVID-19 sirva de catalisador para uma mudança positiva.

“Os resultados desta investigação vão ser úteis para criar uma cultura de turismo responsável para gorilas, chimpanzés e orangotangos, e também pode ser adaptada para outros primatas”, diz Gladys.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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